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Em busca de sementes de qualidade

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Armazém de sementes de soja em Barreiras (BA): insatisfação dos agricultores estimula mercado de produtos "premium"
A insatisfação dos agricultores do país com a qualidade das sementes de soja está impulsionando um novo segmento de mercado, dedicado à oferta de um insumo "premium". Como os cafeicultores, que selecionam grãos com características superiores e vendem a preços mais elevados, algumas sementeiras já segregam a fatia de maior excelência da produção e cobram mais por isso.

Por lei, uma semente de soja deve garantir 80% de germinação, mas uma parte das empresas está trabalhando para oferecer algo mais próximo de 100%. "A lavoura não fica comprometida com um padrão de germinação de 90%, que é o normal. Mas há mercado para lotes de qualidade superior, vendidos a um valor diferenciado", afirma Carlos Augustin, proprietário da Sementes Petrovina, de Rondonópolis (MT).

Augustin planeja elevar sua produção de sementes de soja para entre 800 mil de 900 mil sacas na próxima safra (2016/17), ante 650 mil no ciclo atual, e se prepara para separar pela primeira vez os lotes de maior qualidade. A ideia é cobrar 10% mais que pela semente padrão, que oscilou de R$ 120 a R$ 140 por saca de 40 quilos em 2015/16. "Em geral, são sementes colhidas com menos danos, sejam mecânicos, de umidade ou de picada de percevejo", afirma ele, que também preside a Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat).

A Sementes Oilema, de Barreiras (BA), começou a segregar sua produção de sementes de soja há seis anos: de 2% a 3% da produção atingiam níveis diferenciados de qualidade. Nesta safra, o percentual foi de 30%, de uma oferta de 500 mil sacas. "A semente é um chip carregado de tecnologia que vai para o campo. Leva uma carga genética e tratamentos com fungicidas, inseticidas e micronutrientes que têm custo. Por isso, ela não tem mais o direito de falhar", diz Celito Missio, diretor da Oilema.

Há 18 anos no mercado, a Oilema investiu pesadamente no processo de produção de sementes em si, mas percebeu que, sem estratificar a qualidade, o agricultor não valorizava o produto. Com a seleção, a Oilema garante o mínimo de 95% de emergência da soja no campo. A empresa também optou por fazer a venda por unidade (a embalagem sai com 200 mil sementes) e oferece um sistema de rastreabilidade online, com dados de colheita, beneficiamento e qualidade da semente adquirida. "Programamos a entrega de acordo com a necessidade de plantio do cliente, para evitar que a semente sofra com armazenamento inadequado na fazenda", afirma o executivo.

Tanto cuidado tem seu preço, e a saca dessa semente de maior qualidade pode superar R$ 300. Mas Missio ressalta que, na medida em que a semente germina mais, o agricultor pode comprar menos. "Em um ano como esse, em que a Bahia e o Mapito [confluência entre Maranhão, Piauí e Tocantins] tiveram poucas chuvas no plantio, uma semente como essa resiste mais tempo, inclusive no campo, à espera de umidade".

Nesta safra 2015/16, multiplicaram-se as reclamações de sojicultores sobre a qualidade das sementes, especialmente em Mato Grosso – e as condições do clima têm muito a ver com isso, conforme Augustin, da Sementes Petrovina. O El Niño trouxe muito calor e atrasou as chuvas no Estado. "Quando o agricultor fica um mês guardando a semente a uma determinada temperatura à espera de chuva, acaba diminuindo a germinação. Se plantar e ficar um mês sem chover, a chance de vir a germinar também é quase zero".

Augustin conta que análises da Aprosmat revelam que a germinação média das sementes de soja produzidas em Mato Grosso ficou em 93% em 2015, ante 91,8% em 2014 e 91,6% em 2013. A demanda do Estado é de 12 milhões de sacas de semente de soja certificadas, sendo 7 milhões colhidas localmente. O restante vem de Goiás e da Bahia.

Os associados da Aprosmat estabeleceram nesta safra 2015/16 o compromisso de não vender sementes de soja com menos de 85% de germinação, conta Augustin. "No início do ano passado, sugerimos ao Ministério da Agricultura que essa elevação de padrão fosse estendida, mas os outros Estados produtores não quiseram nos acompanhar".

Para 2016/17, a associação planeja criar uma ouvidoria para centralizar as reclamações dos produtores. Muitos deles culpam sementes de baixo vigor por perdas de produtividade nesta safra. "Vamos monitorar se houver empresas produtoras com um número excessivo de reclamações", diz Augustin.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor