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Duas dimensões – Míriam Leitão

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O país que a presidente Dilma pisará esta semana tem o tamanho de 40% do território brasileiro, uma população sete vezes maior, e investe quase o dobro do que nós investimos. Mais da metade da população está no campo, mas a produção de alimentos é ineficiente. A Índia tem várias oportunidades para o Brasil. Há fatores semelhantes, diferentes e complementares entre os dois países.

A maior parte da força de trabalho indiana ainda está no campo, mas a agricultura é principalmente de subsistência. Eles são grandes importadores de alimentos. O Brasil, que tem apenas 18% de sua população no campo, é um dos maiores e mais eficientes produtores agrícolas do mundo.

De acordo com o economista João Pontes Nogueira, do Centro de Estudos e Pesquisa Brics, da PUC-Rio, a reunião desta semana em Nova Déli pode ser uma boa oportunidade para a venda de bens e serviços brasileiros. O Brasil – ao contrário de Índia e China – já fez sua transição para uma sociedade majoritariamente urbana. A Índia é mercado para matérias-primas, bens e produtos que são consumidos intensamente nesse processo de urbanização.

O economista indiano, Rakesh Vaidyanathan, da Câmara de Comércio Brasil Índia e da consultoria Jai Group, que está em Nova Déli, disse que a Marcopolo é uma empresa que tem se aproveitado desse processo indiano. Rakesh acredita que a formação do Banco dos Brics, que estará em discussão na cúpula, é uma resposta ao monopólio dos americanos sobre o Banco Mundial. Acha que isso poderá criar oportunidades para as construtoras brasileiras.

– O Banco focará o desenvolvimento da infraestrutura nos países emergentes, incluindo os Brics. Isso deve soar bem para as construtoras brasileiras, que hoje não conseguem concorrer com os chineses em base de crédito na África – afirmou.

O comércio cresceu intensamente entre os Brics nos últimos dez anos, mas Brasil e Índia no entanto podem ter mais integração do que têm. A Índia tem um mercado de capitais desenvolvido. Por falta de um BNDES, a empresa média indiana teve que abrir capital e buscar financiamento na pulverização das ações. Isso foi bem sucedido, e existem mais de 5.000 empresas de capital aberto na Índia com mais de oito mil papéis sendo negociados. O governo acabou de isentar os impostos sobre o mercado de ações para incentivar ainda mais esse movimento. Já o Brasil, pela vantagem de ter o BNDES, acabou subdimensionando as chances do mercado como fonte de financiamento e tem apenas 381 empresas na bolsa.

Rakesh Vaidyanathan, que mora no Brasil há dez anos, faz a seguinte comparação entre os dois países. O Brasil passou por um movimento forte de consolidação de empresas e a economia já nasceu muito concentrada. Isso faz com que haja pouca competição entre empresas e entre bancos. Aqui, cinco bancos controlam o mercado; lá, há muita pulverização de instituições financeiras, mas 70% dos bancos são estatais. Nesse aspecto, o capitalismo nos dois países tem problemas, mas eles são diferentes entre si: empresas familiares pequenas que são apenas regionais na Índia; empresas grandes dominando o mercado e impedindo a competição no Brasil. Apesar disso, as indianas quando vão para o mercado internacional tentam competir com os grandes do mundo, as brasileiras são mais defensivas e menos agressivas.

A Índia é o segundo país que mais cresce no grupo e conseguiu passar pela crise de 2008 sem entrar em recessão. Fechou 2009 crescendo 6,77% – enquanto o Brasil teve contração – e em 2010 acelerou para 10%. Os investimentos são um grande motor para o crescimento, porque giram em torno de 35% do PIB. No Brasil, estamos nos esforçando para chegar a 20%. O grande problema dos indianos é que eles têm enfrentado uma inflação estruturalmente alta demais, que chegou a 15% em 2009 e este ano deve ficar em torno de 9%, segundo projeção do FMI. O país tem sido leniente com essa alta dos preços, até por falta de saída. Em grande parte, é uma inflação de alimentos. Não são apenas ineficientes produtores, têm também uma enorme incapacidade de estocagem e transporte de GRÃOS por falhas de logística.

O déficit da balança comercial indiana é de matar um brasileiro de susto: US$ 153 bilhões. O país importa US$ 451 bilhões e exporta US$ 298 bilhões; tem, portanto, relações comerciais intensas com o resto do mundo. Dessa montanha de quase US$ 750 bilhões a nossa participação parece minúscula. O Brasil exportou no ano passado US$ 3,2 bilhões para os indianos, 8,4% a menos do que no ano anterior, e importou US$ 6 bilhões, alta de 43%. A maior razão do déficit comercial da Índia é o petróleo, produto do qual é fortemente dependente. Para se ter uma ideia, a projeção é de que os indianos importem US$ 100 bilhões em petróleo este ano.

Eles são grandes consumidores de matérias-primas e de produtos que temos e têm uma grande população. Vivem uma transição que vai, nas próximas décadas, tirar milhões de pessoas da miséria, do analfabetismo e da vida rural. Estão em plena transformação. O país tem tentado lutar contra o alto analfabetismo feminino – que vitima 300 milhões de mulheres, quase metade da população feminina – implantando um programa tipo bolsa escola. As famílias que mandam as meninas para a escola recebem ajuda governamental.

Em vários aspectos a Índia é uma economia muito mais atrasada que a brasileira, mas tem um polo de riqueza e sofisticação na indústria, e é fornecedora de tecnologia de informação, que escolheu como uma das suas vocações.

Fonte: O GLOBO