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Doença devasta produção asiática há mais de dois anos

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Jack Kurtz/ZUMA Press/Newscom / Jack Kurtz/ZUMA Press/Newscom

Na Tailândia, grande país exportador, produtores afirmam que 2013 é o pior ano para a atividade em três décadas

Levado ao desespero por uma praga que tem dizimado camarões jovens em todo o Leste Asiático, Suraphol Pratuangtham, um produtor de frutos do mar no sul da Tailândia, paralisou todas as operações em seus reservatórios durante mais de três meses durante o verão.

"É o pior ano das últimas três décadas para a nossa produção de camarões", lamenta Pratuangtham, que também preside a Associação de Cultivadores de Camarão da Tailândia. Ele prevê que em 2013 as exportações do país cairão à metade do volume dos anos dourados.

A doença em questão é a Síndrome de Mortalidade Precoce (SMP), que vem devastando há mais de dois anos a atividade na Ásia, sobretudo em países como Tailândia, Malásia, Vietnã e China. Mas o declínio deste ano na produção da região, responsável por 80% da oferta mundial, é ainda mais aguda, e resultou em forte aumento global de preços, que alcançaram máximas em 12 anos.

A queda das exportações, principalmente de espécies como os camarões branco e tigre – vendidos no Reino Unido como "king" e "tiger prawn" -, poderá custar US$ 1 bilhão por ano ao segmento de aquicultura de frutos do mar na região, de acordo com a Global Aquaculture Alliance, entidade americana que representa empresas do ramo.

Mas a 12 mil milhas de distância, do outro lado do Oceano Pacífico, no polo de aquicultura de El Oro, no sudoeste do Equador, Segundo Calderón, está vivendo um ano espetacular. Com os problemas na Ásia, as vendas deste pescador de camarões há um quarto de século subiram 40% apenas nos últimos dois meses.

O camarão é o fruto do mar mais negociado no mercado internacional – mais do que salmão e atum -, e a SMP abriu mercado para outros países produtores, entre os quais Equador, Indonésia, Índia e Bangladesh, não afetados pela doença.

"Estamos sendo beneficiados pelo preço. Além disso, estamos colhendo níveis muito bons de produção e a demanda está aquecida, particularmente dos EUA. De modo que a escassez de camarões asiáticos de fato nos beneficiou", diz Calderón.

Pesquisadores acreditam que a SME se alastra por meio de camarões jovens infectados, adquiridos para povoar os viveiros. E a disseminação pode ser mais rápida entre áreas onde viveiros de alta densidade são construídos bem próximas entre si.

O Equador optou pelo cultivo do camarão em baixas densidades após a crise da mancha branca, uma doença que devastou a atividade em todo o mundo na década de 1990. O país sul-americano produz 200 mil toneladas de camarão por ano em uma área total de 190 mil hectares. Na Tailândia, em um ano "normal" a produção alcança o mesmo volume em uma mesma quantidade de viveiros, mas a área total é de 60 mil a 70 mil hectares, segundo Calderón.

A manifestação da SMP – também confirmada recentemente no México – produziu uma mudança dramática nos fluxos comerciais de camarão. José Antonio Camposano, presidente da Câmara Nacional de Aquicultura do Equador, observa que o país foi beneficiado com as mudanças na demanda asiática provocadas pela doença, bem como pelo aumento do consumo chinês.

Ele afirma que o Vietnã, que beneficia camarões, agora importa do Equador devido à falta de crustáceos originados da Tailândia. "Até quatro anos atrás, a Ásia importava de 2% a 3% das nossas exportações, ao passo que hoje esse percentual está em 17%", diz Camposano.

As exportações para a Ásia compensaram a queda na demanda da Europa, atingida pela recessão. Os preços altos desestimularam as processadoras europeias a assinar grandes contratos e a maioria dos países europeus – inclusive o maior importador, a Espanha – reduziu as compras no exterior em 2012.

O Equador e outros exportadores também foram beneficiados pela demanda da China, que aumentou suas importações em consequência de um incremento do consumo doméstico num momento em que sua própria produção foi atingida pela Síndrome de Mortalidade Precoce.

Apesar do crescimento econômico mais lento e da campanha governamental contra gastos com mordomias oficiais, a demanda chinesa por camarão continuou a crescer fortemente. As importações do produto congelado cresceram 45% no primeiro trimestre em relação ao mesmo intervalo de 2012, segundo a FAO, a agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação.

"Embora ainda vá demorar muitos anos antes que a China se torne uma "importadora líquida" de volumes próximos de União Europeia, EUA e Japão, é evidente que os consumidores chineses de camarão estão produzindo um impacto cada vez maior no mercado mundial do camarão", diz Gorjan Nikolik, um analista no Rabobank.

Quanto à Tailândia, seus criadores de camarão receberam uma boa notícia nos últimos meses, quando a FAO anunciou que pesquisadores da Universidade do Arizona identificaram a bactéria responsável pela SMP. A questão é quanto tempo levará para que eles encontrem uma cura – e, quando ela for encontrada, que impacto terá sobre o mercado mundial, pois o retorno dos principais exportadores poderá implicar excesso de oferta global preços.

Para Pratuangtham, isso pode estar muito distante. Ele adotou um sistema de isolamento de seus camarões jovens que chama de "reservatórios UTI", e têm esperança de que a devastadora doença possa ser mitigada – ou erradicada. (Tradução de Sergio Blum)

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Fonte: Valor | Por Michael Peel, Emiko Terazono e Andres Schipani | De Bangkok, Londres e Bogotá