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Diminui aposta em fatiamento dos negócios

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O "império dos Batista", como o mercado financeiro apelidou a J&F Investimentos, não vai entrar em liquidação. O prazo de 25 anos concedido pelo Ministério Público Federal (MPF) à dona do frigorífico JBS, para pagar a multa de R$ 10,3 bilhões, frustrou a expectativa de assessores financeiros e jurídicos de fusões e aquisições e também de potenciais investidores.

Foi criada uma crença de que a holding teria que correr e buscar liquidez para enfrentar a pena de R$ 11 bilhões, a ser paga em 13 anos, ajustada pela Selic – conforme o próprio MPF informou ter exigido na negociação para dar a leniência do grupo. Contudo, o acordo selado, com um prazo quase dobrado e uma correção das parcelas pela inflação – e não pela taxa básica de juros do país – gerou a percepção de que essa crise não vai dissolver o império. Pelo menos, não de imediato.

A J&F ainda não tem o balanço de 2016 publicado. A estimativa divulgada para o acordo de leniência é que a receita líquida do conglomerado que abriga nada menos do que 260 mil funcionários tenha ficado em torno de R$ 180 bilhões. Em 2015, o caixa gerado para a holding pelas atividades operacionais foi de R$ 2,5 bilhões.

Consultada, a J&F sustenta que não há planos de venda de ativos. E nega que a empresa de lácteos Vigor esteja à venda.

O grupo já tinha disposição de se desfazer da Vigor. Houve até um processo de venda no fim de 2016. Em fevereiro, recusou uma proposta de R$ 6,5 bilhões da mexicana Lala, segundo o Valor apurou. Os irmãos Joesley e Wesley Batista não aceitavam vender por menos de R$ 7 bilhões. Uma proposta de R$ 6 bilhões feita pela PepsiCo foi igualmente recusada.

Predomina agora a avaliação de que a venda da Vigor vai ocorrer, mesmo que por valor inferior. O recurso obtido, somado à atividade corrente, seria suficiente para lidar com a pressão extra. No curto prazo, a pressão poderá ser um pouco maior, a depender de como a Justiça definir o parcelamento – algo que só estará fechado na homologação do acordo. Em 25 parcelas constantes, a estimativa é que o pagamento anual começaria em torno de R$ 850 milhões.

Anteriormente, havia grande aposta de que a Alpargatas, dona da marca Havainas adquirida da Camargo Corrêa em janeiro de 2016, seria rapidamente colocada à venda. O negócio é considerado "líquido" por se tratar de uma operação com baixa alavancagem e com bom histórico de resultados, além de não ter qualquer relação com a origem e história do grupo.

E, em clima de torcida, os assessores financeiros queriam mesmo é que os ativos da própria JBS no Brasil fossem alienados. Além da operação de bovinos, a companhia é dona das marcas Seara.

Mas, por ora, nada disso está no horizonte. A Alpargatas é vista quase como um porto seguro, uma carta na manga – até para uma operação em bolsa – a ser usada só em caso de piora do cenário.

No entendimento de negociadores e gestores de fundos de participações, a venda de ativos pelo grupo – ou mesmo pela JBS – dependerá quase que essencialmente do mercado de crédito. "Se o mercado secar a torneira, toda essa avaliação de que ficou fácil com esse acordo acaba", comentou o gestor de um fundo que acompanha os desdobramentos com interesse.

Caso o grupo enfrente restrições no acesso ao dinheiro ou um aumento de custo expressivo, o fatiamento dos negócios voltará a ser considerado a solução principal. Porém, sem tanta pressa.

A temperatura do mercado deve ser testada rapidamente. A JBS tem R$ 17,8 bilhões em vencimentos até o fim de março de 2018 – embora mais de 70% sejam compromissos de contratos ligados à exportação, ACCs e pré-pagamentos.

A J&F tem seus próprios compromissos financeiros, além das dívidas operacionais de cada negócio. O entendimento é que, com exceção de Vigor e, principalmente, de Alpargatas, há pouco espaço para aumento do fluxo de dividendo das empresas, pois cada qual tem compromissos próprios relevantes. "Eles podem até torcer os negócios mais maduros [Vigor e Alpargatas], mas o resultado deles não paga sozinho a dívida com o MP", ponderou uma das fontes que aguarda possível venda de ativos.

A JBS é naturalmente a que tem as maiores dívidas – quase R$ 59 bilhões, para R$ 10,7 bilhões em caixa. Mas a alavancagem mais alta está no negócio de celulose, no qual foi investido mais de R$ 6 bilhões. Justamente em razão da dívida, não é o ativo nem mais visado e nem com capacidade para trazer grande conforto financeiro à holding. Para lidar com os compromissos, a Eldorado Brasil Celulose está em busca de um sócio que aporte capital na operação.

Por Graziella Valenti | De São Paulo

Fonte : Valor