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Desvalorização do yuan afeta as cotações das commodities

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Anunciada na ensolarada manhã de ontem em Pequim, a desvalorização da moeda chinesa, ampliou a pressão sobre as cotações internacionais das commodities. E, a depender da erosão que poderá causar, ameaça prejudicar o desempenho das exportações brasileiras do agronegócio, que já estão em baixa desde o início do ano justamente por causa da retração dos preços de diversos produtos importantes na pauta. Puxados pela soja, que está nesse rol, os embarques do setor totalizaram US$ 52,4 bilhões de janeiro a julho, 10,8% menos que no mesmo intervalo de 2014, e a China, maior país importador do grão, respondeu por 28%.

"Tímida" para os parâmetros brasileiros, a redução de 1,9% no valor do yuan em relação ao dólar colaborou diretamente para que os contratos futuros mais negociados dos principais grãos na bolsa de Chicago registrassem quedas superiores a 2%. No mercado de soja, carro-chefe do campo no Brasil, os papéis para entrega em novembro recuaram 2,3%, para US$ 9,7150 por bushel (medida equivalente a 27,2 quilos). No caso do milho, dezembro caiu 3,4%, para US$ 3,8750 por bushel (25,2 quilos), ao passo que os contratos do trigo para setembro tiveram baixa de 3,5%, para US$ 5,0725.

Analistas não acreditam que a China reduzirá suas importações de produtos básicos para a alimentação humana e animal por causa da desvalorização do yuan. Mas sabem que os importadores do país tirarão o maior proveito possível dessa mudança nas negociações com seus fornecedores, como é comum até no caso de oscilações bruscas de preços. No mercado de soja em grão, no qual os chineses respondem por mais de 60% das importações globais, renegociações ou mesmo devoluções de cargas se tornaram corriqueiras na última década em casos de altas inesperadas das cotações.

"A China vai continuar a comprar grãos no exterior para atender a sua demanda interna por alimentos. O país não produz o volume que consome e a conta não fecha sem as importações. E os chineses não são concorrentes do Brasil nessa frente, porque não vendem soja e milho, só compram", diz Steve Cachia, analista da Cerealpar, com sede em Curitiba. Nesse contexto, ele observa que o aumento da competitividade chinesa derivado da desvalorização do yuan tende a ser mais percebida por exportadores brasileiros de commodities metálicas e produtos manufaturados.

Mas Cachia está entre os que acreditam que de fato o ajuste promovido por Pequim deverá gerar algum nervosismo nos gestores de fundos que investem em commodities agrícolas e que um ambiente mais tenso poderá levar a novas quedas de preços nos próximos dias e semanas. Mas depois, afirma, as cotações voltarão a oscilar conforme os fundamentos tradicionais ligados aos quadros de oferta e demanda de cada segmento, com destaque para o clima em países produtores, sobretudo no Brasil.

Neste momento, porém, a crescente preocupação dos agentes do agronegócio brasileiro com o rumo de preços no exterior e do crédito no front doméstico é uma barreira difícil de ser transposta para que a desvalorização do yuan seja encarada com tranquilidade, mesmo que o dólar forte em relação ao real esteja tendo efeitos positivos para as cadeias exportadoras. Até porque há mercados com menor liquidez que o de grãos e mais vulneráveis a esse tipo de influência, entre os quais o de "soft commodities" na bolsa de Nova York.

"A demanda chinesa será, sem dúvida, um fator importante para a definição dos preços do açúcar em Nova York e, infelizmente, o futuro não parece tão promissor ", diz Bruno Lima, analista da consultoria FCStone. Mas ele lembra que há outras questões importantes em jogo na área de açúcar, como a produção no Brasil ou os estoques na Índia. E é claro que o mesmo acontece em outros mercados de commodities agrícolas ou mesmo de carnes, que também têm peso expressivo nos embarques brasileiros para o país asiático.

Mudanças como a promovida pela China em sua moeda e os reflexos decorrentes desse ajuste também servem para alimentar as discussões em torno do peso do país asiático nas exportações totais do agronegócio brasileiro, que para muitos especialistas já é grande demais. Nenhum outro destino sequer fez sombra à fatia chinesa de 28% na receita dos embarques setoriais nos primeiros sete meses deste ano. Para se ter uma ideia, em seguida na lista aparecem Estados Unidos (7,1%), Países Baixos (5,6%), Alemanha (3,1%), Rússia (2,6%) e Arábia Saudita (2,5%).

Conforme o Ministério da Agricultura, no período de 12 meses encerrado em julho as exportações do agronegócio do Brasil para a China atingiram US$ 20,05 bilhões, 16,4% menos que no ano-móvel anterior.

Por Fernando Lopes, Camila Souza Ramos e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor.