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‘Descasamento’ gera danos com produto da Monsanto nos EUA

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No início de 2016, a gigante do agronegócio Monsanto teve de tomar uma decisão que se provou fundamental no que posteriormente se tornou uma crise alastrada de herbicidas, com milhões de hectares danificados.

A companhia americana havia concluído o desenvolvimento uma nova semente geneticamente modificada. A semente foi criada para receber – e resistir a – o poderoso químico dicamba, agora em uma versão que prometia minimizar seu grande defeito: a tendência de ser levado pelo vento para áreas vizinhas, matando outras plantas.

A Monsanto teria de escolher entre começar imediatamente a venda das sementes ou aguardar que a EPA, a agência ambiental dos EUA, desse aval à segurança do herbicida associado a ela.

A múlti perderia muito dinheiro se esperasse. Como havia aplicado a resistência ao dicamba em todo o seu estoque de soja, a única opção teria sido "não vender uma única semente de soja nos EUA" naquele ano, disse Scott Partridge, vice-presidente de Estratégia Global da Monsanto, em entrevista à "Reuters".

Apostando na aprovação rápida do herbicida, a Monsanto vendeu as sementes e os produtores americanos plantaram milhares de hectares com a tecnologia em 2016. Mas as análises da EPA se arrastaram por mais 11 meses.

A demora deixou os produtores sem o herbicida e com três alternativas ruins: contratar trabalhadores para retirar as plantas daninhas da lavoura, usar glifosato (menos eficaz) ou pulverizar as plantações com uma versão antiga do dicamba, sob o risco de contaminação das fazendas vizinhas.

O resultado foi uma pulverização ilegal em 2016 que danificou quase 16,8 mil hectares em Missouri, assim como áreas de outros nove Estados americanos, de acordo com a EPA. Em 2017, danos foram registrados em 25 Estados – 14,4 milhões de hectares no total -, conforme Kevin Bradley, cientista da Universidade de Missouri.

O episódio destaca o descasamento existente no sistema regulatório americano, onde agências separadas aprovam sementes modificadas e herbicidas associados. A Monsanto acusa os agricultores pelo uso ilegal do dicamba antigo e defende que não poderia ter previsto o descasamento nas aprovações, o que abriria o caminho para a crise que enfrenta agora.

Mas uma revisão do histórico de regulações e entrevistas com cientistas feita pela "Reuters" aponta que a Monsanto foi repetidamente advertida, já em 2011, sobre os riscos de liberar as novas sementes resistentes ao dicamba sem a aprovação da nova versão do herbicida.

A companhia admitiu que julgou mal o tempo previsto de aprovação do novo herbicida.

Por Reuters

Fonte : Valor