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Decopom valoriza o espaço que há no país para a diversificação

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Fernando Cavalcanti/Valor
Alberto Yano, da Flex Fruit, diz que diferencial foi determinante para cativar um público disposto a pagar mais pela decopom

Até pouco tempo ignorada pelo público, uma tangerina gigante e de aspecto incomum, caracterizada por um ‘umbigo’ em sua parte superior, vem ganhando espaço nas gôndolas de sacolões e redes varejistas de bairros mais nobres de São Paulo.

Conhecida como decopom, a tangerina de origem japonesa conquistou o paladar de um consumidor disposto a pagar mais caro por uma fruta sem semente e cujo sabor é considerado equilibrado para o padrão ‘gourmet’ – ou seja, mais ácido que as tangerinas tradicionais comercializadas no Brasil.

Criada no Japão nos anos 1970 a partir do cruzamento das variedades de tangerina poncã e kiyomi, a decopom aportou em terras brasileiras na década de 1980 pelas mãos do agricultor Unkichi Taniwaki, cuja propriedade rural fica em Turvolândia (MG) (ver mapa abaixo). À época, Taniwaki era membro da antiga Cooperativa Agrícola de Cotia, uma das mais tradicionais cooperativas de colonos japoneses.

Muito ácida para os padrões do consumidor brasileiro, a decopom trazida por Taniwaki só ganharia adeptos na segunda metade dos anos 2000 após um trabalho de melhoramento genético liderado por produtores da Associação Paulista dos Produtores de Caqui (APPC), entidade sediada em Pilar do Sul (SP).

"O grande problema da decopom, por natureza, é que ela não é uma fruta tão doce quanto a poncã", diz Ronaldo Keivitsbosch, maior produtor de decopom do país e reconhecido entre atacadistas da Ceagesp como o produtor das tangerinas decopom ‘mais doces’ do mercado.

Sócio da Viva Flora, empresa que produz flores e frutas na Estância Turística de Holambra (SP), Keivitsbosch conheceu a tangerina decopom em 2002, quando visitou a propriedade de Taniwaki. "Ganhei material genético dele e formamos as mudas para levar ao campo", recorda o agricultor.

Entre o plantio dos pomares em Holambra e a primeira colheita, passaram-se três anos. Atualmente, explica Keivitsbosch, a viabilidade econômica da tangerina decopom só ocorre no quarto ano, quando os pomares fornecem um volume maior de frutas. No caso dele, porém, havia a necessidade de ‘popularizar’ a fruta e isso ocorreu por meio de uma parceria com o Carrefour e, claro, após o processo que ‘adocicou’ as tangerinas.

Membro do quadro de associados da APPC, Keivitsbosch conta que a decopom é um fruta "melindrosa" e exige cuidados especiais – e caros – para reduzir o grau de acidez, sendo que a irrigação é condição sine qua non. "O sabor é consequência de um trabalho de irrigação e poda", afirma ele, ressaltando que a maioria dos citros produzidos no país não necessita de irrigação mecânica. No caso da decopom, acrescenta, a ausência de irrigação inviabiliza a produção. A escassez de água em São Paulo, aliás, já se tornou uma preocupação para a safra que será colhida ano que vem. "A primeira florada desta safra já abortou", lamenta Keivitsbosch, que deixou de irrigar os pomares.

Para reduzir a acidez, o ciclo de produção da decopom também é mais longo, em torno de 285 dias. Nos pomares de poncã, tangerina mais consumida do país, o ciclo de produção é de 250 dias, diz ele.

Com esses cuidados especiais, é possível colher uma fruta "equilibrada", afirma Alberto Yano, proprietário da atacadista Flex Fruit, na Ceagesp. Segundo ele, conseguir reduzir a acidez foi fundamental. Mas o segredo do sucesso, garante, está, paradoxalmente, na acidez. "O diferencial é a acidez. É o que dá o sabor".

Colhida entre junho e novembro e com custos de produção mais altos, o diferencial da decopom foi essencial para cativar um público disposto a pagar mais caro, uma vez que seria impossível competir com a poncã, que é colhida na mesma época, se ela tivesse as mesmas características, diz Yano. No auge da safra, o quilo da tangerina decopom chega a custar R$ 4 o quilo no atacado, enquanto sua ‘prima’ e concorrente sai por menos de R$ 1. "A decopom é mais elitizada. O pessoal sabe que é mais cara", afirma.

Apesar do preço maior, as vendas de decopom na Ceagesp têm crescido. Para efeito de comparação, a média mensal de vendas da fruta no entreposto paulista atingiu 110 toneladas por mês no ano passado, incremento de 13,4% ante as 97 toneladas mensais de 2010. Em 2014, a média mensal já chega a 123 toneladas.

É importante ressaltar, porém, que a decopom é uma fruta de nicho e seu volume, de produção e vendas, é bem menor que o da popular poncã. No ano passado, por exemplo, foram vendidas 1,3 mil toneladas de decopom e 62,6 mil toneladas de poncã na Ceagesp.

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Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo