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Decisão da UE ainda gera apreensão

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Um comitê de segurança alimentar da União Europeia não causará surpresa se, hoje, deixar para o front político, em decisão de nível ministerial dos 28 países-membros do bloco, a tomada de eventuais medidas referentes à importação de carne brasileira. A avaliação de fontes em Bruxelas é que o Comitê Permanente de Vegetais, Animais e Gêneros Alimentícios e Alimentos para Animais (PAFF) aguardava a reação do comissário de saúde e segurança de alimentos da UE, Wytenis Andriukaitis, que ontem se reuniu, em Brasília, com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

Após o encontro com Blairo, o comissário afirmou – e divulgou comunicado em Bruxelas repetindo praticamente as mesmas palavras- que, "pelo momento", a UE vai manter controles reforçados sobre a carne importada do Brasil nos pontos de entrada e enviará auditores ao país o mais rapidamente possível. Ele disse ter repetido no Brasil que a segurança dos produtos alimentares é crucial para manter a credibilidade "de nossos sistemas de controle e a confiança dos consumidores na cadeia alimentar". E que espera do Brasil a implementação de "medidas corretivas para restaurar a credibilidade de seus sistemas de controle o mais rapidamente possível".

O aviso foi claro: "Está nas mãos deles [autoridades brasileiras], é o que vai continuar a ser transmitido em Bruxelas, para os Estados membros do Conselho de Agricultura na próxima segunda-feira e ao Parlamento Europeu também na semana que vem". Os países da UE passaram a fazer o controle de 100% dos carregamentos de carne brasileira dos 260 estabelecimentos do país autorizados a exportar para seus mercados, e não apenas dos 21 estabelecimentos investigados da Operação Carne Fraca. De qualquer forma, o próprio Ministério da Agricultura brasileiro suspendeu as exportações dessas 21 unidades. Aparentemente não encontraram nada substancial até agora – "senão se saberia rapidamente", afirmou uma fonte.

Andriukaitis disse que quer de Blairo o compromisso de que a Europa pode ter completa confiança no controle sanitário oficial brasileiro. Para o comissário, isso enviaria uma mensagem aos parceiros de que o sistema no Brasil "é capaz de oferecer confiança, credibilidade e previsibilidade". E criticou com veemência as suspeitas de corrupção levantadas pela operação da PF.

No comunicado, o comissário fez uma menção indireta às pressões que vem recebendo para agir contra a carne brasileira, com demandas vindas de países-membros da UE, do Parlamento Europeu e de organizações de produtores. Para observadores em Bruxelas, não é possível descartar um endurecimento contra a importação de carne brasileira no Comitê PAFF. Mas a avaliação é que não há elementos suficientes para reforçar uma decisão, além dos controles mais rigorosos já adotados.

O Valor apurou que em reunião na sexta-feira das agências de segurança alimentar da Europa, Portugal foi um dos poucos países abertamente favoráveis a que a UE não adotasse medidas adicionais contra a carne brasileira. O fato de o país ter o mesmo idioma – o que facilitou o acesso às informações sobre as medidas tomadas por Brasília após a Operação Carne Fraca – pode explicar a reação. Os outros países se mostraram mais cautelosos, para dizer o mínimo. França, Irlanda e Áustria defenderam a suspensão de importação de toda a carne brasileira.

Mas também ficou evidente a desinformação de agências europeias. Foi mencionada inclusive a versão de que alguns estabelecimentos tinham misturado papelão na carne. Ou seja, os diferentes comunicados do Ministério da Agricultura brasileiros visivelmente não chegaram às mãos de personagens-chave nas decisões sanitárias na Europa. A diplomacia brasileira estava distribuindo ontem nota mais recente do Ministério da Agricultura e procurava persuadir parceiros europeus a não aumentarem as restrições. (Colaborou Cristiano Zaia, de Brasília)

Por Assis Moreira | De Genebra

Fonte : Valor