.........

Custo do ‘capital natural’ soma R$ 1,6 bi no país

.........

Silvia Costanti/Valor
"Há uma exposição significativa aos riscos de capital natural", diz Mattison

Quanto custa produzir um hambúrguer de carne bovina no Brasil? Seja quanto for, deveria ser 22 vezes mais caro. Isso porque o custo da carne deveria contabilizar uma série de indicadores do chamado "capital natural", hoje menosprezados, que incluem desde a emissão de gases-estufa gerada no processo de criação dos animais e o uso intensivo de água até o desmatamento das florestas para a sua transformação em pastagens.

Em outras palavras, isso significa que a cada R$ 1 gasto com a criação de bois no país, R$ 22 são consumidos em capital natural – que deveriam ser pagos pelo setor se os recursos naturais ou os benefícios do ambiente à sociedade fossem computados na cadeia produtiva.

Mas isso é só para um hambúrguer. Quando expandido aos 45 segmentos produtivos analisados em um estudo inédito feito para o Brasil, os custos de capital natural no país podem chegar a R$ 1,6 bilhão. E na lógica financeira isso já começa a ser compreendido como um risco que deve ser precificado.

"O sistema financeiro brasileiro está exposto de forma significativa aos riscos de capital natural porque os setores financiados por bancos e fundos de pensão são muito dependentes desses ativos", afirma Richard Mattison, CEO da Trucost, consultoria britânica responsável pelo "Natural Capital Risk Exposure of the Financial Sector in Brazil". Consultor da ONU e de multinacionais, Mattison veio ontem a São Paulo para falar diretamente com os grandes bancos sobre o que considera ser um imenso risco ainda subestimado.

"Os mercados estão falhando em precificar os serviços ambientais. Vocês estão vendo hoje o problema hídrico no Brasil. Mas no mundo inteiro há um desequilíbrio entre o consumo e o preço da água. Vamos precisar de 40% a mais de água para atender a indústria nas próximas décadas. Isso é um risco enorme", diz ele. "Os bancos terão de reposicionar sua carteira de financiamento em setores e empresas com impacto menor".

No caso do Brasil, isso pode representar um custo mais alto dos empréstimos à agropecuária, setor ainda altamente financiado e também grande consumidor de recursos naturais (o abate nos frigoríficos é o maior consumidor de água entre as 45 categorias analisadas). O estudo aponta que dos dez setores que impõem maior custo ao capital natural, seis estão ligados à atividade rural: criação de gado, aquicultura, abate animal, produção de algodão, soja e cana. Pela metodologia adotada, ultrapassam até a mineração, conhecida pelo rastro de intervenções no ambiente inerentes à atividade.

Dono de um banco mundial de dados gigantesco, a Trucost mapeou seis indicadores para cada setor produtivo (emissões de CO2, poluição do ar e da terra, geração de resíduos, uso da terra e uso da água) e calculou o custo do capital natural versus o valor da produção do setor, chegando a um índice de intensidade de capital natural. Se o capital natural já estivesse precificado, isso significaria que, nos moldes de produção de hoje, a agropecuária estaria consumindo mais recursos que gerando valor.

"Em alguns setores, o impacto negativo ao meio ambiente é superior ao valor do financiamento da operação em si", afirma Mattison.

"Nós já conhecíamos os setores com maior impacto. Só não tínhamos o número", disse ao Valor Carlos Nomoto, diretor de sustentabilidade do Santander e presidente da câmara temática de finanças sustentáveis do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), entidade que encomendou o estudo. "A definição de riscos ajudará a refinar nossas análises de crédito. O valor do empréstimo também ficará mais preciso, mais refinado. Mais alto a alguns, ou mais baixo".

Segundo ele, a intenção não é migrar maciçamente os financiamentos de setores mais impactantes para os menos impactantes. "O mundo vai continuar consumindo proteína animal e cimento, e os bancos continuarão os financiando. Não se trata de vilões ou não vilões. Mas esse estudo nos permitirá entrar na estrutura competitiva dos negócios – os bancos que decidirem sair na frente já têm um ponto de partida para isso."

Segundo o documento, os riscos embutidos nesses financiamentos são desde novas regulamentações a reputação (pressão de stakeholders, retenção de talentos e branding) e, principalmente, à própria escassez de ativos naturais.

© 2000 – 2014. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/agro/3824276/custo-do-capital-natural-soma-r-16-bi-no-pais#ixzz3M3nJl3rR

Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo