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Cultura volta a dar prejuízo

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Apesar da safra de qualidade, Estado tem reduzido a área plantada, hoje em torno de 716 mil hectares

Apesar da safra de qualidade, Estado tem reduzido a área plantada, hoje em torno de 716 mil hectares

Em poucas culturas, a dinâmica entre qualidade, oferta e procura pode ter tantas variações como no trigo. O ano é de abundância, tanto no mercado internacional como na safra gaúcha – que colheu, no final do ano passado, mais de 2,4 milhões de toneladas, recuperando as perdas sofridas em 2015. Mas isso não vem representando rendimentos maiores para os produtores. Com os preços baixos no mercado interno e com as importações realizadas no ano passado, muitos silos ainda estão forrados com o trigo da última safra, e os produtores hesitam em apostar no produto neste inverno.

A situação do Estado nesse cenário é curiosa: sobram grãos em relação ao que vem sendo processado nas indústrias, mas a disputa no mercado externo fica dificultada pela grande oferta mundial. "O Estado consome cerca de 1,1 milhão de toneladas, então teremos que vender o excedente. Mas o Paraná (um dos principais produtores do País, ao lado do Rio Grande do Sul) colheu mais cedo e abasteceu o mercado", explica Claudio Dóro, assistente técnico regional de produção vegetal da Emater-RS.

Em nível nacional, a produção – que ficou em torno de 6 milhões de toneladas em 2016 – atende a cerca de metade do consumo total do País, o que acaba forçando a necessidade de importações. Um contexto que contribui para o achatamento dos preços e, no caso gaúcho, redução da área plantada, o que vem ocorrendo desde 2014. A projeção para este ano fica em torno de 716 mil hectares, 7,4% a menos do que no ano passado, segundo a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

Outra variável na cadeia do trigo é a qualidade do grão, que vai determinar como o produto será aproveitado – para a produção de farinhas ou de rações, por exemplo. Nesse sentido, a safra atual é bastante positiva para a indústria. "Esta última safra tem excelente qualidade e quantidade, uma das melhores da história, o que nos possibilita uma oferta de matéria-prima competitiva para estarmos, além de moendo para o consumo do Estado, competindo na região Sudeste, para a qual somos tradicionais exportadores", relata o presidente do Sindicato da Indústria de Trigo no Estado (Sinditrigo), Andreas Elter.

Mesmo com o preço mínimo, vendas ficaram mais difíceis

Na propriedade do agricultor Antolí Fauth Mello, em Coxilha, a colheita de trigo terminou em 25 de novembro de 2016. Até o início deste trimestre, no entanto, o produtor ainda não havia vendido nenhuma das 15,5 mil sacas. "Está difícil de vender. O governo bota preço mínimo, mas o trigo de fora vem antes, e os moinhos começam a se abastecer. E eu não vendo por menos que o preço mínimo", conta Mello, garantindo que ainda irá plantar o grão neste inverno, apesar das perdas. "Tem os que resistem, mas a munição está acabando", alerta.

Nos cálculos da Emater-RS, o preço médio praticado em abril – por volta de R$ 28,00 – está bem abaixo do preço mínimo estabelecido, que é de
R$ 38,65. Em diferentes regiões do Estado, aveia e cevada têm sido outras opções para a safra de inverno, mas ainda com impacto pequeno. Políticas de incentivo relacionadas com a redução da carga tributária, por exemplo, poderiam motivar os agricultores.

"O governo está tentando resolver. O ICMS do Rio Grande do Sul é 12%, mas o do Paraná e de São Paulo é 2%. Assim como vamos mandar trigo para o Nordeste? Fica tudo ensacado aqui", desabafa Mello.

Fonte: Jornal do Comércio | 
FERNANDO KLUWE DIAS/DIVULGAÇÃO/JC