Crise passa ao largo de polo paulista de shiitake

Iwao Akamatsu, sócio da Yuri Cogumelos, que fornece a base necessária para a produção de shiitake: "Não é algo bucólico. Tem muita tecnologia envolvida"
Toda semana, caminhões carregados com um composto de aparência duvidosa saem desta fábrica de Sorocaba em direção a propriedades rurais do interior paulista. Protegido por embalagens de plástico transparente, hermeticamente fechadas, o tal composto lembra um grande pão quadrado e vencido – o bolor já recobre toda a sua superfície. São blocos de serragem de madeira misturada com farelo de cereais e inoculados por fungos, que vão resultar em uma das variedades de cogumelos mais apreciadas no mundo, o shiitake.

Com apenas 20 anos de atuação, a Yuri Cogumelos é a grande fornecedora nacional desse insumo, sem o qual a produção brasileira de cogumelos não existiria. "Não é algo bucólico", diz Iwao Akamatsu, sócio da empresa, sobre o processo industrial que envolve o negócio. "Tem muita tecnologia envolvida. Não se trata de pegar cogumelos na floresta como ainda acontece no Japão".

De suas duas linhas de produção em Sorocaba saem mensalmente 140 mil blocos de composto para a produção de cogumelos, após um processo de ao menos dois meses de preparação e repouso. Os 60 funcionários se dividem entre o trabalho inicial de preparo da serragem – misturada a farelo de trigo, de arroz e de soja, e depois água e calcário – até a inoculação.

A instalação da Yuri Cogumelos em Sorocaba levou ao desenvolvimento de um polo produtor de shiitake em um raio de 100 quilômetros do município paulista. A Yuri tem hoje 45 clientes. Juntos, produzem 80 toneladas de shiitake e faturam R$ 2,4 milhões por mês, diz Akamatsu. "Toda a produção é distribuída em São Paulo, Rio e no norte do Paraná. Infelizmente, não temos condições de enviar para mais longe. Os cogumelos não aguentariam a viagem", afirma.

Fazer blocos de produção de shiitake não foi uma vocação natural do executivo, apesar de seu pai, como boa parte da colônia japonesa no Brasil, ter trabalhado em agricultura. Um de oito filhos, Akamatsu queria ser médico. Mas a família não tinha condições de pagar o cursinho para o vestibular, e ele desistiu da ideia. Sem cursinho, entrou em física na USP – "fiquei fora da Poli por 0,5 ponto em matemática" – e um ano depois foi para FAU, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, após mais um vestibular.

A fungicultura só apareceu como oportunidade de negócio décadas depois. Foi o sogro quem o convenceu a pesquisar "esse negócio de cogumelo". Especificamente, o shiitake, ainda sem oferta estruturada no Brasil. Por dois anos, Akamatsu investiu numa produção caseira até se certificar da viabilidade econômica da cultura.

Veio a surpresa: outros produtores perceberam que a mistureba que Akamatsu fazia tinha um ótimo rendimento. E começaram a pedir para que ele fornecesse bloquinhos de composto também. E a Yuri, de concorrente, passou a ser fornecedora quase que exclusiva do insumo para shiitake no país.

"Se o Iwao decidir mudar de profissão novamente, acaba o shiitake no Brasil", diz Daniel Gomes, pesquisador de fungicultura da Associação Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), vinculada à Secretaria de Agricultura do Estado. Segundo ele, Akamatsu atende hoje praticamente 80% do mercado nacional de shiitake. O restante é pulverizado entre pequenos fornecedores, "nem de longe tecnificados como a Yuri".

A guinada demandou mais profissionalização. O empresário pleiteou uma bolsa na JICA, a agência de cooperação internacional do Japão, e passou três meses estudando a matéria em um centro referencial de fungicultura. Da experiência vieram o maquinário – misturadores e autoclave, que funciona como uma panela de pressão para esterilização. E adaptações de matérias-primas à realidade local, como a serragem de eucalipto (no Japão se usa carvalho).

Com investimento próprio de R$ 10 milhões à época, em seis meses a Yuri saiu de uma produtividade de 120 quilos para 1 tonelada, "só mudando a técnica", diz ele. A empresa não revela quanto fatura, mas cada bloco de composto sai por volta de R$ 4. Ou seja, um movimento mensal declarado de cerca de R$ 560 mil.

Ele reclama do custo de produção mais alto, puxado pela energia, mas diz que não repassará nem metade da diferença. O momento é de manter vendas e ganhar novos consumidores. O consumo per capita no país ainda é muito baixo, de 150 gramas por ano, frente aos 7 quilos no Japão.

O shiitake disputa com o shimeji a segunda colocação no mercado de cogumelos, mas perde com ampla margem para o champignon de Paris, o do strogonoff, que é mais barato. Das 12 mil toneladas de cogumelos produzidos ao ano no Brasil, 8 mil são champingon.

Essa constatação foi considerada nos planos de investimento da empresa. A ideia é verticalizar a produção e desenvolver produtos a base de shiitake, como molhos. Segundo o executivo, a empresa já adquiriu o terreno para a futura unidade, mas o investimento dependerá do cenário econômico.

Por ora, Akamatsu diz que não tem do que reclamar. Quando a reportagem visitou a fábrica em Sorocaba, a Yuri estava contratando, e a fila de interessados era grande.

Por Bettina Barros | De Sorocaba (SP)

Fonte : Valor