Crise gera inadimplência em escritórios de advocacia

Advogado Alfredo Ferrari: em tempos mais difíceis é preciso achar uma solução em conjunto com o cliente
Os escritórios de advocacia têm vivido uma situação até então inédita para a maioria deles no país: inadimplência de clientes e necessidade de renegociação de contratos. E, em alguns casos, têm sido obrigados a adotar medidas duras, como protesto de dívidas e ajuizamento de ações de cobrança.

Apesar de muitas bancas terem registrado aumento de trabalho, a crise que bateu à porta não só dos clientes menores, mas também das grandes companhias, fez com que, no mínimo, prazos de pagamento fossem renegociados, tornando-se muito maiores.

O sócio do escritório Guimarães & Gallucci Advocacia, Bruno Gallucci, afirma que, de todas as empresas com contrato para pagamento mensal, apenas uma não atrasou este ano.

Já o advogado José Del Chiaro, sócio de um escritório boutique da área antitruste que leva o seu nome, afirma que a inadimplência também bateu à porta. Segundo ele, menos de 10% dos clientes estão com as obrigações em dia. "Parece que pagar em dia não é mais obrigação. Atrasos de 15 ou 20 dias são rotina e nós já estamos tendo que implementar isso no fluxo de caixa", afirma.

Del Chiaro também relata uma burocratização dos clientes para a aprovação dos pagamentos. Ele diz que há pouco tempo precisou renegociar um contrato de um cliente antigo que passou a pagar somente 90 dias após a data de faturamento.

Apesar disso, a demanda do escritório aumentou porque com a crise surgiram mais acusações de formação de cartel e boicote a concorrente.

O mesmo ocorreu no Guimarães & Gallucci Advocacia, onde verificou-se um aumento de demanda. O número de ações movidas pelo escritório, desde janeiro, aumentou 30%. No caso do escritório, o crescimento se justifica por causa do volume crescente de demissões no país. "A crise tem afetado o mercado de terceirizações. Essas empresas vêm perdendo contratos e, consequentemente, dispensado muitos trabalhadores", afirma Gallucci.

No escritório Pinheiro Neto, um dos maiores do país, ainda não há registro de inadimplência, mas tem-se levado mais tempo na negociação de honorários. Isso vem acontecendo porque, segundo o sócio gestor, Alexandre Bertoldi, aumentou o número de clientes que preferem orçamento fechado para determinados projetos. "Essa negociação às vezes toma tempo, mas uma vez selado o acordo não temos problemas com o recebimento", afirma.

De acordo com Alfredo Ferrari, sócio e CEO do Siqueira Castro Advogados, em tempos mais difíceis é preciso achar uma solução em conjunto com o cliente. "Às vezes, em momentos de crise, ficar na gritaria não adianta", diz. "Se você tem um inadimplente, você não pode simplesmente cobrar. É preciso entender o que está acontecendo, qual é a dificuldade e quanto tempo ele precisa."

Segundo Ferrari, são conversas proativas. Ele diz, inclusive, que a estratégia tem gerado mais receita. Isso porque uma das soluções propostas é a centralização no escritório de todas suas demandas, evitando-se assim a pulverização de trabalhos, como normalmente ocorreria. Dessa maneira, ganha-se em escala de trabalho. "E podemos propor um preço que, no total, vai gerar economia para o próprio cliente", afirma.

O advogado cita o exemplo de clientes que eram apenas da área tributária e que, após a renegociação, apresentaram demanda também para a área de M&A (fusões e aquisições).

As bancas que não têm conseguido fechar acordo com clientes inadimplentes passaram, porém a adotar medidas mais duras. O escritório Siqueira Lazzareschi de Mesquita Advogados, por exemplo, já propôs duas ações de execução para cobrança de honorários. "Quando acabam todas as possibilidades de composição amigável é que se entra com a ação judicial. Nesses casos específicos, nós fizemos composições prévias, aceitamos cheque, parcelamos, fizemos de tudo para não acioná-los", afirma a advogada e sócia da banca Ana Paula Lazzareschi de Mesquita.

Ela conta que atualmente negocia pagamentos com seis empresas e que tem flexibilizado a remuneração de acordo com a atividade do cliente. "Alguns têm épocas específicas de faturamento. Os clientes de agribusiness são um exemplo", cita a advogada. "Então tentamos encontrar uma solução de acordo com a situação econômica de cada um."

O advogado Fernando Augusto Pinto, sócio do escritório Augusto e Martins Advogados Associados, com sede em Brasília, afirma que também ingressou com processo contra ex-clientes que descumpriram contratos e deixaram de pagar honorários. O escritório tem ainda solicitado a expedição de certidão aos órgãos de proteção ao crédito, como SPC e Serasa. "A inadimplência aumentou demais e a única forma de forçar as pessoas a entrar em contato é enviar seus nomes para os cadastros de inadimplentes", afirma.

Por Joice Bacelo | De São Paulo

Fonte : Valor