Crise externa pode elevar preço do camarão no país

Stefan Schmeling/Paralaxis/Valor / Stefan Schmeling/Paralaxis/Valor
Perri, da Vivenda do Camarão, defende importações para elevar oferta interna

Os preços do camarão vão subir. A pressão sobre o crustáceo no mercado nacional tende a refletir um movimento que toma conta do mercado internacional. O produtor brasileiro, que hoje só tem oferta suficiente para atender, basicamente, ao consumo interno, agora está de olho também na demanda de outros países, por conta da quebra de produção na Ásia, provocada pela proliferação de uma doença conhecida como Síndrome de Mortalidade Precoce (SMP).

A oferta de camarão no mercado internacional será limitada pelo menos até o fim do ano devido a quebras na China, Tailândia e Indonésia, que juntas representam mais de 80% da produção mundial. Por isso, a falta do produto vai pressionar os mercados até então pouco exportadores, como o Brasil. Em 2012, praticamente nenhum camarão foi exportado. Mas, neste ano, produtores do Nordeste fizeram embarques para a Europa e já receberam encomendas da Rússia e mesmo da China.

No Brasil, a oferta é justa em parte porque as importações de camarão estão suspensas desde 1999 e, normalmente, existe pouco espaço para brigar no mercado internacional com os tradicionais exportadores. O mercado interno, hoje, é dependente da produção doméstica, que atingiu 115 mil toneladas no ano passado, somadas a aquicultura e a pesca extrativa. Com a produção ajustada à demanda, os preços do mercado interno normalmente são superiores aos do mercado exterior.

Uma das soluções defendidas por empresários seria a importação de camarões para reduzir os preços e combater a "reserva de mercado criada para atender a produtores do Nordeste". O presidente da rede de restaurantes Vivenda do Camarão, Fernando Perri, diz que não existem dúvidas de que as medidas são protecionistas. "O lobby político, feito pela bancada nordestina, beneficia poucos criadores em detrimento de toda a cadeia produtiva no Brasil", disse.

Perri abriu seu primeiro restaurante em 1984 e comanda uma rede familiar composta por mais de 150 lojas no Brasil e uma no Paraguai, que emprega dois mil funcionários e consome cerca de 160 toneladas de camarão por mês. Além disso, serão abertas duas lojas em Miami, nos EUA, até o fim do ano.

O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), Itamar Rocha, nega que exista qualquer tipo de reserva de mercado e diz que a proibição é pura e simplesmente por questões sanitárias. "Não importamos camarão de outros países, pois eles possuem doenças inexistentes por aqui. Não tem lógica colocar em risco uma atividade que está crescendo e é boa para o Brasil", disse. Segundo ele, as empresas voltaram a exportar para Europa e até mesmo para a China.

Mesmo com o veto à importação de quase todos os tipos de camarão – só um tipo da Argentina, e com uma cota de 5 mil toneladas, foi liberado recentemente – e com a demanda doméstica dependente da oferta nacional, os produtores brasileiros começaram a exportar o produto para lucrar em dólares. O quilo do camarão de 11 gramas, que era comercializado a US$ 3 no primeiro semestre, hoje é vendido por até US$ 7 fora do país. No Brasil, o quilo é vendido a R$ 11. A Europa, conforme a associação que representa os produtores de camarão, já passou a importar camarão brasileiro.

"A ineficiência do governo é muito grande. Foi criado um ministério para incentivar a produção, mas a importação de pescados como camarão argentino e tilápia foi autorizada. Na verdade, o governo não se preocupa em ajudar os micro e pequenos produtores, que não têm acesso ao crédito e por isso não conseguem crescer com rapidez", disse.

O governo autorizou a importação do camarão argentino em dezembro. Durante os primeiro meses deste ano, o Ministério da Agricultura credenciou 10 empresas do país vizinho para importar o crustáceo. Mesmo com todas os trâmites burocráticos atingidos, a importação, segundo o Ministério do Desenvolvimento, não começou. De acordo com informações da ABCC, existe um processo na Justiça do Distrito Federal que impede a importação.

A Potiporã Aquicultura, do Grupo Queiroz Galvão, dobrou sua produção em relação ao ano passado e quer aproveitar o bom momento no exterior. "Em 2012, produzimos três mil toneladas e este ano podemos chegar a seis mil toneladas", disse o presidente da empresa, Sérgio Lima.

Segundo ele, é fundamental aproveitar a nova oportunidade para exportar, sem abrir mão do mercado interno. "A abertura do mercado externo é uma grata novidade que simplesmente aconteceu e não estávamos nos programando para exportar. Com a mudança de cenário e o câmbio bom, está mais favorável exportar do que vender no mercado interno, mas não largaremos as vendas no Brasil", diz.

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Fonte: Valor | Por Tarso Veloso | De Brasília