Crise dificulta o repasse de preço pela indústria de café

Quem gosta de café dificilmente abre mão de sua dose diária. Mas manter esse costume está mais caro este ano, e o cenário não deve mudar tão cedo. Desde o início de 2015 até outubro, os preços do café em pó, torrado e moído subiram 5,83% no varejo, conforme o último Índice de Custo de Vida (ICV) do Dieese. No solúvel, a alta foi de 9,38%. Nos dois casos, abaixo do IPCA de 9,93% do período.

Como em tantos outros produtos, a alta de custos com energia elétrica e mão de obra explica parte do aumento. Mas o clima adverso em regiões produtoras no Brasil, a decisão dos produtores de café do Vietnã de segurarem as exportações e a alta do dólar sobre o real são as principais razões para esse quadro, segundo especialistas e fontes da indústria. Por ora, o aumento dos preços ao consumidor ainda não afetou as vendas, segundo entidades do setor.

Um dos "vilões" que está promovendo o aumento dos preços do café é a espécie conilon, produzida principalmente no Espírito Santo. Desde o início do ano, a matéria-prima teve alta de 30%, conforme o indicador Cepea/Esalq. O conilon também é produzido no Vietnã, que é o maior exportador mundial desse tipo de café, chamado ainda de robusta.

No Brasil, onde a produção alcançou 10,9 milhões de sacas na última safra, a 2015/16, é utilizado em blends de café torrado e moído e pela indústria de café solúvel.

"A indústria de café é grande demandadora de conilon", diz Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). A espécie é misturada a grãos arábica, e estima-se que a demanda nacional da indústria de torrado e moído alcance 7 milhões de sacas por ano.

O conilon é misturado ao arábica porque tem alto rendimento, garante o padrão e dá corpo à bebida. Mas este ano as indústrias do país que usam os grãos em seus blends estão tendo que disputar o café com os clientes do mercado internacional. Isso porque a menor oferta de produto do Vietnã e o câmbio estimularam os embarques brasileiros de conilon. Conforme dados compilados pelo Conselho dos Exportadores de Café (Cecafé), foram embarcadas 3,768 milhões de sacas de conilon de janeiro a outubro, 48% mais do que em igual período de 2014.

Herszkowicz diz que as exportações foram estimuladas pela queda do real, que tornou o produto brasileiro competitivo. Mas mesmo nesse cenário de maiores embarques de conilon "a indústria tem conseguido se suprir de café de acordo com suas necessidades", observa.

O dirigente acrescenta que a "indústria trabalha sem gordura, e está tendo de repassar [as altas da matéria-prima]". No entanto, essa não é uma tarefa fácil. "O repasse é problemático porque o varejo argumenta que o ambiente é de crise", afirma.

Haroldo Bonfá, diretor da Pharos Commodity Risk Management, lembra que as exportações cresceram em decorrência da menor oferta dos vietnamitas no mercado internacional. "O produtor do Vietnã está capitalizado e tem conseguido segurar". Nas últimas semanas, os volumes exportados pelo país asiático aumentaram, mas não a ponto de mudar o cenário das vendas externas brasileiras. "O fato é que se exportou muito e isso pressionou o produtor", avalia Bonfá. " O produtor disse: não tenho todo esse café".

A preocupação com a próxima safra, a 2016/17, de conilon do Espírito Santo e do sul da Bahia também sustenta as cotações do produto, afirma o diretor da Pharos. Segundo ele, essas regiões estão sendo castigadas pela falta de chuvas. No Espírito Santo, onde grande parcela da produção é irrigada, há restrições ao uso de água na agricultura em decorrência das poucas chuvas. Além disso, há receio de que o clima continue seco no período de enchimento dos grãos, que ocorre em dezembro e janeiro no Estado, que é o maior produtor nacional de conilon.

Na Cooperativa dos Cafeicultores de São Gabriel, de São Gabriel da Palha, norte do Espírito Santo, a avaliação é que a "quebra deve ser grande no Estado", uma vez que o déficit hídrico é alto. Na safra que passou, a colheita capixaba somou 7,440 milhões de sacas de conilon.

Outra indústria que utiliza o conilon é a do café solúvel. De acordo com Aguinaldo José de Lima, diretor de relações institucionais da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), "as empresas estão conseguindo comprar para suas necessidades". Mas ele admite que "possa haver algum grau de dificuldade no ano que vem". E acrescenta que há "preocupação com oferta no primeiro semestre". De uma maneira geral, os blends de solúvel têm 80% de conilon e 20% de arábica, mas há também produtos com 100% de conilon ou de arábica, explica Lima.

Embora preocupe as indústrias que precisam fazer repasses em tempos de crise, a alta dos preços do café não afetou o consumo. Pesquisa de mercado da Euromonitor indica que o volume de vendas de café no varejo e no food service deve crescer 4,3% este ano no país.

O número previsto surpreendeu a Abic, que previa crescimento de 1% sobre as 20 milhões de sacas consumidas no mercado interno em 2014. "Café é bebida de consumo diário, tanto dentro quanto fora do lar, e é uma bebida barata", argumenta Nathan Herszkowicz, acrescentando que parte dos consumidores "não troca marca, mas busca versões mais baratas".

No caso do café solúvel, a expectativa é de manutenção do consumo doméstico, que equivale a 1 milhão de sacas por ano. "As vendas não foram afetadas pela crise. O solúvel é um produto de valor mais acessível", afirma Lima, representante da Abics.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo
Fonte: Valor