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Cresce interesse por certificação verde em grandes obras

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Marcelo Takaoka, presidente do CBCS: oportunidades para ganhar eficiência a partir da Lei dos Resíduos Sólidos

Uma das maiores cidades da Região Metropolitana de São Paulo, Guarulhos decidiu, depois de ter o projeto de um Centro de Educação Unificado (CEU) certificado pelo Processo Aqua (Alta Qualidade Ambiental) de construção sustentável, que todas as obras de infraestrutura urbana devem buscar seguir as especificações do selo. Espera-se no município que obras de drenagem urbana trilhem esse caminho.

Na área portuária, terminais privados interessados em reforma e ampliações de suas instalações discutem critérios técnicos com certificadoras para que as obras possam ser feitas sob conceitos de construção sustentável. Esses são alguns exemplos de como empresas e poder público estão buscando cada vez mais a adoção de parâmetros verdes na construção de grandes empreendimentos, rota que deverá se intensificar nos próximos anos.

Grandes hidrelétricas e rodovias poderão seguir o mesmo caminho nesta década. Essa é a avaliação de Manuel Martins, coordenador executivo do Processo Aqua para a certificação da construção sustentável e coordenador técnico da certificação de sistemas de gestão ambiental ISO 14000 da Fundação Vanzolini.

"O processo de avaliação e certificação se iniciou com as edificações, posteriormente foram definidos critérios para ocupações urbanas. E começamos a notar um interesse maior em relação a obras de infraestrutura e já estamos sensíveis a essa demanda que começa a aparecer", afirma Martins, que destaca que as certificações sustentáveis para grandes empreendimentos deverão ganhar espaço em algum ponto dessa década. Para que isso ocorra, será preciso mudança de cultura, seja do poder público, seja dos empreendedores. "Critérios sustentáveis em infraestrutura exigem uma visão de longo prazo e um amplo balanço social, econômico e ambiental dos empreendimentos", diz. Em uma hidrelétrica, por exemplo, Martins avalia que até a área inundada tem peso nesse balanço. "É um processo de aprendizado, com as políticas públicas podendo considerar meio ambiente e qualidade da vida que o empreendimento trará."

Na região Norte, têm sido construídas as primeiras grandes hidrelétricas depois de Tucuruí na década de 1980. Esses empreendimentos ainda não buscaram as certificações, talvez por estarem mais preocupados no momento com o cumprimento das condicionantes exigidas no licenciamento ambiental, mas Martins avalia que, com o processo de aprendizado de construção dessas usinas mais avançado, as próximas que forem erguidas na região poderão ir atrás do selo de construção sustentável. Isso poderia tornar ainda mais transparentes para a sociedade os resultados de sua construção. "É preciso analisar o balanço social, econômico e ambiental durante a vida útil do empreendimento, com avaliações periódicas", destaca. Para ele, o poder público tem um papel relevante para avançar nessa discussão, pela dimensão dos empreendimentos. "Essas obras têm um grande impacto sobre a sociedade."

A Fundação está conversando com especialistas do setor portuário da Universidade de São Paulo (USP) para aprender mais sobre os critérios técnicos sustentáveis que podem ser empregados nos terminais. Há terminais privados interessados em usar esses parâmetros na ampliação e reforma de suas instalações. "Estamos buscando a orientação da USP para vermos como definir os critérios, já que há essa demanda", diz. Outro setor que poderá ter avanços é o rodoviário, que ao longo dos próximos anos poderá avançar rumo à discussão do selo de estrada sustentável, em que se analisam tanto aspectos ambientais quanto a segurança e conforto para o usuário.

A preocupação com as certificações sustentáveis para as grandes obras ainda deve levar tempo para se tornar generalizada. "Nesse momento, o Brasil, depois de anos sem grandes projetos, voltou a se debruçar a eles. Os empreendedores estão buscando seguir as condicionantes dos licenciamentos, porque esse é foco no primeiro momento, já que não se pode errar na construção desses grandes empreendimentos em áreas sensíveis, mas com o tempo deverá se sofisticar com a busca de avaliações mais precisas do impacto. Esses selos ajudariam a tornar mais palatáveis esses projetos", afirma um empresário do setor.

A demanda pelo selo de certificação já atinge outros segmentos, como os loteamentos. No interior de São Paulo, o Parque Eco-Tecnológico Damha de São Carlos recebeu recentemente a certificação do processo Aqua de Bairro Sustentável. Com ela, o empreendimento tornou-se o primeiro e único parque tecnológico privado de terceira geração do país, desenvolvido para abrigar a implantação de empresas de base tecnológica, a obter o certificado. "A ideia dos empreendedores é atrair empresas não poluidoras para esse parque tecnológico, sendo que elas terão de atender exigências como redução de poluição, menor consumo de água e energia, o que mostra que a iniciativa privada está atenta a esses detalhes", diz Martins.

Para o presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), Marcelo Takaoka, a implementação da política nacional de resíduos sólidos, aprovada ano passado depois de duas décadas de discussão, poderá impulsionar novos avanços para o setor, seja no setor imobiliário, seja nas grandes obras, podendo fazer com que sejam feitas mudanças na hora de se desenhar o projeto. Além da gestão de resíduos, Takaoka observa que existem grandes oportunidades para ganhos em eficiência no setor. "Há muito o que se ganhar, dos canteiros ao uso de materiais inovadores na construção dos empreendimentos", diz Takaoka.

O setor de energia poderia contribuir com melhoras. A adoção das redes inteligentes (smart grids) poderia dar grande impulso à eficiência no uso da energia e estimular o uso de fontes renováveis, como eólica e solar, a partir da microgeração distribuída.

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Fonte: Valor | Por Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo