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Cotações internacionais em baixa afetam produtores de algodão

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Joao Brito/Valor

Evelyn Nguleka está preocupada com os produtores de algodão de Zâmbia. A presidente do sindicato dos agricultores desse país do sul da África diz que a dramática redução das receitas, resultante da queda dos preços ao menor patamar em cinco anos, está causando sérios danos ao setor, que emprega 21% da população local. A vida está ficando "cada vez mais difícil", diz.

A 14.400 quilômetros de distância, no Estado do Texas, nos Estados Unidos, Steve Verett da Plains Cotton Growers, uma associação local de agricultores, repete os temores de Nguleka. "Estamos completamente à mercê do mercado", diz ele. "Será muito difícil para os produtores seguir em frente com os preços nos níveis em que estão."

A oferta global abundante, graças ao clima favorável e às distorções de mercado provocadas pelo programa chinês de apoio em grande escala aos seus produtores, derrubou os preços para menos de 60 centavos de libra este ano – o menor patamar desde 2009 -, prejudicando produtores de todas as partes do mundo. E com a China, a maior importadora mundial, ditando o mercado para os produtores dos países ricos e pobres, "praticamente não temos mais como ditar os preços", diz Nguleka.

Mas a grande diferença entre os produtores de regiões ricas como o Texas e os pequenos produtores de Zâmbia, é que os dos países mais ricos contam com uma rede de segurança na forma de generosos subsídios governamentais.

Os produtores de algodão estão entre os agricultores que mais recebem apoio no mundo, "juntamente com os produtores de arroz, leite e açúcar", diz William Martin, gerente de pesquisas, agricultura e desenvolvimento rural do Banco Mundial. Como resultado, o algodão frequentemente tem estado no centro de disputas comerciais entre os países produtores.

Os subsídios governamentais, que incluem o apoio à produção direta, a proteção das fronteiras, o seguro de safras e a garantia de preço mínimo, totalizaram US$ 6,5 bilhões em 2013/14, segundo a International Cotton Advisory Committee (ICAC), uma organização intergovernamental.

As 18.000 fazendas de algodão dos Estados Unidos são cobertas por programas de seguros de safra baseados nos preços praticados nos mercados futuros. Em 2015, a legislação agrícola dos EUA vai acabar com os "pagamentos diretos" para o algodão e outros produtos, o que provocou ressentimento, uma vez que produtores os recebiam tendo ou não plantado.

Mas em 2013/14 os agricultores do país receberam US$ 453 milhões em subsídios para prêmios de seguros de safra, segundo a ICAC. O programa de seguros será ampliado sob a nova legislação agrícola americana, mas outros subsídios serão eliminados.

A ICAC afirma também que os produtores chineses receberam um apoio direto na casa de US$ 5,1 bilhões em 2013/14. José Sette, diretor-executivo da ICAC, é até certo ponto solidário aos governos que apoiam seus agricultores. "Entendemos a pressão que os governos sentem. Eles querem proteger o que, de muitas formas, é o elo mais fraco da cadeia de fornecimento, que é o produtor", justifica.

Mas ele alerta que os subsídios fornecem incentivos que distorcem o mercado e acabam prejudicando os produtores. "Os subsídios reduzem o problema no curto prazo ao custo do prolongamento da fraqueza dos preços. Não existe almoço grátis aqui", diz Sette.

A principal causa do baixo preço do algodão é a consequência do programa de apoio da China a seus produtores. Sob esse plano, que vigorou de 2011 a este ano, o governo adquiriu algodão a um preço estabelecido, formando estoques enormes – as reservas do país cresceram quase seis vezes desde 2010 e concentram 60% dos estoques mundiais. Este ano, o programa foi substituído por subsídios e desde então começou a frear importações e a empurrar os estoques ao mercado a preços reduzidos.

Analistas temem que a queda das cotações, que desencadeou os programas de apoio aos preços em outros países produtores como o Paquistão e a Índia, possa elevar ainda mais os estoques mundiais.

Para haver uma recuperação dos preços, a produção mundial precisa ser reduzida e os estoques, desovados, afirmam especialistas. "Devemos esperar um período de preços baixos até a resolução da situação dos estoques", diz Sette.

Mas um período prolongado de preços baixos vai atingir mais duramente as nações de renda mais baixa. O algodão é uma das culturas mais importantes da África subsaariana, do qual dependem cerca de 15 milhões de pessoas.

De volta a Zâmbia, Nguleka diz que os cotonicultores do país poderão ser forçados a buscar culturas alternativas, já que não têm apoio governamental. Mas Kelli Merritt, que cultiva 647 hectares da pluma no oeste do Texas e é presidente da CropMark Direct, uma corretora de algodão, diz que a maioria dos agricultores das regiões mais secas do Texas não tem essa opção. "A principal cultura é o algodão. A segunda, é o algodão. E a terceira, é o algodão."

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Fonte: Valor | Por Emiko Terazono e Gregory Meyer | Financial Times