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Correios ainda opõem BB e Bradesco

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Fonte: Valor | Vanessa Adachi e Aline Lima | De São Paulo

A vitória do Banco do Brasil, ontem, no leilão para operar o Banco Postal e poder usar as 6.195 agências dos Correios como correspondentes bancários marca apenas o primeiro round de uma briga que começa agora e opõe o banco federal e o Bradesco, que até o fim do ano continua a ser o titular do contrato. A disputa se dará em torno dos cerca de 5 milhões de clientes que o Bradesco conquistou nos últimos 9 anos como operador do Banco Postal.

O BB leva o direito de explorar serviços bancários na rede dos Correios por cinco anos a partir de 2012, mas os clientes ficam. O banco da Cidade de Deus deve, assim, começar a desenhar desde já sua estratégia para reter o máximo possível dessa clientela. O desafio é estabelecer uma rede para atendê-los satisfatoriamente.

Para o BB, de outro lado, a meta será roubar quantos clientes puder. A rede dos Correios ainda tem um potencial de expansão da base de correntistas, mas o BB vai ter que conquistar ao menos parte daqueles que hoje carregam um cartão com a marca Bradesco se quiser maximizar seu resultado com o novo negócio.

O Bradesco sabe que, inevitavelmente, perderá parte dos clientes, até porque o BB tem a seu favor o fato de os correntistas estarem acostumados ao atendimento nas lojas dos Correios.

Embora contasse com a possibilidade de perder o leilão, o cenário principal do Bradesco era de renovação do contrato. Para montar sua contraofensiva, o banco guarda a sete-chaves toda a inteligência da operação do Banco Postal, com os detalhes de quais são as lojas mais lucrativas e quais não valem a pena. Essas informações nem os Correios têm.

Ao longo dos últimos anos, o Bradesco montou uma rede de correspondentes bancários – que inclui padarias, farmácias e outros comércios – paralela aos Correios. Somente no primeiro trimestre de 2011, o banco firmou parceira com 1.545 correspondentes, totalizando 27.649 pontos da rede chamada Bradesco Expresso. Poucos municípios brasileiros estão fora dessa rede.

Ainda assim, agora será preciso redimensionar a rede, ampliando pontos de atendimento – em muitos casos com abertura de agências bancárias propriamente.

O BB venceu o leilão com uma proposta de pagar R$ 2,3 bilhões, além de um valor fixo de R$ 500 milhões para operar a rede dos Correios, totalizando R$ 2,8 bilhões. Terá, ainda, de repassar aos Correios todos os anos metade da receita auferida com tarifas bancárias. O Bradesco chegou até um lance de R$ 2,25 bilhões no leilão. Embora tenha perdido por apenas R$ 50 milhões, o banco privado acrescentou R$ 700 milhões à sua proposta original. A partir daí, estimou que os ganhos não compensariam o investimento.

As ações ordinárias do BB caíram 0,88% e as preferenciais do Bradesco subiram 0,51%.

Os analistas do Barclays Roberto Attuch e Fabio Zagatti dizem, em relatório, estarem convencidos de que os participantes do mercado prefeririam que o BB tivesse empregado o capital no próprio negócio em vez do que buscar um novo fronte. "O Bradesco teve, nos últimos dez anos, a oportunidade de obter acesso a informações comportamentais exclusivas, o que lhe permite reunir o máximo de dados possível adequadamente, mapear e identificar o cliente do Banco Postal mais adequado (e rentável) e produtos de seguros para as demandas de cada região", ressaltam. "O Banco do Brasil, por outro lado, terá que iniciar ‘do zero’ e, obviamente, vai levar algum tempo para embalar."

Ao menos nos primeiros anos de operação do contrato com o BB, os Correios devem ver o repasse de receita de tarifas cair, muito embora o edital do leilão embutisse um reajuste médio da ordem de 40% dos valores hoje cobrados na rede do Banco Postal.

Justamente pelo fato de começar a operar a rede de correspondentes sem clientes, levará tempo para que o BB alcance o nível de repasse hoje praticado pelo Bradesco. Atualmente, os Correios recebem cerca de R$ 350 milhões por ano em tarifas e, com o reajuste, a receita passaria a quase R$ 500 milhões, desde que mantida a mesma base de clientes.

Bradesco e BB não concederam entrevistas para comentar o resultado do leilão até o fechamento desta edição.

Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o BB afirma que, "por meio desse investimento, o Banco do Brasil antecipa a execução de plano estratégico que objetiva estender seus pontos de atendimento para todos os municípios brasileiros". A analistas, os executivos do BB estimaram que o pagamento pelo Banco Postal afetará seu índice de Basileia negativamente em apenas oito pontos-base. O banco encerrou o primeiro trimestre com índice de 14,1%.

Durante os três meses que antecederam a licitação do Banco Postal, os executivos do Banco do Brasil procuraram tratar o tema com aparente descaso. O presidente Aldemir Bendine chegou a declarar que não tinha "tanto interesse" na concessão. Argumentou que o BB estava bem servido pela própria base de correspondentes e já tinha um plano traçado para estar presente em todos os municípios brasileiros até 2015, por meio de um modelo compacto de agências. Puro despiste.