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Cooperativismo: entidades e governo buscam diálogo para superar dificuldades

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Capacitação e gestão são apontadas como as principais deficiências das cooperativas

Vagner Benites | vagner.benites@ruralbr.com.br

Diego Redel

Foto: Diego Redel

Exportações das cooperativas atingiram R$ 6,1 bilhões em 2011

Márcio Lopes de Freitas fala com orgulho sobre os números das cooperativas na economia brasileira. Segundo o presidente daOrganização das Cooperativas Brasileiras (OCB), 48% do que se produz no agronegócio do país passa de alguma forma por uma cooperativa. As exportações do setor atingiram R$ 6,1 bilhões em 2011, contra R$ 600 milhões em 2009, números que reforçam o papel da organização, criada em 1969 e responsável por emitir registros e também pela promoção e aprimoramento do movimento cooperativista no país, com braço nos 26 Estados e no Distrito Federal.
Para impulsionar os ganhos, entidades representativas e governos buscam o diálogo constante para superar as dificuldades do setor. Apesar de autonomia e independência constarem nos princípios docooperativismo, uma boa relação entre os principais apoiadores da filosofia pode refletir em resultados mais promissores.
— A cooperativa é uma organização autônoma, onde é vedada a interferência externa. O papel da OCB é zelar para manter a característica das cooperativas, fazer alertas, dar o apoio necessário. É um órgão de referência _ explica Freitas.
Ele se mostra receoso quanto à dependência excessiva das cooperativas ao poder público.
— Bons governos no mundo são os que atrapalham menos. O papel de um governo é ser indutor, facilitador, mas as cooperativas não podem depender de políticas externas. Pode até usar, mas não pode depender — defende Freitas.
GESTÃO E EDUCAÇÃO

No entanto, marcos regulatórios e tributários, se não bem alinhados, podem frear o desempenho do setor. E esses aspectos estão ligados à esfera pública. Responsável pelas ações no Ministério da Agricultura, a Diretora Substituta do Departamento de Cooperativismo e Associativismo (Denacoop), Vera Lúcia de Oliveria Daller, chama a atenção para os marcos legais, como a Lei Geral do Cooperativismo, que tramita no Congresso ainda sem perspectiva de votação, e visa atualizar a legislação, em vigor desde 1971.
A gestão das cooperativas ainda é apontada como um dos gargalos para o crescimento do setor no país. A responsável pelo Denacoop salienta o papel do órgão na tentativa de apoiar uma maior profissionalização no comando das associações.
— É preciso separar o operacional do político. Nem sempre um presidente de cooperativa é um bom gestor. É preciso profissionalizar a gestão. Já estamos percebendo uma transformação lenta e gradativa — afirma Vera.
O apoio do órgão ao setor está na celebração de convênios, especialmente os com objetivo de profissionalizar a gestão. A burocracia e a falta de orçamento, no entanto, são os principais entraves para que o governo possa atuar de maneira mais efetiva. De acordo com a diretora, os recursos do Denacoop para convênios foram de R$ 5,1 milhões em 2011, mas apenas seis foram concretizados em todo o ano, consumindo R$ 1,4 milhão. O número fica ainda menor se comparado ao orçamento da pasta em 2003, quando chegou a R$ 23 milhões. Em 2012 nenhum convênio ainda foi fechado. A diretora minimiza a baixa aplicação dos recursos disponíveis.
— Não é só o recurso que é importante. As ações estratégicas são tão ou mais importantes. Queremos hoje é construir projetos, detectar os pontos de estrangulamento e não passar apenas um recurso. Queremos bons resultados — diz.
O presidente da OCB também afirma que a gestão das cooperativas precisa ser acompanhada de perto, mas diz constatar uma evolução.
— É um problema que temos que olhar, mas não é um problema geral. Temos cooperativas que são modelo de gestão, mas ainda temos uma deficiência.
Freitas aponta a necessidade de maior investimento em capacitação e educação cooperativa. Para o presidente da OCB, a expansão do modelo no país, hoje com maior presença nas regiões Sul e Sudeste, passa pela difusão da cultura colaborativa.
_ Já houve tentativas do governo de forçar um crescimento das cooperativas na região Nordeste, mas elas foram criadas de cima para baixo e não tiveram sucesso. Quando terminou a muleta pública, elas acabaram — explica.
— Uma cooperativa tem que nascer, não pode pular etapa. Ela surge como uma condição natural, não é uma questão de curto prazo — completa.
SECRETARIA NACIONAL
Tida como uma das promessas para o Ano Internacional do Cooperativismo, a criação de uma Secretaria Nacional para atender o setor não deve sair do papel em 2012. O presidente da OCB descarta a necessidade da estrutura.
— Esse diálogo surgiu, mas não há necessidade (de uma secretaria). O cooperativismo tem que ter uma compreensão geral, tem que ser uma questão transversal. Eu vejo poucas chances de eficácia _ afirma.
A diretora do Denacoop também confirma o fim do diálogo. 
— Foi uma conversa, mas hoje não se fala mais nisso. Até porque já existe a SDC (Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo).
>>> Esta é a segunda matéria da série Cooperativismo: Modelo de Desenvolvimento. As reportagens serão publicadas no RuralBR até quinta, dia 5, e mostram o papel do setor no agronegócio brasileiro, com exemplos de iniciativas que ajudaram no avanço de comunidades.

 

Fonte: Ruralbr