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Contra-ataque da natureza

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Finn Pedersen/Valor / Finn Pedersen/Valor

Saltar de um helicóptero sobre uma geleira em movimento acelerado no Ártico é o que muita gente chamaria de aventura. Para o paquistanês Shfaqat Abbas Khan, trata-se apenas de um emprego. Todo ano, duas vezes por ano, o geofísico do Instituto de Estudos Espaciais da Dinamarca vai até os confins da Groenlândia repetir um ritual: descer da aeronave – às vezes cercado de fendas de dezenas de metros de profundidade, amarrado a uma corda -, coletar alguns dados, embarcar de novo e voar até o ponto seguinte. Faz isso mecanicamente, com o desassombro de um técnico de TV a cabo. Quem o vê trabalhando dificilmente imaginaria que o emprego de Khan consiste em tentar responder a uma das perguntas mais importantes do século: o que o aquecimento global vai fazer com a humanidade.

Nesta manhã de sábado, o cientista está nervoso enquanto o Bell-212 biturbina fretado da Air Greenland voa em círculos sobre a Corrente de Gelo de Upernavik, no noroeste da ilha. O mapa no console do piloto norueguês Morten Pedersen mostra um ponto de descida onde deveria haver algo que claramente não está lá. Khan varre com os olhos a neve enquanto Pedersen deita o helicóptero para a esquerda, a poucos metros de altitude. O que ele procura é a proverbial agulha no palheiro: uma caixa de metal de 1 metro de lado que pode estar em qualquer lugar, até mesmo enterrada. Ela contém informações vitais e, se não for achada agora, só poderá ser localizada de novo dali a dois meses. Após alguns minutos, o cientista desiste da busca inútil e pede ao comandante que pouse mesmo assim. Pula do helicóptero sem corda, com uma maleta de plástico laranja na mão, e põe-se a caminhar determinado sobre o glaciar. Encorajado, desço logo atrás.

A paisagem é plana e branca em todas as direções, como num deserto. Estamos na parte alta da geleira. Aqui o (relativo) calor desta época do ano e a luz que bate 24 horas por dia ainda não derreteram o gelo da superfície, formando os lagos azul-turquesa que vimos o tempo todo no caminho desde a decolagem da cidade de Upernavik, duas horas antes. São 11h30 e faz um sol de rachar, mas o vento constante transforma a temperatura de 2° C num frio intenso e incômodo. É o que os meteorologistas chamam de vento catabático, uma massa de ar gélido e denso que se forma no alto do manto e literalmente despenca, sob efeito da gravidade. Naquele ponto, o vento não dá trégua nunca. Nem o frio. É um lembrete de que estamos a mais de 72 graus de latitude, a meros 1.900 km do Polo Norte. "Não se afaste muito do helicóptero", adverte Khan. "Pode haver fendas." O repórter diz que está tudo bem, que está seguindo seus passos de perto. Ele ri: "E por que você acha que eu sei onde estou pisando?"

O objeto que o pesquisador perdeu é uma estação receptora de GPS. Trata-se de um pequeno computador ligado a um painel solar e uma antena que passa o ano inteiro registrando as menores variações na própria posição, causadas pelo movimento do gelo. Khan tem mais de 60 estações desse tipo espalhadas pela Groenlândia, várias nos quatro braços do glaciar de Upernavik – uma espécie de delta fluvial congelado que drena uma área equivalente à do Estado de Sergipe. Naquela manhã, pousaríamos ao lado de cinco para fazer reparos. A maleta laranja continha um receptor portátil e uma antena, que Khan usou para determinar a posição do local e tentar descobrir onde estava a estação perdida. Só no dia seguinte ele concluiria que errara o ponto de pouso por 400 metros. "Lá em cima, 400 metros é muita coisa."

A análise dos dados contidos nos discos rígidos das estações permite saber a velocidade com que a corrente de gelo avançou rumo ao oceano e quão mais baixa ou mais alta ela ficou. Juntas, as duas informações dão a medida da saúde da geleira: se está "engordando", ao acumular mais neve do que perde pelo escoamento, ou "emagrecendo", se o inverso ocorrer e a velocidade de escoamento for maior do que o acúmulo de neve. Esse índice de dieta glacial é conhecido pelos cientistas como balanço de massa. Mas pode chamá-lo também de tragédia.

A maior ilha do mundo guarda o segundo maior estoque de água doce do mundo, na forma de uma capa de gelo que cobre 80% de seu território. E, nos últimos 15 anos, essa camada glacial tem passado por uma crise de anorexia: a maioria das suas geleiras está emagrecendo de forma acelerada, provavelmente em decorrência dos efeitos de atividades humanas.

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Nielsen: mudança climática prejudicou sua vida de caçador e, como vários outros nativos, ele agora pesca halibute para a Upernavik Seafoods, empresa que fatura € 14 milhões por ano

A queima de petróleo, gás e carvão e o desmatamento das florestas tropicais lançam no ar um excesso de gás carbônico e outros gases. Esses aprisionam na atmosfera o calor irradiado pela Terra, ao invés de permitir que ele escape de volta para o espaço. Isso faz que o planeta acumule energia mais rápido do que a dissipa. E essa energia a mais faz uma série de coisas com o planeta, como aquecer a atmosfera e os oceanos. Entre 1901 e 2012, o mundo ficou 0,89° C mais quente. O século XXI teve 12 dos 13 anos mais quentes já registrados desde o começo das medições com termômetros, em 1850.

Outra coisa que o excesso de energia faz é derreter gelo e neve em montanhas e nas regiões polares, tornando seu balanço de massa negativo. Nos anos 1990, o balanço de massa da Groenlândia estava negativo em cerca de 50 bilhões de toneladas de água por ano. O débito saltou para 270 bilhões entre 2005 e 2010 e bateu os 400 bilhões em 2012.

Essa água é despejada diretamente sobre o oceano, contribuindo para agravar uma das consequências mais temidas do aquecimento global: a elevação do nível do mar. Só no último século os oceanos já subiram cerca de 20 centímetros. A taxa anual é de pouco mais de 3 milímetros por ano. Um terço disso vem da própria expansão de volume decorrente do aquecimento da água. Um terço vem do derretimento de geleiras nos Andes, Alpes, Alasca e Canadá. E um terço vem dos grandes mantos de gelo polares, quase todo (0,8 milímetro por ano) da Groenlândia. Onde isso vai parar nas próximas décadas ainda é uma incógnita, mas as indicações não são as melhores.

Uma delas será conhecida no fim do mês. No dia 23, reúne-se em Estocolmo, Suécia, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), que de tempos em tempos publica grandes relatórios com o estado da arte do conhecimento sobre o clima da Terra. O encontro visa concluir e publicar a primeira parte do "Quinto Relatório de Avaliação" do painel, o "AR5". O documento, produzido ao longo dos últimos seis anos, traz uma má notícia sobre o nível do mar: a previsão de elevação foi revisada para cima desde a última avaliação, em 2007. No relatório anterior, estimou-se que até 2100 o oceano pudesse subir 59 cm. O "AR5" traça cenários nos quais a elevação máxima pode chegar a 81 cm. A oceanógrafa brasileira radicada na Austrália Cátia Domingues, cujas pesquisas ajudaram a basear as novas estimativas, apresentou uma conta do que isso pode representar: com uma elevação de 1 metro, 150 milhões de pessoas e US$ 1 trilhão em patrimônio estariam diretamente ameaçados.

As geleiras polares são um velho calcanhar de aquiles do IPCC. Seu comportamento é tão complexo que os cientistas têm dificuldade em fazer previsões sobre a contribuição do derretimento para o nível do mar no futuro. Somados, os dois mantos glaciais mais frágeis do planeta, o da Groenlândia e o do oeste da Antártida, têm o potencial de elevar os oceanos em vários metros, o que mudaria drasticamente a face do globo. Isso já aconteceu no passado, e alguns estudos ao longo dos últimos anos têm proposto que possa acontecer de novo. "É pouco provável", pondera Ian Joughin, glaciologista da Universidade de Washington em Seattle, Estados Unidos. Joughin foi um dos primeiros cientistas a dar o alarme sobre a aceleração do degelo polar, na década de 1990. Apesar de ser cético quanto ao que chama de "cenários de pesadelo", ele diz que os números que o IPCC publicou em 2007, apontando que a Groenlândia contribuiria no máximo com 20 centímetros para o nível do mar até o fim do século, foram baseados em modelos muito grosseiros. "Quando eles estavam escrevendo o relatório foi que as geleiras começaram a acelerar e a fazer coisas que ninguém esperava", conta.

Uma dessas "coisas que ninguém esperava" é visível do alto de uma montanha onde Khan montou uma de suas estações de GPS. A rocha, cercada por dois braços da corrente de gelo, tem duas cores: uma pátina escura no topo e um marrom clarinho na parte inferior. A linha entre as duas marca a altura em que o gelo estava em 2005. No ano seguinte, a espessura da geleira havia diminuído mais de 30 metros naquele ponto. "Em alguns lugares ela rebaixou 100 metros de um ano para o outro", afirma o geofísico paquistanês. Em quatro anos, a foz da geleira recuou 5 km, deixando mar aberto em seu lugar. Esse pico de degelo fez que Upernavik ganhasse a honra dúbia de ser o segundo maior contribuinte individual para o aumento do nível do mar na Terra.

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Khan desenterra uma das mais de 60 estações de GPS usadas para medir a aceleração e o rebaixamento da corrente de gelo na Groenlândia: derretimento de cima para baixo preocupa o geofísico

O primeiro posto pertence a outro glaciar groenlandês, a uma hora e meia de voo ao sul dali: Jakobshavn Isbrae, perto da cidade de Ilulissat (palavra inuíte para "icebergs"). Até 1997, esse local era apenas um pitoresco porto de pesca de camarão, encravado numa baía coalhada dos icebergs que lhe dão nome. A geleira, uma das maiores do Ártico, só era lembrada eventualmente por navegadores como o provável local de origem do iceberg que afundou o Titanic.

A partir de 1997, mesmo ano em que o mundo assinou o pífio Protocolo de Kyoto para combater as emissões de gases de efeito estufa, imagens de satélite começaram a mostrar uma aceleração anormal da geleira e de outras na Groenlândia. Em quatro anos, sua extensa língua de gelo, que flutuava sobre um fiorde situado a meia hora de caminhada da cidade, recuou 15 km. Hoje ela desapareceu completamente. Jakobshavn, que continua afinando, tornou-se uma espécie de "marco zero" do aquecimento global, e Ilulissat virou ponto de peregrinação de cientistas em busca de respostas para os enigmas do clima.

Um desses cientistas é o americano David Holland, professor da Universidade de Nova York (NYU). Atualmente divide seu tempo entre os EUA e Abu Dhabi, onde a NYU montou um campus e onde sua mulher, Denise, coordena a logística de um departamento com nome nada sutil: Mudanças do Nível do Mar.

Em 2008, Holland publicou na revista "Nature" um estudo propondo uma explicação para a aceleração de Jakobshavn. O americano imaginou, a partir de uma hipótese formulada por um colega dez anos antes, que um oceano mais quente pudesse ser o culpado, esquentando as geleiras por baixo de forma a acelerar sua desintegração. Os pescadores de Ilulissat ajudaram: foi graças aos registros minuciosos que eles fazem da temperatura da água, fornecidos a Holland pela agência de pesca da Groenlândia, que o pesquisador matou a charada. Esses registros vêm na forma de mapas, nos quais as temperaturas são diferenciadas com as cores vermelha e azul. "Em 1997, todas as águas mudaram de azul para vermelho", conta o americano, sentado no bar de um hotel de Ilulissat, entre um gole e outro da honesta cerveja groenlandesa Dogsled ("trenó de cachorro"). Hoje o fiorde de Jakobshavn, ao qual Holland volta todo ano para fazer medições, tem uma temperatura média de 3° C no verão – 5 graus acima do ponto de congelamento da água.

O mar mais quente é hoje uma das hipóteses mais fortes para explicar o degelo-relâmpago, batizado pelos cientistas de afinamento dinâmico. Esse colapso acelerado é uma tendência que começou a ser observada no sudeste da Groenlândia, região mais tépida, abaixo do Círculo Polar. Mas a perda de gelo tem se espalhado para o Noroeste, mais frio. Foi isso que permitiu que o manto groenlandês quintuplicasse sua contribuição para o aumento do nível do mar na última década.

Existem dúvidas, porém, sobre se outros elementos estão envolvidos no fenômeno, como a temperatura do ar ou até mesmo o próprio formato do leito das geleiras. Um dos braços de Upernavik, por exemplo, praticamente não recuou na época em que os outros se desintegravam. No ano passado, Khan e colegas da Europa e dos EUA publicaram um estudo mostrando que a perda dinâmica de gelo deve diminuir de intensidade à medida que as geleiras recuem a ponto de perder o contato com o mar. Isso já está acontecendo no glaciar de Hellheim, no Sudeste, que está engordando a olhos vistos depois de anos em dieta de top model.

Holland diz não saber o que está causando a mudança na temperatura da água, mas tem um palpite fundamentado: os trópicos podem estar envolvidos na história. "No mundo todo, o oceano esquentou 0,5° C", afirma. À medida que o Atlântico tropical aquece demais, o excesso de calor é dissipado para os polos pelas correntes marinhas, causando o degelo. "Se há uma perturbação no Atlântico tropical, em duas semanas ela chega à Groenlândia e à Antártida", informa. Esse aquecimento atlântico é em parte cíclico, ocorrendo de 60 em 60 anos. Daí a Groenlândia ter passado por uma fase de degelo acelerado também na década de 1930. "O que estamos fazendo é excitar o modo natural do planeta."

O gelo derretido nas regiões polares agrava uma das mais temidas consequências do aquecimento global: a elevação do nível do mar

O pesquisador teme que tal excitação possa atingir ainda neste século o oeste da Antártida. Essa região é mais fria que a Groenlândia, porém mais frágil. Segundo fontes ligadas ao IPCC, o novo relatório dirá que uma eventual ruptura no oeste antártico pode causar elevações do nível do mar acima do previsto até mesmo pelos cenários pessimistas do "AR5".

O afinamento dinâmico teve duas consequências importantes para os 1.200 moradores de Upernavik, terceira cidade do mundo mais próxima do Polo Norte: a primeira foi que, com menos gelo, se abriu uma nova área de pesca de halibute, um peixe ártico muito apreciado na Ásia que hoje movimenta 100% da economia local. A segunda é um paradoxo: o nível do mar na cidade começou a cair a uma taxa de 1 cm por ano. Enquanto outras cidades litorâneas do mundo se preocupam em construir diques, a ilha de Upernavik ganha mais praia.

Isso acontece por causa de um fenômeno bem conhecido por qualquer pessoa que tenha um desses travesseiros de viscoelástico: a crosta terrestre é forçada para baixo pelo peso do gelo. Quando o gelo vai embora, as rochas, assim como o travesseiro, tendem a voltar à forma original, elevando-se. No caso de Upernavik, o alívio de peso foi de 53 bilhões de toneladas apenas entre 2005 e 2010. Daí a elevação da crosta. A isso se soma outro elemento: a atração gravitacional que a Terra exerce sobre o mar, "puxando-o" para cima, também diminui na ausência da massa de gelo. Assim, ao mesmo tempo em que a terra sobe, o mar abaixa na Groenlândia.

O problema é que não existe almoço grátis na mudança climática. Finn Pedersen, professor aposentado e fotógrafo amador que há 30 anos trocou a Dinamarca pela desolação magnífica da região de Upernavik, diz não se importar com o frio, nem com os três meses de escuridão total no inverno, nem com o fato de estar a uma hora e meia de voo do restaurante mais próximo. O que anda deixando-o nervoso são os terremotos. "No ano passado tivemos um que conseguimos sentir", relata. Os abalos são consequência inevitável da reacomodação da crosta terrestre depois do alívio do peso do gelo. O leito rochoso se ergue de forma desigual, o que provoca acúmulos de tensão e fraturas. Eles têm acontecido com frequência nos últimos anos e podem chegar à magnitude 5 na escala Richter. Desde julho, pesquisadores coreanos detectam os tremores na cidade com um sismógrafo.

A vida na região tem sofrido outras mudanças em consequência do aquecimento. Uma delas foi a extinção da profissão de caçador em tempo integral. Num lugar onde não cresce quase nenhuma planta e onde toda a comida precisa ser capturada no mar ou trazida de navio ou avião, caçar é uma questão de sobrevivência e, até recentemente, era também um emprego. Vitus Nielsen, esquimó ruivo que encontro a bordo de uma pequena lancha de pesca no cais de Upernavik, largou essa vida. Ele explica que, como o gelo marinho que circunda a cidade no inverno tem ficado cada vez mais imprevisível, o método de caça tradicional, que consiste em procurar focas guiando um trenó puxado por cães, ficou menos seguro.

Assim como Pedersen e vários outros nativos, Nielsen se desfez de seu trenó e seus cães por uma questão de economia. Hoje é um feliz pescador de halibute e um dos 400 fornecedores da Upernavik Seafoods, processadora de peixe local que fatura € 14 milhões por ano e aumentou sua produção de 3 mil para 6.800 toneladas nos últimos anos. Pedersen chuta que, da década de 1990 para cá, a população de cães de Upernavik tenha caído pela metade. Para sorte dos poucos estrangeiros que frequentam o local e não gozam da simpatia dos bichinhos. "Eles são a coisa que mais me assusta na Groenlândia", diz Khan.

A Corrente de Gelo de Upernavik: as rochas mais claras (centro), estavam cobertas de gelo até 2006. Nesse ponto, o glaciar sofreu um rebaixamento de dezenas de metros em cinco anos

Isso, claro, excluindo os ursos. A baía de Baffin, uma faixa de mar de 500 km que separa Upernavik do Canadá, é lar de uma das oito populações de ursos polares atualmente em declínio no mundo. A falta de gelo marinho para caçar focas atrapalha o maior predador terrestre do planeta. Há relatos de que alguns animais estejam passando mais tempo em terra firme, onde o risco de topar com humanos é maior. Em fevereiro do ano passado, três ursos roubaram carne em uma casa em Upernavik, depois tentaram abrir túmulos no cemitério local. Foram impedidos pelas autoridades. "Como a cota de abate do ano estava cheia, não puderam matá-los", lamenta Finn Pedersen. Khan conta que nunca viu um urso em 15 anos de viagens pela Groenlândia. "Espero ser atacado por um", brinca.

Enquanto os ursos não vêm, Khan se preocupa com outra tendência recente de mau comportamento do gelo polar: o derretimento de cima para baixo. Todo ano, no verão, as bordas do manto da Groenlândia, nas regiões mais quentes, derretem na superfície, formando lagos azuis espetaculares, torrentes e cachoeiras. Esse degelo normal, porém, tem avançado para o interior da ilha – a ponto de o governo da Dinamarca ter proibido travessias do manto pela porção Sul – e para o Norte. "A perda de gelo dinâmica está desacelerando, mas o derretimento está acelerando", diz o paquistanês. Hoje a perda de cima para baixo é duas vezes maior que a de baixo para cima.

Em 2010 e 2012 as temperaturas do ar na Groenlândia saíram do script e se elevaram brutalmente. O resultado foi dramático: em 2012, todo o manto derreteu na superfície pela primeira vez em milhares de anos. Choveu em estações de pesquisa no meio da ilha que nunca antes haviam registrado chuva.

Outro sinal de alerta está no extremo nordeste da ilha, numa geleira gigante conhecida como 79, por estar precisamente naquele paralelo. Em 2011, durante um jantar em Copenhague, Khan se dizia cético sobre a dimensão do degelo polar apontando essa geleira no mapa: "Quando esse cara aqui começar a recuar, vou ficar preocupado". O 79, que tem 20 km de largura em sua foz, avança 700 km manto de gelo adentro. Ele é tão comprido que tem potencial para causar a desintegração de boa parte da Groenlândia. Mas permanecia estável.

Em janeiro, o cientista ganhou motivos para preocupação. Ele examinava imagens de satélite da geleira 79 por acaso, em busca de sinais de perda de gelo no passado para um outro projeto de pesquisa. "O que eu achei foi perda de gelo no presente", conta. Não dá detalhes sobre a descoberta, descrita em um artigo científico atualmente em análise num periódico de grande impacto. Mas adianta que águas mais quentes no fundo do mar são causas prováveis. No ano que vem, Khan quer instalar estações de GPS na geleira. "Achamos que alguma coisa vai acontecer muito em breve lá e queremos medir antes que aconteça", afirma, sentado numa pedra no topo de Upernavik, olhando o mar.

É domingo à tarde e faz calor. A neve que se acumulara no inverno derrete rapidamente, transformando as ruas da cidade em córregos. Todo verão é assim. A cidade inteira exala um cheiro engraçado, igual ao de geladeiras velhas sendo descongeladas. Lixo e entulho que três dias atrás estavam cobertos pela bucólica paisagem invernal agora se acumulam em frente das casinhas de madeira coloridas dos esquimós. Khan resume seu sentimento sobre o futuro de seu local de trabalho: "Você pode esperar que toda a Groenlândia vá acelerar. Um grau de aquecimento a mais basta. Não é preciso chegar a seis graus".

Os groenlandeses provavelmente vão se adaptar, como têm feito desde a colonização europeia, no século XVIII. Menos claro é como a parcela da humanidade que vive à beira-mar responderá ao excesso de água que vem dos polos – um problema que ela mesma vem ajudando a causar.

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Fonte: Valor | Por Claudio Angelo | Para o Valor, de Upernavik (Groenlândia)