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Consumo de frango patina no país

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Tormenta para os produtores de carne de frango e carne suína no último ano, o milho é motivo de alívio para os frigoríficos do país em 2017, mas a recessão econômica vem atrapalhando a esperada recuperação do setor, sobretudo das indústrias de frango mais dependentes do mercado brasileiro.

No primeiro bimestre, a demanda doméstica não esboçou reação, de acordo com analistas, executivos e representantes da indústria ouvidos pelo Valor. A avaliação é que, como o desemprego não para de aumentar, a retomada tende a ser mais lenta que o imaginado no fim de 2016, quando alguns produtores de frango até sinalizaram aumentar a produção.

"Houve um momento em novembro e dezembro que o pessoal voltou a se animar. Mas como perceberam que não há jeito de ter preços melhores, a turma puxou o freio", disse o presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra. "O clima recessivo ainda está bem complicado", acrescentou ele.

De fato, os alojamentos de pintos de corte – indicador da produção futura de carne de frango – surpreenderam os analistas no fim do ano. Em dezembro, 560,3 milhões de aves foram alojadas nas granjas do país, avanço de 6,7% ante novembro, conforme a Associação Brasileira de Produtores de Pintos de Corte (Apinco). Na comparação com igual período do ano anterior, porém, houve queda de 2,1%.

"Não fosse a exportação boa em janeiro, o mercado teria engasgado", afirmou analista da MB Agro, César Castro Alves. Em janeiro, no entanto, o movimento perdeu força, e o número de pintos de cortes alojados caiu 4,4% – na comparação com o mês anterior e com janeiro. "O mercado interno não está dando respaldo para aventuras", disse Alves, lembrando que em períodos de queda dos preços do milho a indústria costumava acelerar a produção.

De acordo com o analista Marcos Iguma, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), o primeiro bimestre, período que sazonalmente é fraco devido às férias escolares, foi ainda mais fraco em 2017. "Não adianta acelerar muito a produção porque o mercado não vai absorver", concordou.

"O consumo nacional está muito igual ao ano passado. Está muito restrito", afirmou ao Valor o diretor comercial da catarinense Aurora, Leomar Somensi. A cooperativa é a terceira principal indústria de aves e suínos do país, só atrás de JBS e BRF. Nesse cenário, a Aurora ainda não decidiu o que fazer com o nível de produção de frango. Devido à alta do milho no ano passado, a Aurora deu férias coletivas alternadamente em seus abatedouros para cortar a produção em 8%.

Para indústria de frango, nem mesmo o desempenho do mercado externo, que "bombou" nos primeiros dois meses em razão do surto de gripe aviária que atinge mais de 40 países no mundo, pode ser comemorado integralmente. "O câmbio tem tirado o que a gente consegue ganhar em preço", disse Somensi.

Em 2017, o preço em dólar da carne frango exportada pelo Brasil registrou forte elevação no primeiro bimestre. Conforme a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o preço médio da carne de frango in natura comercializada pelo Brasil aumentou 19,4% e 23,1% em janeiro e fevereiro, respectivamente, na comparação com igual período do ano passado – quando as cotações estavam muito depreciadas devido à sobreoferta de frango em diversos importadores. Na comparação com dezembro, o preço já subiu 9,3%. Contudo, o dólar médio caiu 7,4%, quase anulando a alta.

No primeiro bimestre, as exportações brasileiras de carne de frango subiram 8,9% ante igual período de 2016, somando 693,1 mil toneladas, conforme dados da Secex compilados pela ABPA. Em receita, o avanço foi de 28,7%, para US$ 1,167 bilhão. Em dólar, foi o melhor primeiro bimestre em quatro anos, segundo ABPA. A alta do real, porém, limita esse impacto positivo. "Não ganhamos como poderíamos por causa da valorização do real", acrescentou Turra.

De acordo com o dirigente, a ABPA esperava que o dólar estivesse ao menos entre R$ 3,30 e R$ 3,40. "Seria o componente ideal para assegurar a recuperação", afirmou, destacando que a demanda externa "é inegavelmente boa" e que os custos com ração estão contribuindo.

Segundo Turra, o cenário de preços de milho é bastante positivo, com a recomposição da colheita de milho safrinha "A recuperação é lenta, mas não em decorrência de custos", resumiu.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor