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Conhecimento aperfeiçoa perfil produtivo

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Num cenário de desenvolvimento econômico intenso, como o que vive atualmente o Nordeste, os parques tecnológicos se tornam cada vez mais um espaço de fomento de empreendimentos inovadores e de fortalecimento de cadeias produtivas e de segmentos industriais locais. Hoje, de um total de 70 parques tecnológicos em diferentes estágios de planejamento e operação no país, pelo menos sete já se encontram em Estados nordestinos (Pernambuco, Paraíba, Ceará, Bahia e Sergipe). São 47 incubadoras de empresas na região, das mais de 300 existentes no território nacional. O anúncio mais recente foi o do Sergipe Tec, que está sendo montado numa área de 130 metros quadrados, nas imediações da Universidade Federal de Sergipe, em Aracaju, com investimentos de R$ 32 milhões, para abrigar 120 empresas e gerar 1,5 mil empregos.

"O desenvolvimento econômico local passou a demandar conhecimento inovador para dar suporte a empresas nas áreas de bens de capital, têxtil, bebidas, alimentos, passando pelos arranjos produtivos locais (APLs) das cadeias produtivas nos segmentos de vestuário, calçados e do agronegócio. As empresas estão preocupadas com novas formas de produção, processos mais eficientes e custos mais baixos de fabricação, e as universidades e a comunidade científica podem dar suporte a esse tipo de inquietação do empresariado", diz Francilene Garcia, diretora-geral da Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB) e presidente da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec).

Segundo ela, além do rejuvenescimento dessa base empresarial, o desafio maior é o da qualificação da mão de obra. "Os parques tecnológicos, através de suas incubadoras, de maneira contínua, estabelecem programas de formação de empreendedores que inovam", diz ela. Um dos quatro primeiros parques tecnológicos do país, instalado na cidade de Campina Grande, situado a 130 quilômetros de João Pessoa, o PaqTCPB, já graduou 75 empreendimentos inovadores e atualmente tem 37 projetos incubados. Neste momento, o parque tecnológico passa por um processo de expansão, com a construção de uma nova área para abrigar mais 60 empreendimentos, incluindo um instituto alemão que atua com tecnologias para a área de saúde. Serão investidos, inicialmente, R$ 5 milhões, recursos do governo estadual e da prefeitura de Campina Grande. "Temos ainda um projeto de construção de um centro de eficiência energética, com financiamento da Finep, de R$ 7 milhões, e de um centro de pesquisa na área de saúde, com recursos do Ministério da Saúde, de R$ 5 milhões", conta Francilene.

Considerado uma das mais exitosas experiências de centro de produção de conhecimento e inovação do Brasil, o Porto Digital, localizado no Recife (PE), tem muitos elementos a transmitir para o sucesso de outros empreendimentos de parques tecnológicos em implantação em outras regiões do país, avalia Chico Saboya, diretor-presidente. "É preciso uma integração e um compartilhamento de visão de propósitos e objetivos entre universidade, governo e o empresariado, além de um modo de governança privado para uma instituição pública. E mais do que tudo: forte autonomia política e um modelo de sustentação financeira que independa de favores de qualquer espécie", diz.

Não é só por falar. Afinal, as 200 empresas e organizações de serviços associados abrigadas no Porto Digital faturaram em 2010 cerca de R$ 1 bilhão, 65% dos quais originados de contratos firmados fora de Pernambuco. "Isso é mais do que toda a receita dos empreendimentos instalados em terras irrigadas no Vale do São Francisco", afirma Saboya. "Conseguimos montar espaços de concentração de competências tanto no nível acadêmico como produtivo, onde se convergem as melhores vocações para a inovação e os melhores talentos empreendedores, geradores de riqueza", acrescenta. "Os números expressam isso: são 6,5 mil técnicos e empreendedores, três incubadoras de empresas, duas instituições de ensino superior e dois institutos de pesquisa, um dos quais, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), foi considerado duas vezes pela Finep o melhor do País", diz Saboya.

Para ele, no entanto, o maior desafio é a formação de mão de obra e qualificação de empresas fornecedoras de produtos e serviços para as modernas industriais que se instalam em Pernambuco. No que diz respeito ao fornecimento de serviços de Tecnologia da Informação, de acordo com o dirigente do Porto Digital, a instituição está bem aparelhada. As oportunidades que se abrem são para fornecer sistemas complementares para as grandes indústrias que chegam. O objetivo para 2012 é ampliar as conexões de negócios. Para isso, serão criados dois escritórios avançados do Porto Digital em Suape e em São Paulo, a partir de março. "A principal meta estratégica é ter, em 2020, vinte mil pessoas ocupadas em atividades de alta qualificação profissional em 400 empreendimentos inovadores", destaca Saboya. O pesquisador vê alguns entraves nessa direção: O maior obstáculo para quem lida com inovação no país é a baixa cultura inovativa do setor produtivo. "O Brasil inova pouco, basta ver a pesquisa do IBGE. Só temos 1,5 mil empresas inovadoras, em padrões internacionais. Em 2009 o Brasil gerou apenas 107 patentes internacionais, enquanto só num IPhone tem 200 patentes", relata.

Fonte: Valor | Por Genilson Cezar | de Recife