.........

Companhia Müller já é autossuficiente em matéria-prima

.........

Silvia Zamboni/Valor

Gonçalves, presidente da Müller: "O objetivo não é economia de custos. É ligado à qualidade e ao controle maior da cachaça"

Após um plano de investimentos de quatro anos em busca de autossuficiência em matéria-prima, a Companhia Müller de Bebidas, conhecida pela produção da cachaça 51, processará, ao longo desta temporada 2017/18, apenas cana-de-açúcar plantada em terras próprias ou arrendadas.

Essa aposta da empresa nas operações agrícolas é uma mudança central em sua busca pelo aperfeiçoamento da qualidade do produto final. Segundo Ricardo Gonçalves, presidente da Müller, a estratégia foi inspirada no conceito de "terroir", que nos vinhos está intimamente ligado ao solo, ao clima e à topografia das áreas de cultivo de uvas.

A "verticalização" do processo produtivo da cachaça também destoa do padrão do segmento. Até por isso, a moagem de cana associada a ela é relativamente modesta. Neste ciclo, iniciado em abril, a companhia prevê processar aproximadamente 630 mil toneladas da matéria-prima. A maior parte desse volume virá de lavouras cultivadas em terras arrendadas, mas todos os cuidados agrícolas, do plantio à colheita, são realizados pela Vale do Xingu, controlada da Müller nessa frente.

Considerando que a área de cana-de-açúcar a ser colhida neste ano, em terras próprias e arrendadas, alcança 9 mil hectares, a expectativa é que a produtividade agrícola chegue a cerca de 70 toneladas por hectare – desde que o clima colabore, evidentemente.

Trata-se um índice próximo da produtividade média esperada pela União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) para as lavouras da região Centro-Sul do país nesta temporada, que, conforme divulgado recentemente, chega a 75 toneladas por hectare.

Antes da autossuficiência, toda a cana que a Companhia Müller de Bebidas recebia de terceiros tinha que passar por uma bateria de exames e análises físico-químicas, para adequar o produto final às exigências do Ministério da Agricultura que o caracterizam como cachaça.

Sem a figura do fornecedor, o controle da qualidade agora está concentrado no campo, associado à adoção de variedades mais apropriadas à região de atuação da companhia – em Pirassununga, no interior paulista – e aos cuidados agrícolas necessários para uma produção mais depurada da cachaça.

Mas o investimento em cultivos próprios também demandou adaptações industriais. Quando vinha do fornecedor, a cana chegava em feixes, já que o corte era realizado à mão. Agora, nas lavouras cultivadas pela companhia, o corte é realizado com colhedoras, que cortam a planta em tocos pequenos.

"Na destilaria, agora temos que aceitar esses toquinhos. Por isso, tivemos que investir uma pequena quantia para fazer adaptações para processar essa cana-de-açúcar", afirma Gonçalves. Inicialmente, 2% da colheita nas plantações da Müller ainda será manual, por causa da topografia acidentada que dificulta a entrada de máquinas. Mas a perspectiva é que na próxima safra todo o processo esteja mecanizado.

Nessa transição para a utilização de cana-de-açúcar própria, a companhia também conseguiu prescindir da adição de açúcar em suas cachaças. Até então, o adoçante era utilizado para suavizar o gosto e impedir que a aguardente "arraste" na garganta. Agora, com um controle mais apurado da qualidade a partir do uso de matéria-prima produzida pela própria empresa, o gosto da aguardente ficou mais suave, conforme Gonçalves.

De acordo com o executivo, o fim dos pagamentos para fornecedores terceirizados gerou ganhos praticamente marginais para a Müller. "O objetivo não é economia de custos. É ligado à qualidade e ao controle maior da cachaça", ressalta Gonçalves. Mais que um investimento estratégico da Companhia Müller, afirma, a "sofisticação" da aguardente é uma forma de sobreviver em um mercado que tem se mantido estável nos últimos anos e que tem "um viés de baixa".

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte: Valor