.........

Commodities de exportação seguem em baixa

.........

No que depender dos preços internacionais, o cenário para as margens das exportações agrícolas nos principais mercados nos quais o Brasil é líder mundial ganhou contornos mais sombrios em abril. Na bolsa de Chicago, a soja, carro-chefe do agronegócio nacional, voltou a perder sustentação, e o mesmo aconteceu com açúcar, café e suco de laranja na bolsa de Nova York.

Cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega mostram que as quedas mais profundas são em Nova York (o balanço foi fechado ontem, dia 27). No mês, a maior baixa em relação à média de março é a do açúcar (8,94%), seguida pelas retrações do suco de laranja (8,74%) e do café (2,72%). Também recuam o cacau (4,51%) e o algodão (0,86%), que atualmente têm menos peso na balança comercial brasileira.

Preocupa as usinas do país a baixa do açúcar, cuja média dos contratos de segunda posição de entrega em Nova York desceram neste mês ao menor patamar desde abril de 2016. Pesam sobre os preços a possibilidade de que a próxima safra global (2017/18) volte a apresentar superávit, apesar da projeção de queda da produção no Centro-Sul do Brasil divulgada na quarta-feira pela União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

A queda do suco pode ser explicada pela tendência de recomposição da oferta brasileira na temporada 2017/18, depois que o clima adverso derrubou a produção de laranja no cinturão formado por São Paulo e Minas (o maior do mundo) na safra 2016/17, o que reduziu o processamento de suco no país e esvaziou estoques. Daí as cotações recorde no fim de 2016. Em relação à média de dezembro, a deste mês, piso desde maio de 2016, é 22,77% mais baixa.

No caso do café, a queda de abril, muito influenciada por uma liquidação de posições de fundos de investimentos, devolve as cotações ao nível de junho de 2016. Mas o mercado está em banho-maria. Como observa Thiago Cazarini, da Cazarini Trading Company, não há pressão de venda por parte de produtores brasileiros ou grande interesse de compra nos países importadores. "Os estoques estão altos nos EUA e também há café na Europa", diz.

Se o espaço para valorizações do suco de laranja, do açúcar e do café está estreito, o mesmo acontece no mercado de grãos. Depois das problemas climáticos que reduziram a produção na América do Sul no ciclo 2015/16, a oferta se recompôs com boas colheitas nos Hemisférios Norte e Sul em 2016/17, e as previsões para 2017/18 apontam para novas safras polpudas.

Conforme estimativas divulgadas ontem pelo Conselho Internacional de Grãos (IGC), com sede em Londres, a produção mundial de soja deverá alcançar 348 milhões de toneladas, 3 milhões a mais que em 2016/17. E os estoques de passagem tendem a ficar em 38 milhões de toneladas – 2 milhões a menos, mas ainda um nível considerado confortável.

Nesse contexto, as cotações em Chicago voltaram a encontrar dificuldade em permanecer acima de US$ 10 por bushel. A média de abril, a menor desde março do ano passado, ficou abaixo dessa "barreira" depois de cinco meses de maior sustentação. E, se as expectativas de valorização do dólar se confirmarem, qualquer escalada será ainda mais difícil. Quando a moeda americana sobe, o produto dos EUA perde competitividade e normalmente a cotação recua.

O mesmo raciocínio vale para o milho, cujas exportações são lideradas pelos americanos, com os brasileiros em segundo lugar. Ainda que o cereal tenha permanecido relativamente estável em abril, a pressão sobre os preços existe e as apostas dos fundos de investimentos em quedas ganharam força nas últimas semanas.

Conforme o IGC, a produção mundial de milho deverá atingir 1,026 bilhão de toneladas na safra 2017/18 – que está em fase de plantio no Hemisfério Norte -, ante 1,059 bilhão em 2016/17. Duas temporadas seguidas, portanto, de oferta robusta, que continua a colaborar para que os estoques globais de passagem de um ciclo para o outro fiquem acima de 200 milhões de toneladas. Um colchão e tanto.

Por Fernando Lopes, Fernanda Pressinott, Cleyton Vilarino e Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

(Fernando Lopes, Fernanda Pressinott, Cleyton Vilarino e Alda do Amaral Rocha | De São Paulo)

Fonte : Valor