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Commodities agrícolas não escapam do ‘fator China’

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A tensão global nos mercados financeiros globais emanada ontem pela China não poupou as cotações das principais commodities agrícolas negociadas nas bolsas de Chicago (milho, trigo e soja) e Nova York (açúcar, cacau, café, suco de laranja e algodão).

Todas iniciaram suas respectivas sessões em baixa, "engolidas" que foram por movimentos especulativos derivados das incertezas chinesas. Cacau, milho e trigo, contudo, se recuperaram ao longo do dia e fecharam em alta, influenciada pela queda do dólar em relação ao euro e ao iene e por fatores ligados a seus fundamentos de oferta e demanda.

Mas, para analistas, essas valorizações não deixam de ser um sinal da confiança de que a tendência de incremento do consumo de alimentos no país asiático, inclusive de maior valor agregado, resistirá à desaceleração seu crescimento.

Nesse contexto, as atenções estiveram mais focadas em Chicago, onde são negociadas as commodities agrícolas básicas para alimentação humana e animal.

Ali, os contratos do milho para novembro fecharam a US$ 3,8050 por bushel (medida equivalente a 25,2 quilos), em alta de 3,25 centavos de dólar, ao passo que os papéis do trigo para dezembro subiram 4 centavos de dólar, para US$ 5,08 por bushel (27.2 quilos). A soja para novembro recuou 15,5 cents, para US$ 8,74 por bushel (27,2 quilos). É o menor valor em mais de seis anos, mas vale destacar que a China responde por quase 70% das importações globais da oleaginosa.

Apesar das turbulências – a desvalorização do yuan entre elas -, não se espera que China reduza suas compras de grãos no exterior. Mas os chineses não costumam dar ponto sem nó e, desde que bem estocados, podem perfeitamente querer compensar suas incertezas e a desidratação de sua moeda nos preços que pagam nas importações. De 11 de agosto (quando Pequim interveio em sua moeda pela primeira vez em tempos recentes com mais força) até ontem, o yuan caiu 3,04% em relação ao dólar.

Estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que os estoques de milho, trigo e soja da China iniciarão a safra internacional 2015/16, em 1º de setembro, em patamares confortáveis.

No mercado de milho, os estoques iniciais (81,26 milhões de toneladas) deverão representar 37,1% da demanda total (219 milhões de toneladas), bastante acima da média global (19,7%). No caso do trigo, a relação é ainda mais folgada. Segundo o USDA, os estoques iniciais chineses em 2015/16 (74,57 milhões de toneladas) serão equivalentes a 64% da demanda interna (116,5 milhões de toneladas), ante a média mundial de 31%.

Na soja, mercado de grãos também mais aberto à participação da iniciativa privada no país asiático, o cinto é mais apertado. Nas contas do USDA, os estoques iniciais no próximo ciclo (17,55 milhões de toneladas) representarão 19,1% da demanda doméstica (91,7 milhões de toneladas). A média global está projetada pelo órgão em 28%.

Se o USDA estiver correto, boa parte dos estoques previstos foram alimentados em julho, já que, conforme o serviço aduaneiro chinês, as importações do país cresceram de forma expressiva nas três frentes durante o mês.

Em uma evidente estratégia focada em aproveitar os preços mais baixos dos grãos na bolsa de Chicago, as importações de milho da China cresceram pelo quarto mês seguido e somaram 1,1 milhão de toneladas, maior volume mensal desde 2005. Nos sete primeiros meses de 2015, o volume acumulado chegou a 3,8 milhões de toneladas, duas vezes mais que no mesmo intervalo do ano passado.

As importações chinesas de soja, por sua vez, chegaram a 9,5 milhões de toneladas em julho e somaram 44,7 milhões de toneladas nos sete primeiros meses do ano, 7,1% mais que de janeiro a julho de 2014. No caso do trigo os volumes são mais modestos. As importações da China aumentaram para 301,3 mil toneladas no mês passado mas, dados seus estoques já elevados, no acumulado do ano houve queda de 37%, para 1,7 milhão de toneladas.

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Por Fernando Lopes, Camila Souza Ramos e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor