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Comercialização de grãos em ritmo lento

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Marcos Campos/Rally da Safra

Plantio de milho safrinha em Mato Grosso do Sul em janeiro: colheita será volumosa e especialistas alertam para o risco de problemas logísticos no escoamento

O enfraquecimento do dólar ante o real e a recente desvalorização da soja e do milho na bolsa de Chicago têm desanimado os produtores brasileiros a efetivar as vendas da colheita desta safra 2016/17.

Em Mato Grosso, principal Estado produtor desses grãos no país, a comercialização antecipada da safrinha de milho atingiu 35,5% da produção estimada (25 milhões de toneladas) até o dia 13 de fevereiro, segundo Instituto Mato-Grossense de Economia e Agropecuária (Imea/Famato). O ritmo está 42 pontos percentuais abaixo do mesmo período do ciclo passado.

A diferença na velocidade de vendas pode assustar, mas é importante levar em consideração que na safra 2015/16 houve picos de preços dos grãos em Chicago e desvalorização do real, o que levou os produtores brasileiros a adiantar as vendas o máximo possível. Ainda assim, essa diferença não pode ser ignorada. Recentemente, um executivo de uma das principais tradings globais que atuam no Brasil afirmou ao Valor que o produtor brasileiro está segurando a produção e isso tem sido fonte de preocupação para essas multinacionais.

Segundo Francisco Peres, da Labhoro Corretora, a lentidão na comercialização da safra 2016/17 no país é de fato preocupante. "Normalmente, em março a demanda mundial se volta para a América do Sul justamente por ser o fim da safra na América do Norte, onde os preços sobem. Mas não é o que temos observado". Conforme a consultoria AgRural, no Centro-Sul do país como um todo a comercialização antecipada do milho alcançou, no fim de janeiro, 24% da produção prevista na região (63,9 milhões de toneladas).

No caso da soja, a consultoria Safras & Mercado aponta que, no país, a venda da colheita corrente chegou a 42% do total esperado (107 milhões de toneladas) até o fim de fevereiro. No mesmo período do ano passado, o percentual era de 56%, e a média dos últimos cinco anos foi de 51%.

"Os preços, apesar das desvalorizações, ainda estão bem acima do custo de produção. Reter a safra pode ser um problema lá na frente", disse Paulo Molinari, analista da Safras, ao lembrar que no início da safra 2017/18 nos EUA as oscilações do real e potenciais problemas na colheita na Argentina podem alterar o mercado. "O Brasil tem que tirar pelo menos 30 milhões de toneladas [de milho] do mercado interno. Isso tem que sair de qualquer forma, e em função do preço baixo o produtor vai vender só lá na frente".

Na avaliação de Lucas Brunetti, economista do Banco Pine, um risco grande é que haja problemas logísticos no segundo semestre se o produtor continuar evitando fechar novos negócios. "Existe um grande risco para a cadeia. É um volume grande e terá que haver um esforço muito grande, do produtor ao operador logístico. A gente pode ter um cenário parecido com o de 2013, quando havia um monte de milho nos armazéns e nos portos e aí não podia sair a soja. Esse é o maior perigo e é logístico", afirmou Brunetti.

Para Aurélio Pavinato, presidente da SLC Agrícola, uma das principais companhias de grãos e fibras do país, há chance de o real desvalorizar e ajudar a melhorar o preço dos grãos, especialmente o milho, em Chicago. "Os preços estão bem aquém do que o produtor quer vender, já precificando uma grande safra. O fator que pode melhorar isso é uma mudança no câmbio".

Por Cleyton Vilarino e Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte : Valor