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Começa o plantio de soja em Mato Grosso

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Ruy Baron/Valor / Ruy Baron/Valor
Mesmo em regiões sem chuva e ainda durante o vazio sanitário, o plantio de soja em Mato Grosso começa a evoluir

Madrugada em Primavera do Leste, sudeste de Mato Grosso. Marco Interlandi se levanta e vai até a janela para procurar sinais de chuva. Nada ainda, como nos últimos dias. Com o iminente fim do período de vazio sanitário da soja, no domingo, ele está ansioso para iniciar a semeadura da safra 2013/14. Mas, para isso, Interlandi sabe que é preciso chover para evitar desperdícios. Ontem não choveu. Para o produtor, restam dois dias. De domingo não passa, confia.

Não que isso tenha segurado o ímpeto de muitos médios e grandes produtores mato-grossenses nesta temporada. Em diversas regiões do Estado, a aposta no plantio "no pó" é elevada nesta temporada, bem como o desrespeito ao vazio sanitário, fundamental para evitar a proliferação de pragas. Mas às margens das rodovias, máquinas já trabalham sem descanso, dia e noite, em um sem número de propriedades, muitas com irrigação. Em algumas delas, enquanto o feijão é colhido, a soja é plantada; em outras, é verdade, o solo está sendo apenas corrigido para receber as sementes da oleaginosa.

Quem iniciou ontem o plantio, alega que o pé de soja só emergirá depois do domingo, quando o vazio, que busca evitar a presença de plantas vivas entre 15 de junho e 15 de setembro, estará encerrado. O descumprimento das regras do vazio sanitário prevê multa equivalente a 30 UPF-MT (Unidade de Padrão Fiscal de Mato Grosso), acrescido de 2 UPF-MT por hectare não destruído da planta. O valor de um UPF-MT é reajustado mensalmente, e a referência para setembro é R$ 101,88.

O vazio foi criado em 2006 para tentar conter a proliferação do fungo da ferrugem asiática no Estado, e seu período é definido pelo Instituto de Defesa Agropecuária (Indea). O órgão explica que "o controle é realizado, como regra geral, através da proibição do cultivo de soja na entressafra e da destruição das tigueras (plantas de soja que nasceram de grãos caídos involuntariamente no solo). Dessa forma, são eliminadas as "pontes verdes" para a permanência do fungo no ambiente, o que favoreceria a incidência precoce da praga".

Apesar de a safra ter começado com custos em alta, preços menores e margens menos folgadas, ainda que remuneradoras, a colheita tende a bater um novo recorde. Até o fim de agosto, as cotações do grão estavam mais baixas, mas o dólar subia em relação ao real. Por isso, produtores aproveitaram para acelerar as vendas antecipadas, que ainda seguem menos aquecidas – 31,2% da colheita total prevista foi negociada, 27,4 pontos percentuais abaixo do mesmo mês do ano passado.

Segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ligado à federação da agricultura e pecuária do Estado (Famato), o custo de produção da soja transgênica nesta safra 2013/14 chega a R$ 2.432,70 por hectare, 27% maior que no ciclo anterior. As maiores altas foram percebidas em transporte (19%), defensivos (29%), fertilizantes (25%), sementes (33%) e assistência técnica (54%).

Com uma área de 840 hectares, Interlandi não é considerado um grande produtor, mas vai somar sua colheita a alguns dos maiores sojicultores do mundo para ajudar o Estado a plantar 8,27 milhões de hectares e colher 25,2 milhões de toneladas, conforme a Famato. Todos os 840 hectares da propriedade de Interlandi serão cultivados com soja. "Está tudo alinhado e pronto para começar a plantar assim que chover mais de 100 mm".

Com uma produtividade média prevista pelo Imea em 51 sacas de 60 quilos por hectare, na média dos últimos anos, a produção total do Estado deverá registrar um aumento de 7,16% sobre o ciclo 2012/13. Se confirmadas, área e produção serão as maiores já registradas.

A região norte do Estado tem, aos poucos, integrado áreas de pastagem à produção agrícola e é o grande destaque de aumento anual de produção em Mato Grosso. Na safra 2009/10, a região produziu 131 mil toneladas, em 44 mil hectares. Na atual, deverá produzir 619 mil toneladas, em 210 mil hectares.

"Com os bons preços vistos nas últimas safras, os produtores estão capitalizados e já fizeram investimentos, ampliando a área plantada. Mas, diante das atuais incertezas, temos que lembrar que isso não se sustenta no longo prazo. O governo também precisa investir. Do contrário, perderemos força em produção e inovação", afirma Carlos Fávaro, presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja).

Fávaro reconhece que, diante dos custos mais elevados e das incertezas sobre os preços, a valorização do dólar em relação ao real se tornou uma arma. "Pode ser favorável se a tendência se mantiver assim até a colheita. Mas também pode ser um desastre se o produtor comprar os insumos caros e o dólar cair e ele perder essa diferença na venda da soja".

O presidente da Famato, Rui Prado, reforça que o momento não é bom, mas que, apesar da tendência de margens menores, os produtores ainda terão lucro. Ele também afirma que os investimentos cresceram, com destaque para os aportes dos pecuaristas. "O aumento de área plantada de soja se dará, principalmente, em áreas de pastagem que estão se transformando em agricultura, já que a pecuária não está remunerando bem", afirmou Prado.

Em uma área de 1,7 mil hectares, Fernando Fabris se prepara para colher 5,8 mil toneladas, mas reclama do aumento de custos. "Nesta safra, os custos subiram mais de 25%, puxados por sementes e defensivos. Estou gastando três vezes mais em semente". Apesar do risco da ferrugem asiática, a principal preocupação de Fabris hoje é a lagarta helicoverpa.

"Está difícil controlar a ferrugem e estamos usando diversos produtos, com quatro aplicações de fungicidas. Apesar disso, a helicoverpa preocupa mais, pois não temos produtos eficazes para usarmos contra a praga", afirmou.

O Grupo Bom Futuro, do produtor Eraí Maggi Scheffer, deverá plantar 246 mil hectares de soja na safra verão 2013/14, além de milho, algodão e feijão, em um total de 258 mil hectares. A produção deverá ser de aproximadamente 738 mil toneladas, segundo o gerente técnico geral do grupo, Inácio Modesto. Cerca de 67% da área total é arrendada e 33% é própria.

Para trabalhar em uma área tão grande, o grupo conta com 409 plantadeiras, 393 colheitadeiras de grãos, 293 pulverizadores, 910 tratores e 138 colheitadeiras de algodão. Durante toda a semana, cerca de 70 encarregados de plantio participavam de um treinamento na fazenda Filadélfia (em Campo Verde) para operar as plantadeiras. Durante a semana que vem, os encarregados deverão repassar o que aprenderam para os técnicos que vão operar as mais de 800 plantadeiras do grupo.

O Grupo Bom Futuro também deve movimentar cerca de 1,1 milhão de sacas de sementes. A produção própria tende a chegar a 1 milhão de sacas e outras 160 mil sacas devem ser compradas.

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Fonte: Valor | Por Tarso Veloso | De Campo Verde e Primavera do Leste (MT)