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Começa a produção de etanol celulósico no país

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Ana Paula Paiva/Valor
Bernardo Gradin, presidente da GranBio: mais 11 unidades em uma década

A produção de etanol de segunda geração, a partir de açúcares extraídos da celulose presente em biomassas como o bagaço e a palha da cana, enfim saiu do campo das utopias no Brasil. E o pioneirismo coube mesmo à Granbio, como era esperado. A empresa de biotecnologia industrial controlada pela holding da família Gradin anunciou ontem o início da operação de sua primeira usina de etanol celulósico, em Alagoas.

Mais do que fruto de um novo processo de fabricação de biocombustíveis, o etanol celulósico é considerado por especialistas como uma das maiores inovações do setor de agronegócios nas últimas duas décadas. No mercado, estima-se que, no longo prazo, será possível aumentar em 50% a produção brasileira de etanol com a tecnologia sem o cultivo de um pé de cana a mais.

Batizada de Bioflex, a unidade da Granbio foi construída em São Miguel dos Campos, no interior alagoano. O cronograma original previa que o início das operações seria no primeiro trimestre deste ano, mas isso só aconteceu, de forma contínua, há dez dias, de acordo com Bernardo Gradin, presidente da companhia.

A jornalistas, o empresário disse que, até agora, os investimentos na empreitada superaram em 35% o valor projetado e alcançaram US$ 265 milhões – US$ 190 milhões na usina e US$ 75 milhões em uma planta de cogeração no mesmo complexo.

O BNDES é o grande parceiro financeiro da GranBio no projeto. Liberou para seu desenvolvimento, por meio do PAISS (programa voltado a projetos inovadores com cana), um financiamento de R$ 300 milhões, e injetou outros R$ 300 milhões na empresa via BNDESPar. O braço de participações do banco deverá aportar mais R$ 300 milhões na Granbio e, com isso, passará a deter uma fatia de 15% em seu capital.

Os parceiros esperam que essa capitalização dê fôlego aos planos de companhia de investir cerca de R$ 4 bilhões em dez anos na construção de 12 usinas de etanol de segunda geração. A unidade que começou a operar faz parte desse pacote.

Há duas semanas, também entrou em operação a primeira unidade de etanol celulósico dos EUA. Desenvolvido em parceria por DSM e Poêt, esse projeto utiliza a biomassa do milho. Unidades da espanhola Abengoa e das americanas DuPont e Quad County Corn Processors poderão ser inauguradas ainda neste ano naquele país. No Brasil, a próxima planta a entrar em operação deverá ser da Raízen, situada em São Paulo.

A pioneira brasileira Bioflex tem capacidade para fabricar 82 milhões de litros de etanol celulósico por ano, mais que a unidade de DSM e Poêt nos EUA (75 milhões). E a usina alagoana foi projetada para ser expandida em 25% e alcançar 100 milhões de litros a partir de investimentos considerados "marginais". Isso deverá acontecer, segundo Gradin, após um ano de operação.

A planta usará como matéria-prima palha e bagaço da cana recolhidos de usinas parceiras na produção de primeira geração. Entre elas, a principal é a Caeté, do grupo Carlos Lyra. Atualmente, o intervalo de tempo entre a entrada da biomassa na usina e a saída do etanol celulósico pronto para venda é de cinco dias. Gradin estimou que em um mês, com o aumento da utilização da capacidade da fábrica, esse tempo diminuirá para três dias.

Ocorre que, diferentemente do etanol de primeira geração, que leva oito horas para ser produzido porque é feito a partir dos açúcares "explícitos" no caldo da cana, o etanol de segunda geração demanda um processo industrial muito mais complexo para "revelar" os açúcares contidos dentro da celulose.

Atualmente, detalhou Gradin, a palha da cana entra na fábrica e fica quatro horas no pré-tratamento, quando a estrutura da biomassa é "rompida" para abrir as fibras de celulose. Em seguida, as enzimas entram em ação (atualmente por 32 horas), no processo de hidrólise. Com isso, as fibras são "quebradas" em açúcares mais simples de serem fermentados.

Ainda assim, o processo de fermentação demanda mais 72 horas e depois é sucedido pela destilação, que leva mais 3 horas. Hoje, a fábrica está operando com 20% da carga. Em seis meses, quando a ociosidade estiver mínima, a empresa também poderá calcular os custos exatos de produção por litro. Gradin disse que em um ano espera fabricar o etanol celulósico na unidade a custos 20% mais baixos que os do convencional.

O empresário deverá anunciar em breve o nome do parceiro da segunda usina de etanol celulósico da GranBio, cuja localização também é mantida em segredo. Apesar de ter gastado na primeira unidade mais do que o orçado, nas próximas fábricas, superada a curva de aprendizado industrial, a economia tende a ser de pelo menos 30%.

Na usina alagoana, o orçamento estourou por uma série de fatores, a começar a mudança no escopo da cogeração de energia. O plano original era produzir eletricidade para consumo próprio da fábrica, mas a companhia decidiu criar, por meio de uma Sociedade de Propósito Específico com o grupo Carlos Lyra, a Companhia Energética de São Miguel (CESM), com capacidade duas vezes maior de geração de vapor. Além de atender à demanda das duas usinas (Caeté e Bioflex), a nova empresa vai "exportar" 135 mil megawatts-hora por ano.

Também foram feitos ajustes na própria fábrica. O sistema de alimentação do pré-tratamento da biomassa teve que ser expandido, o que demandou R$ 10 milhões adicionais. Houve, ainda, a necessidade de aportes em evaporadores de vinhaça, uma vez que seu uso para fertiirrigação não foi possível na dimensão que a empresa esperava.

E foi preciso fazer outras modificações na planta para implementar melhorias observadas na operação de uma unidade na Itália da Beta Renewables que usa a mesma tecnologia adotada pela Granbio. "São modificações naturais no processo de inovação" disse Gradin.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo