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Com recusa de plano, Agrenco pode ir à falência

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Os bancos recusaram o novo plano de recuperação judicial da trading agrícola Agrenco e colocaram o futuro da companhia nas mãos da Justiça, que pode decretar sua falência. A proposta foi votada na sexta-feira, em Assembleia de Credores, em São Paulo.

A proposta era a última tentativa de reativar a Agrenco, que está paralisada desde 2011 e deve cerca de R$ 1,2 bilhão. O grupo propunha pagar esse valor em até 12 anos, com um desconto total de 57,4%.

O plano previa o pagamento integral dos R$ 307,5 milhões devidos aos credores da Classe II (com garantias) num prazo de oito a 12 anos. Contudo, os credores da Classe III (sem garantias) receberiam, em média, apenas 21,5% (cerca de R$ 182 milhões) de uma dívida de quase R$ 850 milhões em 10 anos.

Os principais credores – entre os quais Credit Suisse, Bradesco e Deutsche Bank – rechaçaram a proposta, aprovada apenas pelos credores da Classe I (trabalhistas).

"A estrutura jurídica da proposta era ruim, gerava insegurança. Isso pesou mais que a condição financeira. Tanto que os credores da Classe II, que receberiam 100%, votaram contra", disse ao Valor Marcos Schroeder, advogado do escritório Wald, representante do Credit Suisse.

O plano proposto pela Agrenco Limited (holding com sede nas Bermudas) previa que os credores trocassem a dívida de suas subsidiárias no Brasil ("Agrenco Administração de Bens", "Agrenco do Brasil", "Agrenco Bioenergia" e "Agrenco Serviços de Armazenagem") por debêntures, notas promissórias e bônus emitidos por três novas companhias ("Agrenco Estruturação" e "Agrenco Estruturação II", no Brasil, e "Agrenco Restructuring", nos Estados Unidos). As novas empresas seriam meras emissoras de dívida, sem qualquer atividade econômica.

Ao aceitar o acordo, os credores considerariam quitadas as dívidas das empresas operacionais do grupo, que deixariam a recuperação judicial. Segundo a empresa, a saída da recuperação era imprescindível para que ela voltasse a ter crédito e operar. A Agrenco tem duas usinas processadoras de soja, em Alto Araguaia (MT) e Caarapó (MS), com capacidade para 2,1 milhões de toneladas de soja por ano e, segundo a empresa, gerar uma receita anual de US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 2,8 bilhões).

Pela proposta, a receita gerada pelas usinas ficaria dentro da Agrenco Bioenergia, que pagaria dividendos (‘mútuos intercompany’) às novas empresas emissoras de títulos, responsáveis por pagar os credores. O modelo desagradou aos bancos.

"Ficaríamos expostos a empresas vazias, sem acesso direto aos ativos da Agrenco Bioenergia como garantia", disse Schroeder. Os credores alegaram que não podiam aceitar a proposta sem conhecer os detalhes jurídicos e financeiros dos papéis oferecidos na permuta de dívida.

O fundador da Agrenco, Antonio Iafelice, e o advogado da companhia, Sérgio Sobral Filho, deixaram a Assembleia de Credores logo após a votação do plano e não quiseram comentar o resultado. O Valor voltou a procurar o empresário no fim do dia, sem sucesso.

Durante a sessão, o advogado afirmou que a que a empresa havia atingido o limite de suas possibilidades financeiras e não tinha como fazer mais concessões aos credores.

A proposta derrotada na sexta-feira foi a quarta apresentada pela companhia desde o início da recuperação judicial, em 2008.

Os dois planos aprovados nesse período previam o pagamento integral da dívida, mas foram descumpridos. A terceira proposta, apresentada em maio, previa um plano de recuperação específico para cada subsidiária da companhia – a estratégia beneficiava a Agrenco Bionergia que concentra menos de 10% de toda a dívida e é proprietária das usinas. Contudo, a Justiça considerou a separação irregular e exigiu a apresentação de um plano que contemplasse todo o grupo.

As idas e vindas do processo nos últimos cinco anos desgastaram a relação entre a companhia e os credores, que decidiram não renovar o voto de confiança.

A Agrenco atingiu seu ápice em 2007, quando captou R$ 666 milhões em uma oferta pública inicial de recibos de ações na BM&FBovespa. Com o dinheiro, a companhia pretendia pagar dívidas e financiar sua expansão, que incluía a construção de três processadoras de soja.

O calvário da companhia começou em junho do ano seguinte, quando seu fundador e outros 30 executivos foram presos pela Polícia Federal na Operação Influenza, que investigava crimes de fraude e lavagem de dinheiro. Em setembro, a empresa foi atingida pelo estouro da crise financeira nos Estados Unidos.

Em 2010, a Justiça considerou ilegais as escutas telefônicas feitas na Operação Influenza e rejeitou as acusações contra Iafelice. A Agrenco, por outro lado, parece condenada.

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Fonte: Valor | Por Gerson Freitas Jr. | De São Paulo