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Com rebanho 12% maior em quatro anos, ovinocultura gaúcha quer retomar força e expandir mercado

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No embalo da carne e da lã, setor conta aposta em mais crédito, melhor manejo e foco em programa de sanidade

por Joana Colussi

09/12/2014 | 05h31

Com rebanho 12% maior em quatro anos, ovinocultura gaúcha quer retomar força e expandir mercado Nina Boeira/Especial

Em Lavras do Sul, o criador Rui Afonso Teixeira, 64 anos, ampliou plantel em 80%Foto: Nina Boeira / Especial

Berço da ovinocultura brasileira, o Rio Grande do Sul tenta retomar o perfil extensivo da atividade que já teve dimensão três vezes maior. Estimulados pela valorização da carne ovina e pela estabilidade do setor de lã, produtores gaúchos aumentaram em 12% o número de animais nos últimos três anos — superando 4 milhões de cabeças.

Apesar da atual liderança nacional na produção, o Estado está muito aquém do rebanho de cerca de 13 milhões da década de 1980. É justamente a escassez de oferta que limita o crescimento do consumo brasileiro de carne ovina — hoje de 400 gramas per capita ano. Em 2013, foram consumidas 88 mil toneladas do produto no país, das quais 7 mil foram importadas do Uruguai.

— Os frigoríficos precisam de matéria-prima para firmar contratos de venda e ter viabilidade econômica – destaca José Galdino Garcia Dias, coordenador da Câmara Setorial dos Ovinos e responsável pelo Mais Ovinos no Campo.

Criado em 2011, o programa ofereceu mais de R$ 100 milhões em crédito para retenção e aquisição de matrizes ovinas no Estado. Na época, o rebanho gaúcho era de 3,7 milhões de cabeças. Em novembro deste ano, o número registrado pela Secretaria Estadual da Agricultura era superior a 4,1 milhões de cabeças.

— E até janeiro, com o nascimento de cordeiros do período de safra, chegaremos a mais de 4,4 milhões de cabeças – estima Galdino, acrescentando que, com capital de giro, o produtor consegue manter e organizar a criação.

Abates ainda desafiam

Para aumentar o consumo per capita em dois quilos por ano, por exemplo, de acordo com a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), seria necessário triplicar o rebanho nacional — passando de 17 milhões de cabeças para 50 milhões.

Embora seja primordial para a expansão de mercado, o crescimento não é o único desafio do setor. Tão crucial quanto é reduzir a informalidade dos abates — 95% dos animais no país, segundo a Arco, não passam por inspeção.

— Estamos trabalhando para criar um programa nacional de sanidade e organizar a cadeia  produtiva — destaca o presidente da Arco, Paulo Afonso Schwab, acrescentando que o Rio Grande do Sul é o único Estado a ter legislação sanitária para ovinos.

Conforme dados da Secretaria Estadual da Agricultura, dos cerca de 1,6 milhão de animais abatidos no ano passado, 250 mil passaram por inspeção e 280 mil foram abatidos para consumo próprio. Não se sabe o destino do restante, em torno de 1 milhão de animais nascidos e declarados.

— A formalidade do setor é fundamental para ampliarmos oferta e mercado — resume Schwab.


Existe muito mercado para a carne ovina, inclusive no Exterior, o que falta é ter uma
oferta em grande escala —
José Galdino Garcia Dias, coordenador da Câmara
Setorial dos Ovinos

O foco da ovinocultura no passado era a lã. Hoje, a produção de carne é que rentabiliza
a produção —
Paulo Afonso Schwab, presidente da Associação Brasileira
de Criadores de Ovinos (Arco)

De secundário à prioridade

No Estado onde a criação de ovinos envolve mais de 50 mil produtores, a atividade não costuma ser a principal renda da propriedade pelo número reduzido do rebanho — em torno de 86 animais por criador.

Produtor em Lavras do Sul, Rui Afonso Teixeira, 64 anos, inverteu essa lógica. De quatro anos para cá, ampliou em 80% o plantel criado na fazenda Santa Jovita, tornando a ovinocultura mais rentável do que o rebanho de bovinos.

— A carne de cordeiro é muito valorizada no mercado, sem contar que o período de engorde é mais rápido do que o gado — conta Teixeira, que vende os animais
para os mercados gaúcho, catarinense e paulista.

Há três anos, o produtor acessou a linha de crédito do programa Mais Ovinos no Campo e investiu R$ 100 mil na compra de matrizes das raças texel e corriedale, ampliando o rebanho para 1,8 mil ovinos:

— E vou continuar investindo com foco na produção de carne de qualidade — afirma o produtor.

A rentabilidade é um dos atrativos da ovinocultura, já que existem diferentes raças que podem ser destinadas para produção de carne e de lã.

O preço do quilo pago ao produtor no Estado, na semana passada em R$ 4,29, segue firme nos últimos anos. No mercado paulista, onde a oferta da carne é mais escassa, o preço do quilo vivo chega a R$ 7.

— A produção de lã é mais restrita ao Rio Grande do Sul (o Estado produziu 12 mil toneladas no ano passado), embora represente um mercado importante também – destaca Paulo Afonso Schwab, presidente da Arco.

70%
do faturamento da ovinocultura no Estado é proveniente da produção de carne.

R$ 1,6 mil
é o valor médio dos reprodutores estimado para a temporada de remates, recém-iniciada no Estado.

Feiras e eventos

Veja abaixo a agenda da Secretaria Estadual da Agricultura e da Arco

Dezembro de 2014

— 11 — Feira de Ovinos, em Caçapava do Sul

— 12 — Feira de Ovinos, em Arroio dos Ratos

— 12 e 13 — Feira de Ovinos de Verão, em São Gabriel

— 19 e 20 — Feira do Cordeiro Missioneiro, em São Borja

Janeiro de 2015

— 13 a 18 — 7ª Agrovino, em Bagé

—22 a 25 — 5º Nacional do Texel e 17º Merco Texel, em Santana do Livramento

—  28 a 1º/2 — 30ª Feovelha, em Pinheiro Machado


Foto Emater, Divulgação

Técnica de tosquia traz mais rapidez

A produção de ovinos no Estado é fortalecida por ações que vão do melhoramento genético à capacitação técnica para manejo do rebanho. Financiados pelo Fundo de Desenvolvimento da Ovinocultura (Fundovinos), os projetos buscam desenvolver o setor de maneira organizada e profissional.

Uma das iniciativas é a técnica australiana Tally-Hi. O método de tosquia se diferencia pela forma de imobilizar a ovelha e retirar a lã em menor tempo.

— A técnica não estressa o animal e ainda ganha em rapidez e eficiência da tesoura manual — observa Carlos Cleber Dias Leal, diretor-presidente da Cooperativa de Lã Tejupá, de São Gabriel.

Com cerca de 3 mil associados em 60 municípios, a cooperativa firmou convênios com governo e Arco para disseminar a técnica. No Uruguai, o método é usado por mais de 80% dos pecuaristas. No Estado, estima-se que seja 20%.

Ao reduzir o tempo em relação à tosquia tradicional, de 20 minutos para menos de cinco, a Tally-Hi aumenta a eficiência — de 40 para mais de 150 animais por dia.

— Além de ser mais ágil, a tosquia é feita com qualidade maior, separando as lãs superiores das inferiores — explica Leal.

Fonte: Zero Hora