Com previsão de perdas, agricultor dos EUA faz ajustes e já afeta fornecedores

Kazbek Basayev/Reuters - 8/6;2011

Os preços do milho caíram cerca de 65% em dois anos. O produtor americano Justin Crownover vendeu metade da sua colheita em maio, quando um bushel do grão estava sendo negociado ao nível ainda lucrativo de US$ 5. Quatro meses depois, a oferta de milho está disparando e o preço recuou para perto de US$ 3,25. Embora os produtores da região do extremo norte do Texas torçam por uma alta, eles já estão pensando em maneiras de gastar menos com máquinas e fertilizantes.

"Se estamos preocupados?", diz Crownover. "Definitivamente."

Pela primeira vez em quase dez anos, os produtores americanos de milho, soja e trigo podem ter prejuízo em todas as três culturas se os preços não subirem, isso logo depois de terem vivido os anos mais lucrativos de sua vida no campo. No começo deste ano, cada componente da economia rural ia de vento em popa – de sementes e fertilizantes até tratores e tecnologia.

As terras agrícolas se tornaram um ativo imprescindível para o investidor inteligente. O mesmo se aplica a ações de empresas que ajudam a alimentar uma população mundial que vai passar de sete bilhões de habitantes hoje para nove bilhões em 2050. Preços mais altos das commodities levaram vastas áreas novas a serem plantadas com milho e soja, impulsionando as vendas de fabricantes de máquinas como a Deere & Co., o fornecedor de fertilizantes Potash Corp. of Saskatchewan Inc. e a gigante das sementes e herbicidas Monsanto Co. Considerando essa megatendência, é possível entender por que muitos se esqueceram que a agricultura é um negócio cíclico.

"Sou uma das pessoas que disseram que não há mais ciclo", diz Martin Richenhagen, diretor-presidente da AGCO Corp., que tem sede no Estado da Geórgia e é dona das marcas de máquinas agrícolas Challenger, Fendt e Massey Ferguson. "Fui devidamente corrigido."

Os agricultores dos Estados Unidos costumam demorar para cortar a produção em resposta a preços mais baixos, diz Michael Boehlje, economista agrícola e professor da Universidade Purdue. "Então, tempos não tão bons duram pelo menos tanto quanto os tempos bons, se não mais."

Estamos falando de agricultura, logo ninguém sabe se uma geada ou uma seca pode prejudicar a safra o suficiente para levantar os preços, da mesma forma que foi difícil prever o surto atual de suprimento.

O nível mais baixo de preços que as commodities viram nos últimos sete anos resultou de uma combinação de condições meteorológicas extremamente favoráveis no plantio com os efeitos mais previsíveis do acelerado crescimento da produção, além do aumento de 20% na área plantada de milho nos EUA durante os últimos dez anos – isso sem falar na criação de novas e imensas fazendas no Estado de Mato Grosso. A produção de milho nos EUA alcançou o recorde de 10,8 toneladas por hectare, cerca de 15% maior que a média dos últimos cinco anos, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA. A safra de soja também deve ser recorde neste ano. Os estoques estão abarrotados, afirma o governo americano.

A oferta alcançou a demanda porque os dois grandes motores do crescimento do consumo perderam força. A gasolina americana já atingiu a proporção obrigatória de 10% de etanol. A China chegou em pouco tempo aos níveis de consumo de carne dos países ocidentais, enquanto países desenvolvidos – ironicamente – estão consumindo menos carne de animais alimentados por milho.

Richenhagen, o líder da AGCO, alertou contra o pessimismo exagerado. Ninguém espera realmente que os produtores americanos tenham prejuízos tão grandes quanto nos anos 80. Os estoques estão em níveis razoáveis, os juros estão baixos e os agricultores aproveitaram os lucros dos anos recentes para pagar dívidas, segundo estudos da regional do Federal Reserve, o banco central dos EUA, em Kansas City. Além disso, muitas terras agrícolas estão altamente valorizadas.

Terras de boa qualidade são escassas na América do Norte, é claro. Nos últimos dez anos, o preço médio da terra avançou 240%, segundo um relatório do Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas dos EUA publicado em outubro de 2013. Ainda assim, alguns estudos concluem que a relação do preço das terras e o que elas geram em arrendamento hoje indica que os dias de retornos excepcionais desse investimento podem estar contados.

Como os produtores esperam lucros menores no próximo ano, uma das primeiras despesas que eles podem cortar são gastos de capital. A idade média dos tratores e colheitadeiras nos EUA é a menor em décadas, graças à enxurrada recente de lucros – lucros esses que fabricantes como a Deere incentivaram os produtores a gastar trocando anualmente seus tratores.

"Estamos recebendo uma nova frota todo ano", diz Kip Tom, um grande produtor de milho e soja no Estado de Indiana. "Assim, se tivermos que manter [os que temos] por três anos, com certeza podemos."

Depois de dois anos de crescimento, as vendas por unidade de tratores e colheitadeiras nos EUA vêm caindo em todos os meses deste ano em relação a 2013, segundo a Associação de Fabricantes de Equipamentos.

Máquinas de alta potência vêm sendo um setor especialmente lucrativo para a Deere, que domina o aquecido mercado americano. A receita da empresa subiu de US$ 23 bilhões em 2009 para US$ 38 bilhões em 2013, enquanto o lucro avançou de US$ 900 milhões para US$ 3,5 bilhões. A Deere, porém, já alertou os investidores que esperem uma queda de 10% no próximo ano. Sam Allen, o diretor-presidente, ressalta que as vendas de equipamentos de construção, e mesmo de tratores pequenos, devem ser positivas neste ano, mas a importância das grandes máquinas agrícolas para o lucro da empresa não pode ser subestimada. Ao mesmo tempo, a Deere anunciou 600 demissões e uma redução na produção.

A AGCO, ao contrário, vende máquinas menores. Mas os produtores nas regiões mais importantes para ela – Europa e América do Sul – devem sofrer tanto quanto seus pares na América do Norte. As vendas da AGCO caíram 10% no segundo trimestre ante um ano atrás e a companhia cortou a produção, como fizeram suas concorrentes.

Nas fazendas Lone Star Family, em Sunray, Texas, Justin Crownover está reavaliando os altos custos de plantar milho, comparado com outras culturas. "Normamelmente, estaríamos enchendo nossos estoques com fertilizantes agora para a safra do ano que vem", diz ele. "Mas os custos dos insumos não estão baixando tão rápido quanto o mercado de milho." O algodão parece mais lucrativo que o milho naquela parte do país. Na região do Meio-Oeste americano, os produtores podem migrar para o feijão.

A Monsanto e sua rival suíça Syngenta argumentam que mesmo os agricultores que estão sob pressão não vão cortar seus gastos com sementes, herbicidas e pesticidas. Os preços dos pesticidas, entretanto, estão em queda, o que representa um problema maior para a Syngenta, onde os químicos respondem por 75% da receita. Atualmente, a Monsanto gera mais receita com sementes do que químicos e o diretor de estratégia, Kerry Preete, diz que as sementes mais caras da empresa proporcionam aos produtores a produtividade de que necessitam para competir. Mesmo sem o crescimento incremental originário da demanda de etanol ou da China, afirma a Monsanto, a produção de milho e soja vai precisar crescer muito para acompanhar o consumo das próximas décadas.

Uma safra ruim nos próximos um ou dois anos poderia ser suficiente para reviver os preços das commodities. Caso contrário, os produtores terão que esperar até que a demanda alcance a oferta. Allen, da Deere, observa que a demanda por milho vem crescendo, muito ou pouco, a cada ano desde 1995.

Os agricultores Kip Tom e Justin Crownover torcem para ele estar certo. Por enquanto, porém, eles dizem que vão economizar.

Bill Alpert é editor sênior do semanário Barron’s.

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Fonte: Valor | Por Bill Alpert | Especial para o The Wall Street Journal