Com prejuízo, Marfrig digere queda de seu valor na bolsa

Fonte: VALOR ECONÔMICO –SP | Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

O presidente da Marfrig Marcos Molina disse ontem que a forte queda nas ações da companhia na BM&F Bovespa na última semana, que corroeu seu valor de mercado, foi um acontecimento fora do controle da empresa.

"É algo que não estava nas nossas mãos", disse, referindo-se ao desmonte de posições alavancadas por parte da gestora de recursos GWI, que tinha, no fim de junho, 9,6% do capital da empresa de carnes.

"Normalmente, tínhamos um movimento diário de R$ 20 milhões [na bolsa] e foi a R$ 200 milhões por dia", comentou sobre a venda de papéis da companhia, uma das maiores empresas do setor de carnes, em entrevista logo depois de apresentar a analistas o resultado da Marfrig no segundo trimestre deste ano.

Durante a teleconferência, aliás, nenhum analista tocou no tema. Todos se restringiram aos números da companhia, que fechou o trimestre com receita líquida de R$ 5,32 bilhões, 49,6% mais do que os R$ 3,56 bilhões do mesmo período de 2010 e prejuízo de R$ 91 milhões. No segundo trimestre do ano passado, a Marfrig tivera um lucro líquido de R$ 103,8 milhões.

O desmonte das posições pela GWI na última semana – e o forte movimento de vendas que seguiu – fez o valor de mercado da Marfrig cair quase R$ 1 bilhão, conforme cálculos do Valor Data. No dia 5 de agosto, antes da saída do GWI, o valor de mercado da Marfrig estava em R$ 4,2 bilhões. Com a queda de 24,83% nos papéis da companhia, na segunda-feira, o valor na bolsa caiu a R$ 3,1 bilhões. Ontem, ficou em R$ 3,2 bilhões, depois de as ações terem alta de 6,58%. No mês, os papéis recuaram 39,28% enquanto o Ibovespa caiu 7,09%.

As quedas são expressivas, mas analistas ponderam que há alguns meses os papéis da empresa vinham sendo sustentados pelas operações da própria GWI.

Questionado sobre o que fazer para recuperar o valor de mercado da companhia, Molina disse: "Vamos trabalhar para isso". Ricardo Florence, diretor de planejamento e relação com os investidores da Marfrig, afirmou que o "mercado tem confiança na empresa". E acrescentou: "Vamos apresentar os fundamentos da companhia, mostrar que ela tem comprometimento futuro, de longo prazo".

Marcos Molina garantiu que o recente revés em nada muda as decisões de investimentos da companhia nem em relação a uma eventual aquisição.

De acordo com Florence, o incremento de 49,6% das vendas no trimestre não decorreu apenas das duas recentes aquisições da companhia, a O"Kane Poultry e a Keystone Foods. Excluindo o efeito dessas aquisições, houve crescimento orgânico de 19,5%, em decorrência da maior utilização de capacidade das plantas de bovinos no Brasil, da Seara e na Europa.

Ele destacou o crescimento das vendas de produtos processados e elaborados. A receita com esse segmento representou 50,4% das vendas no segundo trimestre deste ano. Em igual intervalo do ano passado, ficara em 35,5%. O aumento reflete em grande parte a integração da Keystone e da O"Kane.

A Marfrig teve prejuízo líquido R$ 91 milhões no segundo trimestre e um lucro antes de juros impostos e depreciação (Ebtida) de R$ 277,8 milhões, 9,7% acima dos R$ 253,2 milhões do mesmo intervalo de 2010.

O prejuízo refletiu, segundo a empresa, a alta dos preços de matérias-primas, como GRÃOS, que impactou os custos de produção, a valorização do real sobre o dólar, o aumento de custos com mão de obra e a pressão inflacionária nos países em que a Marfrig atua. Os mesmos fatores levaram a uma queda na margem Ebitda, de 7,1% para 5,2% entre o segundo trimestre de 2010 e o mesmo período deste ano.

A Marfrig encerrou o trimestre com dívida líquida de R$ 6,385 bilhões, acima dos R$ 6,145 bilhões do período anterior. Com isso, o índice de alavancagem pro forma (Ebitda incluindo aquisições) ficou em 3,90 vezes ante 3,59 vezes no primeiro trimestre deste ano. Segundo Ricardo Florence, o foco no segundo semestre será a redução das despesas, dos custos operacionais e do endividamento da companhia.