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Com poucos volumes, começa a colheita da nova safra de café

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Anna Carolina Negri/Valor

Cultivo de café robusta em Rondônia; clima favorável nas próximas semanas

A colheita de café da safra 2017/18 teve início de forma incipiente em algumas regiões produtoras do país, mas volumes mais significativos só devem começar a sair do campo entre a segunda quinzena deste mês e a primeira de junho, conforme fontes do setor produtivo.

Num ciclo de bienalidade negativa, a Conab estimou, em janeiro, que a produção de cafés arábica e conilon deve ficar entre 43,65 milhões e 47,51 milhões de sacas no país. A previsão significa uma redução de 15% a 7,5% em relação ao ciclo 2016/17. Uma nova projeção vai ser divulgada pela Conab semana que vem.

Mesmo para a espécie conilon, cuja colheita começa mais cedo que a do arábica no país, os volumes ainda são pouco expressivos. Na região da Cooperativa dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), em São Gabriel da Palha, no norte do Espírito Santo, por exemplo, há atraso na colheita. A expectativa da cooperativa era já ter recebido 20% das 700 mil sacas que prevê receber nesta safra, mas na última sexta-feira esse montante era de 7%, segundo Edimilson Calegari, gerente geral da Cooabriel.

De acordo com ele, alguns produtores associados à cooperativa – a maior de café conilon do Brasil – iniciaram a colheita, mas interromperam os trabalhos ao constatar que o café ainda estava verde. O grão já deveria estar pronto para ser colhido nesta época, diz.

Romário Ferrão, coordenador do Programa Cafeicultura do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) explica que chuvas – apesar de insuficientes – entre outubro e novembro de 2016 estimularam o enfolheamento das cafeeiros no Espírito Santo. Esse maior volume de folhas nas plantas pode ter retardado a maturação dos grãos, uma vez que provocaram sombra sobre os frutos. Ele avalia, porém, que o atraso na colheita não é significativo no Estado.

A chuvas irregulares, aliás, continuam a preocupar no Espírito Santo. Na região da Cooabriel, a última precipitação significativa aconteceu em fevereiro, segundo Calegari. Mas as chuvas que afetaram a região em novembro e dezembro foram benéfica, ainda que os cafeeiros estejam com "pouca carga", diz ele.

A expectativa, afirma, é de grãos com tamanho normal nesta safra, o que pode indicar um melhor rendimento em relação ao ciclo passado. No ciclo 2016/17, a cooperativa recebeu 600 mil sacas de conilon e conta com dois fatores para ampliar os volumes na nova colheita: o maior número de cooperados e a melhora no rendimento.

No sul de Minas Gerais, Estado que é o principal produtor de café arábica no Brasil, há colheitas pontuais. Na região da Cooperativa Agrária de Machado (Coopama), no sul mineiro, alguns produtores já estão entregando lotes de café à cooperativa, segundo David Rodrigues, responsável pela comercialização na Coopama. "Alguns cafeicultores estão antecipando um pouco porque precisam se capitalizar, mas são poucos lotes. A maior parte deve começar na segunda quinzena de maio", afirma Rodrigues.

A região de atuação da Coopama compreende 45 municípios mineiros. A previsão da cooperativa é receber 300 mil sacas na atual safra, acima das 265 mil sacas no ciclo 2016/17. Mesmo num cenário de bienalidade negativa, os volumes devem crescer, explica, em razão do aumento do número de cooperados, que era de 1.900 em 2016 e alcançou 2.120 este ano.

Na região de Franca, importante polo produtor de café no Estado de São Paulo, há relatos de cafeicultores iniciando a colheita, mas o volume não é expressivo, conforme Jandir Castro Filho, gerente comercial de café da Cocapec. Segundo ele, a colheita deve começar efetivamente na região de atuação da cooperativa no início de junho, e deve levar de 40 a 50 dias para o café colhido chegar à Cocapec.

Por enquanto, as previsões indicam clima favorável nas próximas duas semanas para colheita de café nas regiões de arábica de São Paulo, Minas Gerais e norte do Paraná. Mas Marco Antonio dos Santos, agrometeorologista da Rural Clima, lembra que, este ano, o outono e o inverno devem ser mais úmidos, com chuvas mais frequentes, porém, não duradouras.

"O problema é se houver invernada [chuvas prolongadas no inverno]. Mas não há previsão disso por enquanto", diz. Chuvas durante vários dias podem afetar a qualidade do grão, derrubando-os dos cafezais e gerando o café de varrição.

Santos observa ainda que o atual período é da chamada "neutralidade climática", quando não há nem o fenômeno El Niño nem o La Niña. Nesse ambiente, explica, as massas de ar polar entram com mais facilidade, o que gera riscos de geada.

Embora haja previsão da chegada de uma massa de ar polar em meados deste mês nas regiões produtoras, Santos faz questão de frisar que atualmente não há prognóstico de geada, mas admite que um evento desse tipo com forte intensidade poderia afetar a produção, dependendo da fase em que estiver o grão.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor