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Com ou sem Lactalis, vida segue para produtor

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Marcos de Moura e Souza/Valor

A família Oliveira, de Abaeté, que vende leite há mais de 20 anos para a Itambé: à espera de preço justo para o produto

No início do mês, João Carlos e Adriana souberam por uma mensagem de WhatsApp que o grupo francês Lactalis havia comprado a Itambé Alimentos. O casal é dono de uma fazenda na cidade de Abaeté, centro-oeste de Minas Gerais. Os dois ganham a vida produzindo leite. "Toda vida eu vendi para a Itambé, nunca mudei", conta João Carlos de Oliveira, de 45 anos na varanda de sua casa. Na sexta passada, a venda da Itambé foi suspensa por uma liminar da Justiça. Mas o que esperar se a empresa for mesmo vendida aos franceses?

É essa a pergunta que passou a ser feita por milhares de famílias em Minas e Goiás, que como a de João e Adriana, fornecem há anos leite para a Itambé. A resposta que está na cabeça de muitos é objetiva. "Se não pagarem um preço justo pelo leite, os produtores estão livres para deixar de vender para a Itambé. A gente sempre tem que andar para frente, se não for bom para a gente…", diz Adriana Costa Oliveira, de 41 anos, enquanto põe na mesa uma garrafa de café e punhado de pães de queijo.

Ela, o marido e o filho Sérgio, veterinário, produzem hoje 2,4 mil litros por dia e têm 115 vacas em lactação. Têm uma relação com a Itambé de mais de duas décadas. E as mudanças recentes na empresa não assustam mais a família.

O laticínio, que desde os anos 1940 pertenceu à Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR) – da qual João e Adriana são uma das 8,5 mil famílias cooperadas em Minas e Goiás – teve 50% de seu capital comprado pela Vigor, da J&F, em 2013. Em agosto deste ano, a mexicana Lala comprou a Vigor, o que levou a CCPR a exercer seu direito de preferência e anunciar que recompraria os 50% da Itambé, para voltar a ter o controle da empresa.

A recompra pela central foi concluída no dia 4 de dezembro, mas no dia seguinte a CCPR anunciou que vendeu 100% das ações da Itambé para a Lactalis, uma operação de R$ 1,9 bilhão.

O grupo francês se tornou, de um dia para outro, o maior comprador de leite do país. Mas a operação foi contestada judicialmente pela Vigor e um juiz suspendeu liminarmente o negócio. A CCPR recorreu e ninguém sabe ainda o que sairá dessa disputa (ver Juiz mantém a CCPR no comando)

"Até agora, nenhuma das operações envolvendo a Itambé trouxe mudança para o produtor", diz Eustáquio Márcio de Oliveira, presidente da CooperAbaeté, umas das 31 cooperativas filiadas da CCPR. "O que preocupa o produtor é ter assistência técnica, receber em dia e que lhe paguem um bom preço pelo leite", afirma. Nesses anos de idas e vindas da Itambé, a CCPR não deixou de captar o leite nem de prestar assistência técnica ao produtor, afirma.

Oliveira é um dos integrantes do conselho da CCPR e afirma que pelo acordo acertado com a Lactalis – agora sub judice -, a CCPR vai continuar captando leite para a Itambé pelos próximos dez anos, período renovável por mais dez anos. Não há, no entanto, e não está previsto, nenhum acordo que obrigue os produtores ligados às cooperativas que formam a CCPR a vender seu leite para a instituição.

"O que garante que os produtores continuem fornecendo leite para a CCPR e Itambé é que seu leite seja comprado por um preço justo ou compatível com o mercado", diz Oliveira, que também produz leite em Abaeté. Em 2016, o preço pago aos produtores chegou a perto de R$ 2 por litro, mas este ano os laticínios pagaram por volta de R$ 1,20.

"De repente, a coisa tende a melhorar se esse grupo entrar mesmo", diz José Miranda de Sales. Ele é dono 400 hectares entre Abaeté e Cedro do Abaeté, produz 3,3 mil litros por dia e desde o anos 90 vende para a Itambé. "Hoje estou pagando para trabalhar. A gente tem esperança que esses franceses olhem mais as condições de quem produz o alimento", afirma.

Um dos maiores produtores de leite da região, Eugênio Antônio da Costa, não alimenta expectativa de grandes mudanças nos preços pagos pela Itambé, com ou sem os franceses. É uma questão de mercado e ponto final, diz.

Produtores de leite como Costa, que fornecem para a CCPR, acompanham a dança de bilhões de reais envolvendo a Itambé, Lactalis e Vigor, mas esse é um assunto do qual poucos participam diretamente. Costa, como a maioria, está centrada no dia a dia da propriedade. "Estou fazendo um investimento de R$ 1 milhão para aumentar a produção de leite", diz. O investimento é na construção de um curral com telhas metálicas e mais 200 metros de comprimento onde Costa pretende deixar confinadas cerca de 360 vacas produzindo leite. As obras estão em fase final e a perspectiva do fazendeiro é aumentar a produtividade de cada animal dos atuais quase 20 litros por dia para 27 a 28 litros.

"Tenho sido fiel à Itambé, mas não sei até quando", disse ele enquanto mostra o galpão em obras. "Nem eu nem ninguém tem contrato fixo com a Itambé." Se achar, continua ele, que é melhor passar a fornecer para Nestlé ou Embaré – outros dois laticínios da região – será um movimento simples. Demanda sempre existe, diz.

Por Marcos de Moura e Souza | De Abaeté (MG)

Fonte : Valor