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Com novas perdas no trimestre, Marfrig anuncia IPO da Keystone

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Silvia Costanti/Valor

Martin Secco, da Marfrig: "Primeiro trimestre teve muita coisa fora do comum"

Grande aposta da Marfrig Global Foods para os próximos anos, a subsidiária americana Keystone vai mesmo abrir o capital nos EUA. Tratada pela Marfrig como uma alternativa em estudo desde o fim do ano passado, a oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) agora é oficial.

Protocolado na Securities and Exchange Commission (SEC), em caráter confidencial, no começo de maio, o pedido de registro da oferta de ações da subsidiária foi anunciado ao mercado ontem pela Marfrig juntamente com o balanço da companhia no primeiro trimestre.

"O primeiro trimestre teve muita coisa fora do comum. Algumas positivas e outras que ninguém esperava", disse ao Valor, o CEO da Marfrig, Martín Secco. Do lado negativo, ele ressaltou o impacto da apreciação do real sobre a margem da exportação de carne bovina e a deflagração da Operação Carne Fraca, que interrompeu as exportações do Brasil e levou a uma queda dos abates. Secco disse que a situação se normalizou.

Do lado positivo, está justamente a Keystone. Embora o câmbio tenha limitado o reflexo positivo do desempenho da subsidiária em razão da conversão de dólar para real, a Keystone teve desempenho recorde, disse o executivo.

Em dólares, a subsidiária reportou seu maior lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) para um primeiro trimestre – foram US$ 62 milhões, avanço de 10% ante igual período do ano passado.

Do ponto de vista geral, porém, os aspectos negativos se sobrepuseram, levando a Marfrig a amargar prejuízo líquido de R$ 233,2 milhões no primeiro trimestre, mais que o dobro da perda de R$ 106,2 milhões do mesmo período de 2016. Na mesma base de comparação, o Ebitda recuou 30,2%, para R$ 296 milhões. Com isso, a margem Ebitda caiu 1,4 ponto, a 7,2%.

Com a valorização do real, a receita líquida da Marfrig caiu 15,7% no trimestre, para R$ 4,136 bilhões. Conforme Secco, a "ótima performance" da Keystone, que reportou uma receita líquida de US$ 667 milhões no trimestre – avanço de 7% – foi anulada pela alta do real. Em relação ao primeiro trimestre de 2016, a moeda se apreciou mais de 20%.

Para ele, o fortalecimento do real foi o principal responsável pelo desempenho mais fraco, sobretudo na divisão de carne bovina, que obtém cerca de 50% da receita nas exportações. No primeiro trimestre, a divisão teve receita líquida de R$ 2,040 bilhões, queda de 17%. O Ebitda ajustado da divisão, por sua vez, diminuiu 38%, para R$ 138 milhões.

Para o restante de 2017, a expectativa da Marfrig é positiva tanto pela perspectiva de queda dos preços do boi gordo no Brasil e principalmente pelo IPO da Keystone. Com a abertura de capital, a Marfrig vislumbra manter a trajetória ascendente da Keystone, que é especializada no fornecimento da produtos à base de carnes a grandes redes.

À Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Marfrig informou que os recursos oriundos do IPO serão usados, principalmente, para o crescimento da subsidiária. A empresa não detalhou onde investirá, mas está claro que a Ásia é a prioridade. Desde o ano passado, a Marfrig intensificou os aportes da Keystone na Tailândia e na Malásia.

A empresa não informou quando fará e nem quanto quer levantar com o IPO da Keystone, mas fontes consideram factível realizar o IPO no terceiro trimestre. Em termos de avaliação da Keystone, a Marfrig tem como referência a americana AdvancePierre. Em um IPO no qual a Keystone fosse avaliada a múltiplos semelhantes aos da AdvancePierre, seria possível obter entre US$ 800 milhões e US$ 1 bilhão, caso a Marfrig venda de 25% a 30% do capital.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte: Valor