Com negócios imobiliários, usinas ampliam diversificação

Uma nova onda de diversificação começa a se incorporar à estratégia das usinas sucroalcooleiras paulistas. Algumas empresas que detêm terras próximas a zonas urbanas de municípios do interior do Estado começaram a usar parte delas para aportes em empreendimentos residenciais e comerciais, normalmente com parceiros. E a aposta tem se mostrado promissora, já que, nessas áreas, o mercado imobiliário tem gerado melhor remuneração do que os canaviais.

A diversificação, aliás, está no "DNA" dessas agroindústrias, cujos principais produtos, açúcar e etanol, se caracterizam por apresentar elevados risco e volatilidade. Daí porque as "moedas" do segmento, já há algum tempo, serem colocadas também em outras "cestas" – cogeração de energia a partir de biomassa, leveduras de alta performance e subprodutos orgânicos. E há outras inovações em andamento, como o desenvolvimento de plásticos biodegradáveis e ceras a partir da cana-de-açúcar.

No setor imobiliário, duas companhias sucroalcooleiras aparentemente caminham a passos mais largos: o grupo São Martinho, que lançou três empreendimentos no último ano e já mapeou outras áreas para incrementar os negócios nessa frente, e o Grupo Balbo, que estreou no ramo há oito anos e, agora, prepara um plano estratégico para aproveitar novas oportunidades no médio e longo prazos.

No caso da São Martinho, cerca de 2 mil, ou quase 4% dos 52 mil hectares que a empresa detém, apresenta potencial para abrigar projetos imobiliários no longo prazo, conforme Fábio Venturelli, presidente da companhia. São áreas que geram 160 mil toneladas de cana, menos de 1% do total processado nas quatro usinas do grupo.

Apesar de ter uma dimensão pouco importante sob a ótica canavieira, essas áreas, quando incorporadas ao ramo imobiliário, trazem perspectivas de margens elevadas, a despeito dos valores absolutos relativamente pequenos. Foi de olho nessas margens que a São Martinho, que faturou R$ 1,2 bilhão na safra 2014/15, lançou, com parceiros como a Alphaville, seus três empreendimentos urbanos no último ano – dois residenciais e um comercial -, que, juntos, ocuparam 180 hectares.

A venda desses loteamentos representa um valor presente líquido (VPL) de R$ 110 milhões para a São Martinho. Na prática, é como se a empresa tivesse vendido cada hectare "imobiliário" por R$ 610 mil, 12 vezes mais que o preço médio de suas terras – R$ 50 mil por hectare, conforme avaliação feita em maio de 2014 pela Deloitte. "Somos ‘terrenistas’. Essa é a nossa participação. Não vamos desenvolver competência na venda de lotes", esclareceu Venturelli.

Apostar nesse tipo de negócio é também uma alternativa das usinas para evitar, inclusive, a perda dessas áreas de cana, já praticamente urbanas, por erosão. "As cidades encostam nessas áreas e as tornam inviáveis para o cultivo", observa o presidente do Grupo Balbo, Clésio Balbo.

Quando a empresa, com sede em Sertãozinho, há oito anos lançou seu primeiro e único empreendimento imobiliário até o momento, o fez porque o entorno de um terreno que ela tinha doado há quase 20 anos para a construção de uma escola passou a abrigar também residências e estabelecimentos comerciais – e, logo, a área urbana que se desenvolveu ali passou a encostar em seus canaviais. "Estávamos ‘segurando’ a cidade".

Há dois anos, o grupo Balbo e seu parceiro imobiliário concluíram a venda dos lotes. O empresário afirma que o próximo projeto da empresa será lançado somente após a conclusão do plano estratégico que está sendo costurado. "Esse mercado também oferece riscos. Agora, por exemplo, está mais retraído", diz.

O grupo é um bom exemplo de diversificação. Controlador da Native, de açúcar e álcool orgânicos, também tem uma parceria com a Usina da Pedra em uma planta-piloto para produzir plástico biodegradável a partir da cana. "Se fossem jogados no rio Tietê, esses plásticos se degradariam em seis meses", diz Balbo para explicar a diferença dos "concorrentes" renováveis.

E a empresa também está entre as que apostam na produção de cera a partir da cana e de leveduras de alto valor agregado. "O açúcar e o etanol já foram 100% da receita. Hoje não passam de 80%".

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor