Cogeração cresce menos no Brasil

Depois de ligarem as caldeiras a todo o vapor em 2014, as usinas de cana-de-açúcar que cogeram energia a partir de biomassa reduziram o ritmo de crescimento nesse mercado. No primeiro semestre deste ano, a cogeração de eletricidade vinda dessa fonte aumentou 14%, para 7,968 mil Gigawatts-hora (GWh), frente a igual intervalo do ano passado. Apesar do avanço de dois dígitos, as taxas caíram de forma expressiva em relação ao que foram há um ano, diz o consultor de bioeletricidade da União da Industria de Cana-de-Açúcar (Unica), Zilmar Souza. "No primeiro semestre de 2014, a cogeração havia sido 37% maior do que no mesmo período de 2013".

Segundo Souza, a desaceleração começou em março, juntamente com o fim dos estoques de biomassa trazidos de 2014, quando o preço da energia no mercado livre ainda estava elevado. Em janeiro deste ano, as usinas venderam ao sistema elétrico nacional 76% mais eletricidade na comparação com igual mês de 2014. Em fevereiro, esse aumento foi de 40%. Mas em março, a taxa encolheu para 6%, depois foi de 7% em maio e ficou novamente em 6% em junho. "Apenas em abril, esse percentual foi a 27%, mas o que se explica por ser o primeiro mês da nova safra", diz.

Em todo o ano de 2014, as usinas de cana cogeraram 19,400 mil GWh, 21% acima de 2013. Na visão de Souza, em 2015 o setor canavieiro tende a alcançar o desempenho de 2014, pois a capacidade instalada cresceu. Contudo, um salto mais expressivo depende de alguma sinalização de preços mais remuneradores. Há expectativa no setor de que isso aconteça na próxima entressafra da cana no Centro-Sul, ou seja, a partir de dezembro deste ano, até março de 2016.

O cenário se confirmaria caso o regime de chuvas no Sudeste não fosse suficiente para elevar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas e, diante disso, o governo estabelecesse leilões para aquisição de energia para entrega no curto prazo.

"A Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] abriu um leilão para comprar eletricidade vinda do gás natural ao preço de R$ 581 por MWh. Não houve oferta por parte dessa fonte. A Unica já colocou a energia de biomassa à disposição".

A maior parte da energia cogerada pelas usinas de cana é vendida no mercado regulado, que oferece contratos de longo prazo (de 15 a 20 anos), via leilões da Aneel. Os preços máximos praticados nesse mercado não chegam a R$ 300 o MWh. Uma parcela, em média, de 10% a 15% da cogeração de biomassa é vendida no mercado livre que, em 2014, com a forte seca que afetou reservatórios das hidrelétricas, atingiu o teto do PLD (Preço de Liquidação de Diferenças, referência de preço para esse segmento), de R$ 822 o MWh. Foi esse valor, recorde, que estimulou as usinas a buscarem, em 2014, biomassa até de terceiros para ampliar a produção de eletricidade, diz Souza.

Contudo, no fim de 2014, o governo anunciou a redução do teto do PLD para R$ 388 o MWh, o que afetou a rentabilidade dos que pretendiam comprar biomassa a custos mais elevados para ampliar a cogeração. Conforme o consultor, o cenário ficou mais desestimulante nos últimos meses com as chuvas dentro do esperado e com a retração da atividade econômica no país, o que impactou a demanda por energia. A combinação dessas duas variáveis fez o PLD cair abaixo de R$ 200 o MWh. Segundo informações da Câmara de Comércio de Energia Elétrica (CCEE), o PLD médio até 31 de julho está em R$ 178,63 o MWh.

Por Fabiana Batista | De São Paulo

Fonte : Valor