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Cerca de 30% dos pequenos produtores não têm sucessor

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JONATHAN HECKLER/JC

Seefeld, de 22 anos, quer ficar no campo

Seefeld, de 22 anos, quer ficar no campo

As dificuldades que os pequenos produtores rurais enfrentam para assegurar a sucessão familiar de suas propriedades foi o tema de um fórum realizado neste sábado na Rural Show, em Nova Petrópolis. De acordo com dados coletados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e apresentados pela Emater, dos 442 mil estabelecimentos rurais que existem no Rio Grande do Sul, 118 mil (cerca de 30%) não têm um herdeiro definido.
Conforme o presidente da Emater, Lino de David, os principais obstáculos para que os produtores assegurem a sucessão dentro da família são decorrentes de fatores econômicos, como a baixa rentabilidade das pequenas propriedades, e culturais, especialmente a dificuldade das gerações mais velhas de incluir seus filhos e netos na administração dos recursos. “Os jovens começam a definir suas vocações ainda na adolescência. Não adianta os produtores esperarem até o momento em que estiverem próximos da morte para querer passar sua propriedade para os filhos, porque eles já terão escolhido outro futuro”, alerta.
Conforme o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag), Elton Weber, uma pesquisa realizada junto a pequenos produtores rurais indicou que 32,5% dos entrevistados não sabem se um membro da família herdará suas propriedades. Além disso, conforme Weber, em 44% dos estabelecimentos rurais no Estado as famílias dos produtores já possuem ao menos um integrante cuja renda é proveniente de atividades urbanas, como emprego em indústrias ou comércio. “Precisamos de políticas públicas específicas para manter a juventude rural no campo”, destacou.
Um dos estímulos para manter as novas gerações no meio rural poderá vir no próximo Plano Safra estadual, com uma proposta, ainda em análise, para a criação do Bolsa Jovem. A iniciativa incluiria um incentivo financeiro e acompanhamento técnico nos dois últimos anos do Ensino Médio. Parte do dinheiro referente à bolsa ficaria retido e só poderia ser retirado após a apresentação de um projeto para o desenvolvimento de sua propriedade.
No entanto, o incentivo familiar também é importante para a permanência dos jovens. Para Marcos Seefeld, 22 anos, o apoio dos avós, da mãe e do padrasto foi essencial em sua decisão de continuar na atividade rural, em Nova Petrópolis. Após finalizar seus estudos em um curso de técnico agrícola, o jovem fez um contrato de parceria com o avô, passando a administrar conjuntamente as terras da família. “Sou quase uma raridade, porque a maioria dos meus amigos de infância buscou empregos na cidade”, comenta.
Na área de 28 hectares, a família realiza a criação de gado leiteiro e suínos, plantio de milho e fruticultura. Seefeld lembra que recentemente foram realizados diversos investimentos na propriedade, como a implantação de um sistema de ordenha mecânica. Com isso, foi obtida uma melhoria na qualidade do leite produzido. Atualmente, a família recebe R$ 0,79 por litro, quando a média no Estado gira em torno de R$ 0,66. “Isso dá mais rentabilidade, o que ajuda na decisão de continuar acreditando no trabalho rural”, afirma o jovem.

Preços de terra agrícola têm alta bem superior à inflação

Puxados pela disparada das cotações dos grãos, especialmente da soja, e pela queda nos juros, os preços médios das terras para o agronegócio no País subiram 50% em três anos, com aceleração maior nos últimos 12 meses. A tendência é as cotações continuarem em níveis elevados, apesar da desaceleração da agricultura, que afetou o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre.
Entre março de 2011 e abril deste ano, a valorização média da terra no País foi de 16,5%, segundo pesquisa da Informa Economics FNP, consultoria especializada em agronegócio. A alta de preços é mais que o triplo da inflação acumulada no período, de 5,1%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em abril deste ano, o preço médio de um hectare estava em R$ 6,7 mil. “É a maior cotação média registrada pela pesquisa, que começou a ser feita em 2002”, afirma Nadia Alcantara, gerente técnica da Informa Economics FNP. Os preços são coletados a cada bimestre com corretores, técnicos-agrícolas especializados em avaliação patrimonial e agências do Banco do Brasil, em todos os municípios do País.
A região mais valorizada em 12 meses foi a de terras para soja em Sinop (MT), onde o preço subiu 73,3% até abril, de R$ 9 mil para R$ 15,6 mil o hectare. Em seguida vem a terra para cana no Espírito Santo, com alta de 54% no período, de R$ 6,5 mil para R$ 10 mil o hectare. As terras mais valiosas do País estão em Santa Catarina, na região de Itajaí. Ali, um hectare para produção de uva, geralmente em pequenas propriedades, sai por R$ 43 mil. Neste caso, a valorização em 12 meses até abril foi de apenas 2,5%.
Passado esse boom das cotações, a perspectiva é que os preços das terras fiquem estáveis. Um forte indício de que a tendência é a sustentação das cotações em níveis elevados é o número de negócios fechados. Hoje, poucas transações de compra e venda ocorrem e o motivo é a escassez de ofertas.
Os potenciais vendedores adiam os negócios, pois acreditam que conseguirão preços ainda maiores, especialmente no caso de terras para soja. Isso porque, apesar do ritmo mais lento da economia, aqui e no exterior, a perspectiva é que a demanda por comida não recue. “A oferta de terras é limitada, e a necessidade de produção de alimentos continua.”
Também o fato de parte da crise atual ser de confiança no sistema financeiro contribui para o fortalecimento do mercado de terras. A terra acaba sendo um porto seguro para o investidor. “A desaceleração da economia não afetou o mercado de terras”, afirma o corretor Atílio Benedini, dono da imobiliária Atílio Benedini Agronegócio, de Ribeirão Preto (SP), polo produtor de cana. Ele observa que, quando a taxa de juros cai, o preço da terra sobe.
“Cair não cai”, diz o corretor Claudinei Pereira, da Império Imóveis, de Guarapuava, importante município produtor de soja e milho do Paraná, referindo-se aos preços de terras do município com 80% de aproveitamento para a agricultura. A pesquisa mostra que, em Guarapuava, o avanço da soja sobre as áreas de pecuária puxou as cotações das terras tradicionalmente destinadas à engorda do gado, agora voltadas para a agricultura. Em 12 meses até abril, o preço do hectare subiu 70%.

Fonte: Jornal do Comércio | Marcelo Beledeli, de Nova Petrópolis