Censo Agro já está em sua etapa final de coleta de dados

Leo Pinheiro/Valor

Anita Santoro, que produz orgânicos na fazenda Dom Bosco, na região dos Lagos (RJ): coleta de dados durou mais de uma hora

Depois de quatro meses em campo, o Censo Agro 2017, a mais completa investigação estatística e territorial da produção agropecuária do país, entrou em fevereiro em sua fase final de coleta de informações. Dos 5,2 milhões de estabelecimentos agropecuários que o IBGE estimou existirem no país, 4,5 milhões já receberam visitas de recenseadores desde 1º de outubro de 2017, ou 85% do total.

Os recenseadores – são 19 mil temporários contratados – conheceram desde a produção de moluscos em Santa Catarina até a criação de búfalos na Ilha do Marajó. Foram desafiados pela grande diversidade da produção do Rio Grande do Sul e mergulharam na história das antigas fazendas de cacau da Bahia. Tudo em meio a estradas muitas vezes lamacentas e esburacadas, cães bravos a moradores desconfiados.

Segundo o coordenador técnico do Censo Agro 2017, Antonio Carlos Florido, a coleta de informações terminará oficialmente em 28 de fevereiro, mas ainda deverá se estender pelo mês de março em alguns poucos municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. Isso porque as fortes chuvas dos últimos meses inviabilizaram o acesso de recenseadores a algumas propriedades.

No Paraná, por exemplo, 75,4% dos 281.380 estabelecimentos estimados receberam visitas dos recenseadores. Em Mato Grosso, 82,6% dos 94.908 tiveram dados coletados até segunda-feira. Já em Mato Grosso do Sul o percentual informado pelo instituto está mais avançado – 92,3% das 60.132 propriedades.

"Em Roraima trabalhamos com território indígena. É um acesso mais difícil. Dependemos de autorizações, acompanhamento, contato com os índios. Também temos o censo em comunidades quilombolas, algumas também de difícil acesso, o que também pode gerar atraso. Mas são coisas pontuais, que não preocupam. O censo ocorre bem e dentro do projetado", garantiu Florido.

As informações coletadas (como características do pessoal empregado, uso de irrigação e agrotóxicos, números de animais e tipos de culturas) estão sendo trabalhadas na medida em que são transmitidas pelos recenseadores. Estatísticas preliminares, sujeitas a correção, deverão ser divulgadas a partir de maio. Em julho de 2019, o IBGE pretende divulgar os dados finais nacionais consolidados do censo.

Na atual fase do Censo Agro 2017, ganha fôlego a chamada "coleta especial". É a que envolve estabelecimentos de maior porte – com mais de 500 animais, por exemplo – ou considerados mais complexos, como os de produtos orgânicos, que geralmente têm uma grande variedade de culturas. Por serem visitas mais demoradas e estatisticamente importantes, são realizadas pelos superintendentes do censo.

"Os recenseadores ganham por produção. Eles recebem quando completam determinada área. Por isso temos uma preocupação com esses estabelecimentos nos quais o questionário demora mais para ser respondido. Não queremos correr o risco de ter algo incompleto. Separamos esses estabelecimentos especiais para coletar com supervisores", disse Antonio Carlos de Oliveira, coordenador da sub-área de Itaboraí, no rio de Janeiro, do IBGE.

Um desses estabelecimentos é a fazenda Dom Bosco, em Silva Jardim, na região dos Lagos, a pouco menos de duas horas do município do Rio de Janeiro. Formada em desenho industrial e marketing, Anita Santoro comprou 100 hectares da propriedade em 2011 e, no ano seguinte, começou a produzir orgânicos. Hoje, 60 hectares estão dedicados a 40 diferentes culturas, entre vegetais, frutas, hortaliças e grãos.

"Sempre fui vegetariana. Criei meus três filhos assim. Comecei com um pequeno plantio de produtos orgânicos em Niterói. Depois, eu e meu então marido decidimos comprar a terra e começar a plantar. Como somos pé de boi, crescemos rapidamente", afirmou Anita, que hoje procura sócios para expandir o beneficiamento e a produção – só de mandioca é 1 tonelada por semana.

Na terça-feira, Anita recebeu em sua propriedade o subcoordenador Oliveira e o agente censitário municipal Luis Fellipe Silva. O Valor acompanhou a visita. Ela precisou de mais de uma hora para fornecer os dados de sua produção, número de empregados, reserva florestal, entre outros. Normalmente, em média, são 40 minutos para responder ao questionário, que é totalmente digital, por meio de Dispositivos Móveis de Coleta (DMCs). Os DMCs são um aparelho de telefone celular, mas sem chip de operadora. Não fazem chamadas, mas transmitem os questionários e têm localização por GPS.

Os produtos da fazenda Dom Bosco abastecem 18 lojas das redes de supermercado Zona Sul e Hortifruti na capital fluminense. Estão presentes em seis feiras de orgânicos e em restaurantes chiques do Rio, como o Aprazível e o Aconchego Carioca. A propriedade de Anita já atraiu a cozinheira e apresentadora de TV Bela Gil, que gravou três episódios de seu programa na fazenda.

Segundo Luis Fellipe Silva, a maior parte dos estabelecimentos de sua região já foi coletada. Ele contou que os produtores de localidades mais próximas de áreas urbanas tendem a ser mais reticentes quando abordados pelos recenseadores, provavelmente por estarem mais próximos de áreas violentas.

"Nas áreas mais distantes, ainda mais rurais, as pessoas tendem a ser mais abertas", disse Silva, que foi recepcionado na fazenda Dom Bosco com café, cuscuz e tapioca de cupuaçu. "Mas temos relatos de recenseadores que chegaram a ser ameaçados por moradores, que acharam que era algum assaltante. Mas nada de mais grave aconteceu. Os recenseadores têm coletes e identificação para evitar situações assim", disse o agente censitário.

Apesar de ser a mais completa investigação estatística e territorial da produção agropecuária do país, o Censo Agropecuário de 2017 foi a campo mais enxuto que o previsto, após sucessivos adiamentos nos últimos anos por cortes orçamentários. O IBGE redimensionou o censo para fazê-lo caber no orçamento de R$ 785 milhões, menos da metade de R$ 1,6 bilhão inicialmente previstos.

No total, são 28 mil temporários contratados, incluindo recenseadores e supervisores. Eles foram contratados e treinados pelo IBGE a partir de setembro. Em média, cada recenseador terá realizado 400 questionários ao fim do censo. Os questionários são transmitidos pela internet e checados pelos supervisores por meio de cruzamento de dados, como os do censo anterior, em busca de qualquer possível inconsistência.

O objetivo do censo é mostrar a produção agropecuária em todo o país. O último foi feito há 11 anos. Estão sendo pesquisados estabelecimentos em 5.570 municípios, nas 27 unidades da federação. Além de subsidiar políticas públicas, os dados são usados no cadastro de estabelecimentos agropecuários e no Sistema Nacional de Pesquisas Agropecuárias.

Por Bruno Villas Bôas | De Silva Jardim (RJ)

Fonte : Valor