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Cenário negativo para empresas de máquinas

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Ruy Baron/ValorPlantio de soja no Centro-Oeste brasileiro: depois do recorde de vendas do ano passado, também no país a retração da demanda deu o tom no mercado de máquinas agrícolas ao longo de 2014

Matt Burgener acaba de colher uma safra recorde de milho e uma safra quase recorde de soja em sua fazenda de 890 hectares na região central do Estado de Illinois. Mas não está comemorando. A supersafra produzida pelos Estados Unidos nesta temporada 2014/15 fez com que os preços das commodities despencassem dos recentes picos, e derrubou a renda de Burgener.

"Eu gostaria de trocar minha semeadeira, mas simplesmente não dá para justificar [esse gasto] com os atuais preços das commodities e com essa perspectiva que temos", afirma o produtor.

Burgener não está sozinho. Produtores rurais de toda a América do Norte – e de todo o mundo – se defrontam com um horizonte de queda da renda, e o segmento de equipamentos agrícolas se prepara para vivenciar uma desaceleração drástica de suas vendas anuais mundiais, que totalizam atualmente cerca de US$ 65 bilhões.

Esse quadro foi trazido à baila no fim do mês passado pela CNH Industrial, o conglomerado britânico filiado à Fiat Chrysler Automobiles, cujas principais marcas na área de máquinas agrícolas são Case e New Holland. A CNH informou ter contabilizado uma queda de 12%, para US$ 3,7 bilhões, nas vendas totais de equipamentos agrícolas no terceiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2013, e uma retração de 26% nos lucros operacionais gerados por esse segmento. Richard Tobin, principal executivo da empresa, disse que as condições vigentes na divisão – que passou por licenças temporárias de funcionários e cortes de produção – tendem a "continuar difíceis até o fim de 2015".

No mês passado, a multinacional americana AGCO, dona da Massey Ferguson, que realiza cerca de metade de sua receita na Europa, reduziu sua perspectiva de lucro pelo segundo trimestre consecutivo e anunciou "cortes agressivos dos cronogramas e custos de produção".

A Deere & Co, maior fabricante mundial de equipamentos agrícolas, tem manifestado igual pessimismo. Em agosto, após divulgar uma queda do lucro de 15% no terceiro trimestre, a empresa anunciou mais de mil demissões, juntamente com fechamentos sazonais de unidades de produção e licenças temporárias. Analistas preveem que o anúncio de lucros da Deere, agendado para o próximo dia 26, estenderá o ramerrão de más notícias.

As ações da CNH e da AGCO registraram queda de mais de 20% até esta altura do ano. A Deere – que, segundo os analistas, está mais bem preparada para suportar uma desaceleração, devido a suas margens, as maiores do segmento -, viu seus papéis perderem 4% de seu valor, comparativamente à alta de 10% registrada pelo índice S&P 500. Documentos encaminhados na semana passada à autoridade reguladora das bolsas pela Berkshire Hathaway revelaram que Warren Buffett tinha vendido sua participação acionária na Deere.

Dois anos atrás, as fabricantes de equipamentos agrícolas emergiam das profundezas da crise financeira graças à seca que assolou os EUA, reduzindo a produtividade e puxando para cima os preços das commodities. A conjuntura fez com que os agricultores tivessem mais dinheiro para gastar em novos tratores e em outras máquinas, como colheitadeiras combinadas.

Subsídios generosos do governo americano à produção agrícola, geralmente melhores durante anos de baixo rendimento, juntamente com incentivos fiscais para reconduzir as fazendas à lucratividade, representaram um estímulo a mais para os fazendeiros.

As vendas da Deere saltaram de cerca de US$ 20 bilhões, em 2004, para quase US$ 38 bilhões no ano passado, enquanto as da AGCO mais do que dobraram, de US$ 5,3 bilhões para US$ 10,8 bilhões. "Quando você percorre a estrada, vê que cada fazenda mais parece um showroom da John Deere ou da AGCO", afirma Ben McKenna, produtor rural e operador de contratos futuros da Bolsa Mercantil de Chicago (CME, na sigla em inglês).

A aquisição recente de seus equipamentos agrícolas faz com que muitos produtores não precisem substituí-los em breve. Esse fator, associado à atual baixa dos preços dos produtos agrícolas, leva alguns analistas a estimar que as vendas de equipamentos agrícolas tenham alcançado seu pico no ano passado.

"Há tantas pessoas que perderam dinheiro com sua safra neste ano que eu prevejo que muitas delas se retirarão do mercado ou terão envolvimento muito menor com ele no ano que vem", afirma o analista Kwame Webb, da empresa de pesquisa de investimento Morningstar.

O preço do milho saltou para mais de US$ 8 o bushel durante a seca de 2012, e a renda da atividade agrícola alcançou níveis recorde no ano passado. O preço, desde então, chegou a recuar para menos de US$ 4 o bushel.

Os agricultores americanos se beneficiam de generosos seguros subsidiados da produção concedidos pelo governo americano, capazes de garantir a renda de alguns agricultores mesmo na falta de qualquer produção. Na estiagem de 2012, as indenizações pagas pelo seguro à safra totalizaram cerca de US$ 16 bilhões no país. Mas os rendimentos deste ano estão tão elevados que é pouco provável que o seguro beneficie muitos agricultores.

Apesar dos problemas atuais, tendência de longo prazo continua a ser positiva para as vendas no segmento

Na semana passada o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) previu que a safra americana de milho será a maior da história, de 365,76 milhões de toneladas, depois que o relatório do órgão de agosto projetou uma queda de quase 14% da renda da produção rural este ano, para seus níveis mais baixos desde 2010. Os preços das sementes e adubos se mostraram relativamente estáveis nos últimos anos, deixando os equipamentos como o custo significativo passível de ser controlado pelo produtor.

"Há um período de negócios bem grave previsto para breve, e as empresas [de equipamentos agrícolas] estão começando a ver isso", afirma o analista Lawrence De Maria, do banco de investimento William Blair. "Estamos, basicamente, saindo de um surto de crescimento das compras de equipamentos agrícolas, se não um pico, em diversas regiões do mundo, e caminhamos para um período de excesso e excedente da oferta mundial de grãos, o que se traduz em preços e lucros mais baixos para os produtores".

A América do Norte não é o único mercado de grande porte a sofrer com isso. As cotações das commodities caíram na Europa, juntamente com o sentimento para com a economia. Analistas observam que poucos produtores rurais da Europa Ocidental estão atualmente em condições de trocar seus tratores por novos, enquanto seus colegas do Leste Europeu podem não conseguir continuar cumprindo seu papel de grande escoadouro de equipamentos agrícolas usados.

Mesmo a América do Sul, que se tornou, nos últimos anos, o mercado de grande potencial de crescimento mais importante do setor, enfrenta problemas. Os produtos agrícolas exportados pelo continente têm seu preço fixado no mercado internacional, sediado em Chicago, e em outubro a Deere anunciou que estava demitindo quase 10% de seus funcionários de uma unidade de produção no Brasil, atribuindo a medida à queda das vendas de equipamentos – que, de acordo com a empresa, será de 15% no comparativo com 2013.

Outros mercados emergentes, como a China e a Índia, crescem em importância, mas tendem a comprar equipamento de baixo custo e até o momento respondem por uma parcela pequena da receita do segmento.

O futuro de longo prazo do segmento está praticamente assegurado, pois a necessidade cada vez maior de alimentos para alimentar a crescente população mundial garante a expansão da mecanização no campo. Mas os próximos anos podem ser complicados, de acordo com Rick Cross, dono da revendedora de equipamentos agrícolas Cross Implement, de Illinois, com US$ 100 milhões em vendas anuais.

"Se o que acontecer [no ano que bem] se repetir [em 2016], posso prever um grave impacto econômico sobre os equipamentos agrícolas", afirma ele.

Os produtores rurais americanos estão recorrendo aos bancos em busca de empréstimos de curto prazo, uma vez que a queda de sua renda, decorrente do recuo dos preços dos produtos agrícolas, esgotou seu capital de giro, como já informou o "Financial Times".

Nas pesquisas trimestrais de condições de crédito do setor agrícola publicadas este mês, as agências tanto de Chicago quanto de Kansas City do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) observaram este ano um aumento significativo do crédito agrícola não imobiliário. As duas agências cobrem parte das principais regiões agrícolas dos Estados Unidos, e seus relatórios servem de termômetro para avaliar a saúde da economia agrícola do país.

"A renda agrícola de 2014 ficou aquém da dos anos anteriores, e isso aumentou a necessidade de financiamento para cobrir os custos de produção", informou o Fed de Kansas City em seu relatório. O Fed de Chicago prevê que a demanda dos produtores rurais por empréstimos não imobiliários do quarto trimestre será a mais elevada desde 1970.

Mesmo diante do potencial para colher uma safra recorde, aproximadamente 85% dos dirigentes de bancos consultados pelo Fed de Kansas City previram que as rendas da produção de 2014 serão menores que as do ano passado. A queda média da renda foi projetada em 25%.

Com os sinais dos mercados de grãos e oleaginosas de que os preços continuarão baixos, houve também preocupação com as margens de lucro do ano que vem. No Meio-Oeste, mais de 90% dos produtores rurais ouvidos pelo Fed de Chicago previram queda dos lucros para o outono e o inverno (o período entre os meses de setembro e março).

Um dirigente de banco de Kansas City disse aos pesquisadores: "A queda dos preços dos produtos agrícolas, associada aos altos custos dos insumos, vai impactar a lucratividade agrícola. As compras de maquinário ficarão caras demais para a maioria dos produtores". (Tradução de Rachel Warszawski)

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Fonte: Valor | Por Neil Munshi | Financial Times