Cenário ainda adverso para construção de novas usinas

Apesar da conjuntura mais positiva para o etanol no curto prazo, decorrente dos incentivos governamentais concedidos neste ano, o retorno proporcionado pela construção de usinas novas de cana-de-açúcar continua baixo no país. Os preços deprimidos do açúcar no mercado internacional e outros riscos associados à atividade se juntam à conjuntura negativa que segue turvando a visão do investidor.

O banco Credit Suisse divulgou um estudo que, com base nas cotações atuais do açúcar e do etanol, conclui que o retorno vindo da construção de uma usina no Brasil é negativo em 1,1% em termos reais se for considerada uma alavancagem de 50%, nível que o banco considera ser muito baixo para encorajar expansões.

Para reverter essa tendência, o preço do açúcar teria que alcançar, no mínimo, 21 centavos de dólar por libra-peso (com câmbio de R$ 2,20). Os preços do etanol deveriam ficar estáveis em termos reais.

Mas, além dessas premissas, os investidores precisariam levar em conta outros riscos associados a um projeto greenfield no Brasil, segundo o Credit Suisse. Entre eles, o risco climático, os custos com fertilizantes, o controle do governo nos preços da gasolina e os gargalos logísticos.

Para o banco, a dinâmica de oferta e demanda do açúcar é desafiadora no curto prazo – mas, no entanto, deve melhorar. Isso porque os preços baixos da commodity devem desencorajar o aumento da oferta no mundo. Assim, como consequência de uma oferta estável com uma demanda crescente, o banco espera preços do açúcar em recuperaçaão leve na safra 2013/14, eventualmente convergindo para 20 centavos de dólar por libra-peso em 2014/15.

Diante desse cenário ainda fraco para o setor, o banco projetou uma perspectiva de neutralidade para a performance de duas das três companhias das quais acompanha em seus relatórios. A Cosan, que não está muito exposta ao setor de açúcar e etanol por ter diversificado para distribuição de combustíveis e logística, é a única para a qual o Credit Suisse projeta uma performance acima do mercado, equivalente à recomendação de compra (outperform). O preço-alvo para a ação dessa companhia nos próximos 12 meses é de R$ 59, o que significa uma expressiva valorização de 36% em relação ao nível atual.

Para a Adecoagro, empresa que produz grãos, açúcar e etanol, controlada pelo megainvestidor George Soros e capital aberto na bolsa de Nova York, a indicação do Credit Suisse é de neutralidade e preço-alvo de US$ 7,50 por ação, 13% de aumento em relação aos níveis atuais.

Em relação à brasileira São Martinho, única puramente sucroalcooleira na bolsa de valores de São Paulo, o banco reconhece os níveis elevados de competitividade da companhia, no entanto, acredita que a maior parte do valor já está precificado no papel. Ainda assim, apesar da perspectiva de neutralidade, o Credit Suisse projeta preço-alvo de R$ 30 por ação, o que significa uma valorização de 20% em relação aos níveis atuais.

Numa perspectiva mais de longo prazo, o Credit Suisse considera que o mercado de etanol hidratado no Brasil tem potencial para atingir 16 bilhões de litros em 2017. A projeção se baseia na perspectiva de crescimento da frota flex-fuel, e significa impulsionar em 51% o consumo de hidratado em cinco anos – contados a partir de 2012. Para a gasolina e o anidro, a instituição estima aumento de 3% ao ano no mesmo período. "O efeito da frota-flex na demanda interna não é fácil de calcular e pode mudar dramaticamente, conforme o comportamento dos preços do hidratado em relação à gasolina", avalia o banco em relatório.

A instituição projeta ainda que o Brasil deveria processar 720 milhões de toneladas de cana-de-açúcar em 2017/18 (aumento de 5,1% de 2010/11 a 2015/16) para atender à demanda projetada de 16 bilhões de litros de hidratado, 10 bilhões de litros de anidro e de 44 milhões de toneladas de açúcar em 2017.

No entanto, para expandir a capacidade instalada para 710 milhões de toneladas, o país deveria investir US$ 19 bilhões, sendo US$ 12 bilhões para construção de 39 novas usinas (cada uma de 4 milhões de toneladas), e US$ 7 bilhões para plantio de cana.

No curto prazo, o Credit Suisse, em um cenário mais moderado, projeta uma moagem de 580 milhões de toneladas de cana-de-açúcar para esta safra 2013/14 no Centro-Sul. Considerando uma quantidade de açúcar na cana (ATR) de 140 quilos por tonelada e um mix de 46% para açúcar, o volume de açúcar produzido na região seria de 35,6 milhões de toneladas e de etanol, de 24,5 bilhões de litros. Esses volumes significam oferta adicional de 1,5 milhão de toneladas de açúcar e 3,2 bilhões de litros de etanol.

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Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo