CCPR decide investigar antiga gestão da Itambé

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Linha de produção da Itambé em Pará de Minas; empresa virou alvo de disputa

A atual direção da Itambé Alimentos contratou a KPMG para apurar o que considera "suspeitas de gestão fraudulenta" na empresa de lácteos, até dezembro comandada pela Vigor, que foi vendida pela J&F à mexicana Lala em agosto. A Vigor tinha 50% da Itambé e os 50% restantes pertenciam à Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR). O Valor apurou que relatório da KPMG com observações iniciais da auditoria – que ainda está "pendente de conclusão" – reforçaria a percepção da atual gestão, agora nas mãos da CCPR.

A decisão da direção de recorrer a uma auditoria externa é mais um capítulo da disputa que chegou à Justiça e pôs em lados opostos as duas empresas, depois que a Itambé foi vendida para a francesa Lactalis, por R$ 1,9 bilhão, em dezembro. Em agosto de 2017, a Vigor, que era da J&F, foi adquirida pela Lala. A transação envolvia ainda até 100% das ações da Itambé, na qual a Vigor era sócia com a CCPR.

O acordo de acionistas previa direito de preferência para a CCPR recomprar a fatia de 50% da Itambé que havia alienado à Vigor, em 2013, em caso de venda desta última. A CCPR exerceu o direito e retomou o controle da Itambé em 4 de dezembro, mas no dia seguinte anunciou a venda da empresa a Lactalis.

Uma semana mais tarde, a Vigor obteve liminar na 1ª Vara Empresarial e Conflitos de Arbitragem em São Paulo, suspendendo o negócio, alegando que o acordo de acionistas foi descumprido. A CCPR recorreu da suspensão. O recurso ainda não foi julgado, mas a Justiça manteve a CCPR no comando da Itambé.

A Itambé confirmou a contratação da auditoria externa, mas não comentou o assunto. A Vigor não se pronunciou.

Segundo apurou o Valor, há três pontos em análise pela KPMG. Um deles é o não pagamento de dividendos da Itambé para a sócia CCPR em setembro de 2017. O conselho de administração da empresa havia aprovado em março do ano passado a distribuição de dividendos, no valor de R$ 8,3 milhões para cada sócia, referentes aos resultados de 2016. Mas apenas a Vigor recebeu o montante em setembro. A CCPR só recebeu após 4 de dezembro, quando retomou o controle da Itambé.

O não pagamento dos dividendos na data certa seria, segundo a acusação, uma forma de "sufocar" a CCPR, forçando-a a recorrer a bancos, justamente no mês em que anunciou que exerceria o direito de recomprar os outros 50% da Itambé. A decisão da CCPR de exercer a preferência surpreendeu e desagradou a Lala, segundo apurou o Valor, uma vez que era interesse da companhia mexicana ter os ativos da Itambé.

Em seu relatório com as observações iniciais da auditoria, ao qual o Valor teve acesso, a KPMG confirma que até 4 dezembro, a CCPR não havia recebido os dividendos da Itambé Alimentos.

Fontes próximas à Vigor afirmaram que a CCPR não recebeu os dividendos porque há cerca de um ano e meio a central havia contraído uma dívida de R$ 18 milhões com a Itambé. Assim, o conselho de administração definiu que o valor do dividendo seria abatido dessa dívida.

Venda da Itambé à Lactalis foi suspensa em dezembro após liminar da Justiça; CCPR recorreu

Segundo apurou a reportagem, a atual gestão da Itambé afirma ainda que a Lala, que assumiu a Vigor dia 26 de outubro, "esvaziou" o caixa da empresa. Em outubro, a Itambé tinha cerca de R$ 150 milhões em caixa, referentes a linhas de capital de giro e faturamento. Mas no dia 4 de dezembro, quando a CCPR retomou o comando, encontrou cerca de R$ 50 milhões no caixa. Conforme a acusação, o então gestor não teria renovado linhas de financiamento de capital de giro com bancos.

Em suas observações, a KPMG confirma ter verificado uma redução nos índices de liquidez da Itambé, que tinha disponíveis R$ 155,3 milhões em outubro e R$ 51,9 milhões em novembro.

Fontes próximas à Vigor disseram que os recursos no caixa da Itambé diminuíram pois em novembro venceram R$ 98 milhões em dívidas com quatro bancos. As linhas não foram renovadas, segundo essas fontes, porque os bancos ficaram inseguros em relação à nova gestão da Itambé.

Operações envolvendo vendas de leite em pó para a Venezuela em acordos fechados pela JBS, outra controlada da J&F, também estão na mira da auditoria. Em 2014, a empresa dos irmãos Batista fechou acordos com Caracas para exportar carne e leite em pó. Como a Vigor não produz leite em pó, o item foi fornecido pela Itambé, que ficou com os lucros do negócio, segundo fontes a par do assunto.

No ano seguinte, porém, por meio da Vigor, a JBS passou a buscar o leite no mercado e a Itambé tornou-se apenas uma das fornecedoras do produto para atender o mercado venezuelano. Com a nova estratégia, o lucro das vendas ficou só com a Vigor. Isso teria contribuído, segundo as mesmas fontes, para impulsionar os resultados da Vigor em 2015, ano em que a empresa teve um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) de R$ 317 milhões, quase o dobro do ano anterior.

Conforme apurou a reportagem, para a CCPR o resultado positivo em 2015 teria sido utilizado para inflar o valor da Vigor num eventual processo de venda. Assim, na operação de venda para a Lala, a Vigor teria usado esses dados para se valorizar ao mesmo tempo em que teria depreciado a Itambé.

À época em que a Lala fez a proposta de compra, especialistas do setor consideraram elevado o valor atribuído pela mexicana à Vigor (R$ 4,325 bilhões) e baixo o atribuído à Itambé (R$ 1,4 bilhão).

Mas fontes próximas à Vigor refutam as suspeitas da CCPR, afirmando que o valuation das duas empresas desconsiderou as exportações à Venezuela, por serem itens não recorrentes.

A Vigor questiona a venda da Itambé à Lactalis pois considera que a operação feriu o acordo de acionistas que tinha com a CCPR na empresa de lácteos. Pelo acordo, era proibida a venda de participação, por qualquer um dos sócios, para um concorrente estratégico. Assim, conforme o entendimento da Vigor, a CCPR teria que ter dado direito de preferência a ela caso não se interessasse em recomprar os 50%.

A CCPR, por seu lado, argumentou no recurso à Justiça que o acordo de acionistas não foi descumprido, uma vez que deixou de ter validade no momento em que a central concluiu a recompra dos 50% e voltou a ter o controle da Itambé. Por esse entendimento, a CCPR teria liberdade para vender a controlada a qualquer player.

Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo