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Cautela volta a guiar planos de usinas para novos investimentos

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A forte queda do açúcar e do etanol desde o início desta safra 2017/18 voltou a desanimar as usinas do Centro-Sul do país. E, depois de aproveitarem os preços bem mais atraentes do ciclo passada para realizar alguns investimentos na área industrial, mesmo as maiores companhias do segmento já sinalizaram que a cautela voltará a dar o tom.

Assim, a perspectiva é que os aportes de 2017/18 voltem a se concentrar na área agrícola, divididos entre renovação de canaviais, tratos culturais e ampliação de áreas. Em 2016/17, as usinas que tinham algum fôlego financeiro buscaram investir na otimização da produção de açúcar, aproveitando o prêmio elevado da commodity ante o etanol.

Maior companhia da área, a Raízen Energia previa, no início da safra, realizar investimentos em bens de capital (capex) entre R$ 2,1 bilhões e R$ 2,4 bilhões nesta temporada. No cenário mais pessimista, o montante será praticamente estável em relação ao do ciclo passado, e a mais otimista representará um crescimento de 14%. Mas mesmo nesse caso o aumento será menor que o da safra passada (18%).

Ambos os horizontes já consideram aportes em quatro projetos de expansão da cristalização de açúcar, que foram iniciados no ciclo 2016/17 e terminaram recentemente, afirmou ao Valor João Alberto Abreu, vice-presidente de açúcar, etanol e bioenergia da Raízen

As projeções também levam em consideração a inflação, afirmou Paula Kowarksy, diretora de relações com investidores da Cosan, em teleconferência sobre os resultados da safra passada. E foi considerados, ainda, um investimento de R$ 50 milhões na produção de geração de energia de biogás, que começa a entregar energia a partir de 2021, além da aquisição de cana de terceiros e projetos de uso de vinhaça e de segurança e ambiente.

Com a recente aquisição de duas usinas da Tonon, a Raízen deverá revisar sua meta de investimentos, mas a expectativa é que a empresa foque seus aportes nos canaviais dessas unidades, que estão mais velhos que a média de suas lavouras.

A Biosev, controlada pela Luis Dreyfus Company, prevê investir R$ 1,355 bilhão nesta safra, com "margem de erro" de R$ 90 milhões para cima ou para baixo. A previsão mais pessimista representa uma queda de 8% em relação à temporada passada, mas a mais otimista significa aumento de 5%. Essa margem considera o impacto de oscilações cambiais nos custos com insumos, o impacto de variação do tempo de entressafra nos gastos de manutenção e ajustes nos dispêndios com plantio.

A situação é muito diferente da safra passada, quando a companhia expandiu seu capex em 19%. Mas, mesmo em 2016/17, o aporte em expansão industrial consumiu relativamente poucos recursos – cerca de R$ 18 milhões.

A meta para esta safra pode inclusive ser revisada, afirmou Rui Chammas, presidente da Biosev, em teleconferência de resultados, já que a prioridade da companhia é maximizar a geração de caixa. "Quando os preços estão muito baixos, a companhia tende a conter alguns plantios", comentou.

Terceira maior processadora de cana em 2016/17, a Odebrecht Agroindustrial foi a única das grandes de capital aberto que sinalizou uma aceleraração de investimentos. A companhia prevê aportes de R$ 640 milhões neste ciclo, uma alta de 43% sobre o passado.

O montante é maior que o investido em 2015/16, quando a empresa ainda estava expandindo a Usina Eldorado, em Rio Brilhante (MS). Porém, o foco dos aportes agora será nos canaviais, disse Alexandre Perazzo, vice-presidente de finanças da empresa, ao Valor.

A Odebrecht Agroindustrial está plantando 16 mil hectares novos com cana e renovando outros 62 mil hectares. Isso para reduzir a idade média das plantações dos atuais 3,2 anos para três anos. Além disso, a empresa "terá um investimento expressivo em equipamentos e máquinas agrícolas, de R$ 72 milhões", de acordo com Celso Ferreira, vice-presidente de operações e engenharia.

Já a Tereos Açúcar e Energia Brasil planeja elevar seus investimentos em 1% nesta safra, para R$ 686 milhões, após sair de uma safra cujo aumento foi de expressivos 40%. Os aportes nas lavouras próprias somarão R$ 200 milhões, mas também estão previstos investimentos industriais – como na planta de cogeração na Usina Cruz Alta, em Olímpia (SP), para melhoria da eficiência energética e na reforma da refinaria.

Por sua vez, o grupo São Martinho deverá aumentar seu investimento em manutenção em 3%, para R$ 900 milhões, mas tende a reduzir aportes em expansão e modernização para R$ 70 milhões, ante R$ 107,8 milhões na última safra, como sinalizou em teleconferência de resultados Filipe Vicchiato, diretor financeiro e de relações com investidores.

Mesmo dentro dessa linha de investimentos estão previstos aportes em um centro de operações agrícolas, de monitoramento dos trabalhos em campo, e "projetos pequenos" de eficiência, segundo Vicchiato. Na safra passada, a São Martinho acelerou seus investimentos principalmente para elevar a capacidade da Usina Santa Cruz, em Américo Brasiliense (SP).

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor