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Carga de cacau que veio da África com insetos preocupa produtores

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Denúncias sobre a chegada ao Brasil de uma carga de cacau vinda da África contendo insetos vivos acendeu a luz vermelha sobre o perigo de introdução de novas pragas à produção brasileira de cacau e de outras culturas, na avaliação de produtores. O produto foi adquirido pela Nestlé.

A cacauicultura brasileira foi seriamente afetada no fim da década de 1980 com a ocorrência da vassoura-de-bruxa, fungo que dizimou grande parte das plantações da Bahia, maior Estado produtor do país, responsável por cerca de 70% da colheita nacional. A ocorrência do fungo foi considerada uma atividade criminosa. O Brasil, que chegou a produzir quase 400 mil toneladas da amêndoa, hoje não chega a ter 200 mil toneladas por safra. O país precisa importar cerca de 50 mil toneladas para cobrir a demanda da indústria processadora.

O produtor Sérgio Luz, com fazendas no sul da Bahia, disse que a denúncia da chegada da carga com insetos foi feita por um fiscal do porto de Ilhéus, principal recebedor de cacau do país, e repassada aos produtores. Segundo ele, a carga importada da África, com 4 mil toneladas, está parada no porto. Luz observa que falta fiscalização nas importações. "Pode acabar com a cultura", afirma.

Ele cita, ainda, que uma praga (Striga) presente na África, e que não afeta o cacau, prejudica outras plantações, como milho e trigo, e pode entrar no país. A opinião dele é compartilhada por um ex-dirigente de associação de indústrias no país. Ele pondera que o "relaxamento" dos procedimentos fitossanitários, em vigor desde o fim do ano passado, foi decorrente da pressão da indústria que arcava com estes custos, como o tratamento químico das cargas.

As informações são rechaçadas pelo chefe da divisão de análise de risco de pragas do Ministério da Agricultura, Jefe Leão Ribeiro. Ele esclarece que os procedimentos fitossanitários continuam sendo feitos. Apenas o tratamento com brometo de metila foi suspenso porque houve consenso em relação ao exagero na sua aplicação para mitigar os riscos da Striga, e que deixa resíduos no produto. De acordo com Ribeiro, em nenhum momento a amêndoa entra em contato com esta erva daninha, nem durante o percurso até o Brasil. Ribeiro reforça que o cacau é importado de regiões africanas onde não existe a presença desta praga.

Ribeiro também afirma que as novas regras retiraram a necessidade de autorização de importação desse tipo de produto. Sobre a carga que chegou com insetos vivos, o analista de risco é categórico. "Houve falha no tratamento na origem e isso está sendo investigado". E reforça que o Ministério da Agricultura está aberto ao diálogo, caso precise rever algum procedimento na importação.

A carga mencionada foi comprada pela Nestlé. Em nota, a multinacional afirma que os carregamentos de cacau em amêndoa adquiridos pela empresa passam por todos os trâmites legais e necessários à importação, tais como tratamento fitossanitário e inspeção antes do embarque ao Brasil. Os laudos dos lotes, gerados na Costa do Marfim, de acordo com a Nestlé, demonstram total conformidade com os padrões normativos. A companhia esclarece ainda que aguarda a conclusão de inspeção realizada pelos técnicos do Ministério da Agricultura do Brasil. A Nestlé não informa quando o produto aportou em Ilhéus.

A assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que foi solicitada a retirada uma nova amostra para identificar a praga presente no carregamento. Após o resultado, será feito o expurgo da carga e a mercadoria será liberada.

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Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo