Captação das grandes cai; Lactalis mais perto da Nestlé

O declínio da produção de leite no país no ano passado, que gerou períodos de forte disputa pela matéria-prima no mercado, fez recuar a captação de leite das 15 maiores empresas de lácteos do Brasil em 2016. De acordo com o ranking da Leite Brasil – associação que reúne produtores -, as 15 maiores empresas de lácteos captaram juntas 9,667 bilhões de litros de leite em 2016, uma retração de 1,9% sobre o ano anterior.

Os primeiros lugares no ranking se mantiveram em 2016, mas a pesquisa mostrou que a francesa Lactalis ficou bem mais perto da suíça Nestlé, a maior em captação de leite no Brasil.

O levantamento revelou ainda uma queda expressiva no número de produtores que entregaram leite a essas 15 empresas no ano passado – de 8,2%, para 56.452 fornecedores, num reflexo, em parte, da saída de pecuaristas de pequeno porte da atividade e da decisão de empresas de concentrarem as compras dos maiores e mais produtivos.

Num ambiente de menor oferta de matéria-prima – conforme o IBGE, o recuo da produção de leite foi de 3,7% -, a ociosidade das empresas de lácteos no país aumentou em 2016. Segundo o ranking, considerando a estimativa de capacidade total instalada dessas empresas, a ociosidade ficou em 40% em 2016 – havia sido de 38% no ano precedente.

Das 15 empresas do ranking, 10 registraram queda na captação de leite enquanto cinco ampliaram a recepção do produto para processamento. Para Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil, o recuo na compra pelos maiores laticínios reflete tanto a restrição de matéria-prima quanto a da demanda por lácteos. Segundo ele, a estimativa é que o consumo per capita de lácteos no país esteja próximo de 170 litros, abaixo dos 180 litros de 2015. "O desemprego e a falta de dinheiro afetam a capacidade de consumo", lamenta Rubez.

Primeira no ranking, a Nestlé viu sua captação cair 4,4% no ano passado, para 1,690 bilhão de litros. Em nota, a empresa diz que "esse movimento se explica pelo cenário mais difícil da economia em 2016 aliado à menor produção de leite no Brasil". Sobre a redução do número de produtores que forneceram à empresa, afirma que "muitos produtores estão deixando a atividade leiteira no Brasil. Em contrapartida, houve um aumento na produtividade dos produtores que permanecem no setor".

Bem mais próxima da Nestlé no ranking de 2016 que no levantamento anterior, a francesa Lactalis ampliou a captação em quase 2% – para 1,622 bilhão de litros -, embora o número de produtores que entregam diretamente à empresa tenha caído. "Adquirimos conforme a necessidade que tínhamos em função da posição de mercado", afirma Guilherme Portella, diretor de relações institucionais da companhia no Brasil.

Segundo ele, 2016 foi um "ano bom" para o leite longa vida. Diante das margens melhores do produto e para atender a demanda, a empresa ampliou as compras de leite no spot (negociação entre empresas) de cooperativas no Rio Grande do Sul. Portella diz que a aproximação da Nestlé no ranking reflete a meta da companhia francesa de "ser líder no Brasil, na captação de leite e na produção de lácteos".

Das mudanças mais significativas no ranking, duas se destacaram. A Vigor, controlada pela J&F, caiu da oitava para a 11ª posição na lista ao reduzir a captação de leite em 24,1% em 2016, para 311,3 milhões de litros. Em nota, a empresa afirma "que seus números estão diretamente ligados ao comportamento do mercado no ano passado. Fatores como redução das exportações, diminuição da demanda interna e uma menor oferta de leite cru no mercado brasileiro contribuíram para este cenário".

Já o Laticínios Jussara subiu no ranking, exatamente para oitavo lugar antes ocupado pela Vigor. A empresa, com sede em Patrocínio Paulista (SP), ocupava o décimo posto no ranking da Leite Brasil no ano de 2015.

A Jussara captou 377,521 milhões em 2016, alta de 2,8% sobre o ano anterior. O número de produtores que forneceu diretamente ao laticínio também caiu. "Compensamos a queda da compra de produtores adquirindo leite no spot", afirma Laércio Barbosa, diretor da Jussara.

Em tempos de escassez de oferta, os preços no spot são mais altos, mas Barbosa observa que em 2016 o custo de captação do leite cresceu num momento em que o longa vida estava valorizado. Isso permitiu margens favoráveis. "Foi positivo porque crescemos num ano que as vendas [de longa vida] ficaram praticamente estagnadas", avalia.

(Alda do Amaral Rocha | De São Paulo)

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor