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Campo e Lavoura – Safra de inverno – Região dos Campos de Cima da Serra desponta no cultivo da cevada

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Região no extremo nordeste do Estado aflora na produção em razão da disponibilidade de terras e clima favorável

Região dos Campos de Cima da Serra desponta no cultivo da cevada Artur Alexandre/Especial

Venda garantida estimulou Cauduro a ampliar área com o cereal Foto: Artur Alexandre / Especial

A cerca de mil metros de altitude no extremo nordeste do Estado localiza-se uma das áreas mais propícias para a produção de cevada no país. Por conta das baixas temperaturas, da regularidade de chuva e da disponibilidade de terras, os Campos de Cima da Serra estão, definitivamente, no mapa cervejeiro. Com relação ao ano passado, a região mais que dobrou a área cultivada com a planta que dá origem ao malte, considerado a alma da cerveja. Nas demais regiões do Rio Grande do Sul, a expansão deve ficar em torno de 16%.

Cézar Augusto Cauduro está entre os produtores que decidiram investir mais no cereal nesta temporada. Aos 50 anos e há seis deles dedicados à agricultura, o morador de Vacaria ampliou em 15% a área destinada à cevada. Mas o aumento não é exclusivo desta safra: há quatro anos, quando plantou o cereal pela primeira vez, eram cem hectares, que foram ampliados para 150, depois 200 e, neste ano, chegou a 230 hectares. Para isso, reduziu a área com trigo.

A decisão está relacionada ao ciclo mais curto da cevada, liberando a lavoura mais cedo para a cultura de verão, no caso, a soja — que, quanto antes for semeada, maior o potencial de produtividade —, e também com questões de mercado: a Ambev mantém sistema integrado de produção, que garante a compra e define preço antes do início do ciclo.

— A liquidez é grande. Antes de plantar, a gente já sabe quanto vai receber no fim da safra. E, assim que colhe, o dinheiro entra na conta. Já com o trigo, não sabemos o valor, tem de ir para o mercado vender — justifica Cauduro.

Pelo mesmo motivo, acrescido da dificuldade de armazenamento, o produtor desistiu do cultivo de canola. No ano passado, como não encontrou silo na região de Vacaria, teve de levar os grãos para Giruá. A distância de 300 quilômetros encareceu a logística, encurtando o lucro.

O agrônomo reconhece as vantagens da região mais fria do Estado, mesmo assim não abre mão de investir em tecnologia. O solo é preparado ao longo de todo o ano e uma empresa é contratada para fazer agricultura de precisão: mapeamento e análise cuidadosos definem quanto e onde deve ser colocado cada tipo de fertilizante.

Apesar de a forte geada que atingiu o Estado no início de junho ter queimado as folhas das plantas, as mudas estavam jovens e os grãos sequer se formaram. Com isso, ainda há tempo para que se desenvolvam plenamente. Assistente técnico regional em produção vegetal da Emater-RS serrana, João Villa explica:

— Geada é problema para as culturas a partir do emborrachamento, quando começa a formar a espiga e a planta se alonga. Nas fases inicias, é benéfica: quanto mais frio, mais perfilha e gera mais espigas por área, aumentando a produtividade.

Além de aposta da Ambev, que investe nos produtores de cidades como Vacaria, Esmeralda, Muitos Capões e Lagoa Vermelha para que ampliem suas produções de cevada, a região dos Campos de Cima da Serra também é referência no desenvolvimento de variedades. Segundo o agrônomo Euclydes Minella, pesquisador em melhoramento genético da Embrapa Trigo, de Passo Fundo, as condições climáticas são favoráveis para testar novas variedades.

— Se as cultivares se adaptarem bem, quer dizer que são boas opções. Estamos testando duas novas variedades que, além de tão competitivas em rendimento como as que já existem, têm melhorias que incluem resistência a oídio, fungo que acomete a planta no estágio inicial e pode acabar com o potencial da lavoura — explica Minella, acrescentando que as variedades já devem ser comercializadas em escala comercial na próxima safra.

Escassez exige que empresas precisem importar o malte

O Brasil não é autossuficiente no cultivo de cevada para a indústria cervejeira justamente por causa da grande instabilidade climática. Hoje, as duas maltarias da Ambev — uma em Porto Alegre e outra em Passo Fundo — adquirem quase a integralidade do cereal cultivado no Estado. Pela escassez de matéria-prima, entre 30% e 40% do malte consumido pela gigante, subsidiária da InBev, é importada da Argentina e do Uruguai. Outra parte é adquirida da cooperativa paranaense Agrária, maior maltaria da América Latina.

— A demanda vem aumentando e, mesmo tendo incrementado em mais de 20% o rendimento médio das lavouras nos últimos 15 anos, ainda não é suficiente. Quando há quebra de safra, temos de buscar fora — afirma Marcelo Coelho Otto, diretor regional fabril da Ambev.

É por esse motivo também que existem poucas maltarias no país. Como a possibilidade de perda é grande e a área plantada é reduzida, poucos investem no processo de transformação da cevada em malte — algo que depende de testes e nível de qualidade rigorosos. Por isso, segundo o presidente da Associação de Microcervejeiros (AGM), Rodrigo Ferraro, as fábricas artesanais de cerveja compram o produto pronto.

São duas as principais fontes das microcervejarias: a própria cooperativa Agrária — que produz malte pilsen, utilizado como base para todos os tipos de cerveja, com média de 70% por garrafa — e sites especializados, que adquirem os maltes tipo lager, pale ale, torrado, caramelo, entre outros, de países como Bélgica, Alemanha e Estados Unidos. Mas a importação cobra seu preço.

— Ficamos suscetíveis ao câmbio e a variações de mercado. O malte de fora custa, em média, 50% mais do que o nacional — afirma Ferraro.

O empresário diz que as discussões para baixar o custo de produção são frequentes no ramo das artesanais, no entanto, a produção de malte depende de uma estrutura grande:

— O mercado teria que se organizar, e tem potencial, mas não vejo isso acontecendo em um futuro próximo.

Mais área, menos produtividade

Adriano Dutra, produtor de Passo Fundo, plantou 24 hectares do grãoFoto: Diogo Zanatta / Especial

Ao olhar para a lavoura cor de palha no interior de Passo Fundo, Adriano Dutra, 44 anos, preocupa-se com o futuro dos 24 hectares de cevada.

— A geada foi muito forte, queimou as folhas das plantas. Agora, é torcer pela rebrota — comenta o produtor, que herdou a terra e os conhecimentos do pai.

O problema climático foi amenizado pelo excesso de chuva registrado em maio, que adiou o plantio no Norte, maior região produtora de cevada do Estado. Dutra semeou somente em 20 de junho, um mês depois do prazo usual. Com isso, a geada teve menor impacto porque se formou sobre as plantas na fase inicial:

— Ainda dá tempo de salvar a lavoura — avalia o produtor.

Após as dificuldades na largada, a chuva — que caiu em parte do Estado na última quarta-feira — veio a tempo para aplicação de fertilizantes. A umidade é fundamental para os nutrientes penetrarem no solo, explica o assistente técnico regional da Emater-RS de Passo Fundo Claudio Dóro.

— Por enquanto, o clima está preocupante. Primeiro tivemos excesso de chuva, depois geada e, após, um período de seca. Agora, é esperar.

No momento, não dá para sonhar com produtividade do ano passado — avalia Dóro, destacando que 2016 é que teve uma safra "fora da curva", porque o clima "foi perfeito".

A estimativa da Emater-RS é de expansão da área plantada em 16,5% neste ano, alcançando 51,6 mil hectares no Estado. Já a produtividade, em razão das condições adversas, deve cair em mais de 15% — de 3,6 toneladas por hectare para 3 toneladas por hectare.

— O que vai definir, mais uma vez, é o clima. Os produtores têm conhecimento, têm boas variedades e bom assessoramento técnico. O que compete a ele, está fazendo — diz Dóro.

Por: Vanessa Kannenberg

Fonte : Zero Hora