CAMPO ABERTO | Joana Colussi PESQUISA INCERTA 90 DIAS após EXTINÇÃO

 



  • Passados exatos três meses da extinção oficial da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), o sentimento entre os pesquisadores ainda é de indefinição em relação ao futuro. Boa parte dos funcionários da área administrativa foi remanejada para funções na Secretaria da Agricultura, enquanto os servidores do setor de pesquisa seguem em seus centros sem saber se darão continuidade aos trabalhos:
    – Estamos nos sentindo num limbo, como se não houvesse um planejamento voltado para nós – diz Caio Efrom, pesquisador e chefe do centro de pesquisa de Taquari, realocado dentro do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária, criado na secretaria.
    A Fepagro era responsável por centros de pesquisa em 20 municípios, além da sede na Capital, e por 15 laboratórios vinculados a mais de cem projetos. Reportagem publicada na edição de hoje de Zero Hora, da repórter Juliana Bublitz, mostra que dos 12 órgãos extintos pelo governo estadual, cinco já deixaram de existir oficialmente – como a Fepagro. Os outros sete continuam funcionando por meio de liminares obtidas na Justiça por entidades de classe.
    Desde a extinção oficial da Fepagro, em 17 de janeiro, ocorreram transtornos em centros de pesquisa, relatam funcionários, como cortes de energia e de internet. Mas o que mais preocupa é a continuidade dos trabalhos a campo, já que o caráter jurídico de fundação foi transformado em administração direta:
    – Não sabemos se poderemos participar de editais públicos. Grande parte dos nossos projetos é executado por agências de financiamento. Dependemos de recursos – relata Efrom.
    Secretário-adjunto da Agricultura, André Petry informa que nesta semana a secretaria deverá finalizar levantamento sobre os ajustes necessários na estrutura da antiga Fepagro – desde possíveis fechamentos de centros a remanejo de servidores.
    – Inicialmente nos preocupamos em manter todos os convênios que estavam em curso. Agora, estamos fazendo uma avaliação final, com uma visão do todo – detalha Petry, justificando que o processo tem um tempo imposto pela burocracia.
    Para ter alternativa

    Produtores de tabaco estão mobilizados para alterar o Manual do Crédito Rural, que proíbe o financiamento para construção, reforma e manutenção de estufas de uso misto – dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Esses equipamentos costumam ser usados nas propriedades para secagem de produtos como milho, feijão, amendoim e também tabaco.
    – As estufas atuais são para uso múltiplo, para secagem de cereais – explica Benício Werner, presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra).
    Segundo o dirigente, de 85% a 90% dos produtores plantam algum tipo de grão na mesma área onde é colhido o tabaco.
    – Se a intenção do governo é estimular a diversificação de culturas, essa resolução faz justamente o contrário – reclama Werner.
    Nos três Estados do Sul, são mais de 150 mil famílias produtoras de tabaco.
    ALVO de bandidos

    A alternativa que ajudou a aliviar a pressão para armazenar uma supersafra de grãos no Rio Grande do Sul também trouxe preocupação aos produtores. Os silos-bolsa, espalhados em propriedades rurais para guardar a produção após a colheita da soja, têm sido alvos de roubos no interior do Estado. À noite, criminosos rasgam os sacos gigantes de plástico e transferem o produto para carrocerias de caminhões.
    – Ouvimos relatos do uso de máquinas adaptadas para fazer a extração de dentro da bolsa para caminhões – conta Vicente Barbiero, presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Estado (Acergs).
    Segundo o dirigente, o uso de silo-bolsa aumentou em 10% na comparação com o ano passado – por conta da supersafra de soja e também pelos altos estoques de trigo e milho ainda não vendidos. A produção gaúcha neste ano superou em 15,4% a capacidade estática de recebimento. Com uma safra total estimada em 34,82 milhões de toneladas, o Estado tem estruturas para guardar 28,78 milhões de toneladas, conforme a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
    Sem ter onde colocar tanto produto, foi preciso recorrer ao improviso neste ano. Além dos silos-bolsa, cooperativas, cerealistas e produtores adaptaram armazéns, aceleraram a saída para o porto e chegaram a fazer piscinões de soja a céu aberto, como mostrado em reportagem publicada no Campo e Lavoura no fim de semana.
    O preço da soja segue caindo e desestimulando negócios. O valor pago ao produtor está na casa dos R$ 55 no Rio Grande do Sul, segundo a Emater. com a colheita se aproximando do final, a estimativa é de uma produção recorde de 17,5 milhões de toneladas.
    Mais tecnologia
    Cerca de 67% das propriedades rurais do país usam algum tipo de tecnologia de precisão, seja na área de gestão dos negócios ou nas atividades de cultivo e colheita. A estimativa é do coordenador da Secretaria Executiva da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão, Fabrício Juntolli, reconduzido ao cargo por mais dois anos.
    A meta para o próximo biênio é fazer um levantamento sobre o panorama da agricultura de precisão no Brasil. A tecnologia, segundo Juntolli, contribui para a melhoria da gestão da propriedade e para a tomada de decisão dos produtores.
    No radar
    Na tentativa de retomar a linha de crédito para ampliação e construção de armazéns a cerealistas, empresários do setor entregarão hoje, em Passo Fundo, pedido formal ao secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller. Desde 2015, cerealistas não têm acesso ao programa federal (PCA).

    Fonte : Zero Hora