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CAMPO ABERTO | Gisele Loeblein Frigoríficos colocam pé no freio na compra de gado

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  • Longe do alvo das investigações da Polícia Federal (PF), os frigoríficos do Estado também estão sentindo os efeitos da Operação Carne Fraca, ainda que de forma indireta. Relatos de pecuaristas indicam que unidades de bovinos pararam de comprar animais. Estariam esperando as definições das suspensões de compra anunciadas por mercados importantes como a China.
    – Nas plantas de Bagé e de São Gabriel da Marfrig, a orientação é de que vão abater apenas o que já está agendado, porque a carne que seria exportada está, neste momento, trancada – afirma um produtor rural.
    – Só estão com as compras agendadas, até segunda ordem – confirma outro pecuarista.
    O frigorífico de Bagé da Marfrig, que tem abate diário de 600 animais, exportaria mais de 50% da produção para os chineses. Se o país asiático de fato suspender as compras, essa carne terá de ser direcionada para o mercado interno. Isso gera efeito cascata em outras empresas, que também seguram as compras do gado. Procurada, a Marfrig não retornou o contato até o fechamento desta edição.
    Zilmar Moussalle, diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado (Sicadergs), diz que há informações sobre essa redução na aquisição de gado mas, oficialmente, não há confirmação.
    – Se os embargos ocorrerem de fato, aí, sim, não tem como continuar abatendo no mesmo ritmo, porque não há onde colocar o produto – garante o diretor-executivo.
    O pé no freio dos abates estaria restrito aos frigoríficos bovinos. Nas aves, informa José Eduardo dos Santos, diretor-executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), as empresas seguem com a atividade normal.
    – Estimamos que essa questão da China seja revertida logo – completa Santos.
    Mesma situação é verificada entre as indústrias de suínos. O processamento mantém-se dentro do programado.
    – Já se tem clareza que o principal mercado, a Rússia, continua normal – explica Rogério Kerber, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Estado (Sips), que também tem expectativa por um desfecho positivo em relação aos chineses.
    Foco na Previdência
    Na abertura da maior feira do Brasil voltada à agricultura familiar, a proposta de reforma da Previdência e a operação envolvendo frigoríficos brasileiros dominaram os discursos de representantes do setor e de políticos. Na 17ª Expoagro Afubra, em Rio Pardo, o receio em relação às mudanças na idade para aposentadoria e na forma de contribuição foi reforçado pelos produtores:
    – Há um mal entendido de que a mulher do campo se aposenta sem contribuir, quando, na verdade, sem o trabalho dela muitas propriedades nem existiriam – disse Benício Werner, presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra).
    Presente na cerimônia, o vice-governador do Estado José Paulo Cairoli disse que concorda com a necessidade de uma reforma previdenciária, mas não nos moldes que está sendo proposta:
    – Deixo a cargo dos deputados a missão de fazer mudanças que não prejudiquem os trabalhadores.
    Presidente da Frente Parlamentar da Agricultura Familiar, o deputado Heitor Schuch (PSB) disse que o aumento da idade mínima para o homem do campo se aposentar irá desestimular os jovens a permanecerem na agricultura familiar.
    A feira espera receber 80 mil visitantes e passar de R$ 40 milhões em negócios de máquinas, equipamentos e agroindústrias até amanhã.
    No radar
    A REFORMA PREVIDENCIÁRIA será tema de audiência pública realizada hoje em Brasília na Comissão Especial que analisa a PEC 287. Na pauta, a situação dos segurados especiais, como os agricultores. O secretário da Previdência, Marcelo Caetano é presença confirmada.
    Sem super-renda
    A supersafra de grãos que se consolida no campo não será sinônimo de super-renda para o produtor. Levantamento da assessoria econômica da Federação da Agricultura do Estado (Farsul) mostra que o aumento dos custos de produção e a queda dos preços das commodities fizeram a rentabilidade encolher, ficando muitas vezes negativa. A margem é calculada a partir da diferença entre receita e custo operacional.
    – As pessoas confundem supersafra com rentabilidade. Produção recorde é muito boa para a economia – pondera Antônio da Luz, economista-chefe da Farsul.
    Nesta safra, o caso mais emblemático quando se fala de perda de rentabilidade é o do arroz (veja gráfico). O prejuízo na cultura aumentou 395% em relação ao ciclo 2015-2016.
    – A produção agora será normal em volume, mas com pior resultado econômico para o arrozeiro do que a do ano passado, quando houve quebra – complementa Antônio.
    Nos bastidores da crise

    Diferentemente do governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD), que se manifestou nas redes sociais e foi à Brasília falar com o presidente Michel Temer sobre a qualidade da carne catarinense, o governador gaúcho, José Ivo Sartori, não se pronunciou.
    Segundo o Palácio Piratini, assim que a Operação Carne Fraca foi deflagrada, Sartori acionou o secretário da Agricultura, Ernani Polo, para que fizesse contato com os representantes do setor.
    O grupo teria avaliado que uma manifestação formal do governo do Estado poderia trazer mais danos do que benefícios, já que o Rio Grande do Sul não tem unidades sob investigação – ao contrário dos nossos vizinhos catarinenses.
    Uma nota assinada por entidades do setor será distribuída. Sartori falou com Colombo e com Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
    Segundo o Conseleite, o valor projetado para o litro de leite tipo padrão em março é de R$ 1,0092, 0,47% menor do que o valor consolidado de fevereiro, que ficou em R$ 1,0140. Para o presidente do Conseleite, Alexandre Guerra, o cenário é de “equilíbrio nos valores neste momento tão difícil para o setor”.
    Colaborou Joana Colussi

    Fonte : Zero Hora