CAMPO ABERTO | Gisele Loeblein

 

  • O grão que foi ao Sul para ficar

    O movimento de produtores gaúchos em busca de novas áreas para cultivo da soja não é novo. E a aposta na metade sul do Estado também não. Mas diferentemente das outras tentativas feitas, na década de 1980 e nos anos 2000, agora o cultivo do grão nessa região dá sinais de que foi para ficar.
    Pelo menos esse é o sentimento dos agricultores, acompanhados de perto pela equipe de Zero Hora, que esteve na região onde a soja se consolida em áreas de pecuária e de produção de arroz. Também é essa a percepção dos pesquisadores, que têm um papel fundamental nesse novo momento.
    É com a ajuda da tecnologia que o grão tem conseguido não só vingar, mas também apresentar resultados satisfatórios nessas novas áreas.
    Na década de 1980, quando foram feitas as primeiras experiências de produção de soja na Metade Sul, as cultivares ainda não tinham tolerância ao glifosato. A tecnologia só chegaria ao Estado no final década de 1990, com a utilização das sementes transgênicas.
    – Isso permitiu uma flexibilização na janela de aplicação do herbicida. Foi uma mudança substancial – avalia Ana Claudia Barneche de Oliveira, pesquisadora de soja da Embrapa Clima Temperado.
    Outro ponto importante foi o desenvolvimento e a melhoria da produtividade de cultivares com ciclos mais precoces. Há 30 anos, se trabalhava com ciclos de 150 dias. Hoje, há ciclos inferiores a cem dias e com rendimento bem acima dos registrados no passado.
    Embrapa e Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) desenvolvem trabalhos com foco na melhor adptação da semente de soja a áreas encharcadas, justamente para atender a essa nova fronteira agrícola do Estado.
    Mas a principal mudança, que faz a soja brotar com força, agora vem da estrutura das propriedades – e da cabeça do produtor. O grão parou de ser tratado como um concorrente.
    – Existe uma mudança de mentalidade. O produtor vê que a soja ajuda a melhorar o solo – completa Ana Claudia.
    E no topo de tudo isso, claro, o preço ainda valorizado da commmodity, que incentiva a produção.
    A soja só tem a ajudar a pecuária. Na Metade Sul, trará nova configuração para a atividade.
    Carlos Sperotto
    Presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul)

  • SOJA RESPONSÁVEL

    A certificação da produção de soja a partir de uma iniciativa global com critérios específicios é o mote da Associação Internacional da Soja Responsável (RTRS, em inglês). Estar dentro da lei, ter condições de trabalho responsáveis, boas relações com as comunidades próximas à propriedade, responsabilidade ambiental e boas práticas são os pré-requisitos para concessão do selo, que não exclui a soja transgênica, explica Daniel Meyer, representante da RTRS no país.
    Entre as certificações já concedidas, a da SLC Agrícola e do grupo André Maggi. Na quarta e na quinta-feira, o Brasil sedia, em Foz do Iguaçu, a 9ª Conferência Internacional sobre Soja Responsável.

  • NANOTECNOLOGIA NO CULTIVO

    Uma pesquisa inédita realizada no Estado pode trazer novos paradigmas para a produção de soja. A Tecnano, empresa incubadora da Fundação de Ciência e Tecnologia do Estado (Cientec), realizou o primeiro encapsulamento de bactérias para uso agrícola.
    A nanotecnologia, uma ferramenta já comum à indústria farmacêutica e de alimentos, poderá ajudar também a agricultura.
    Nanofibras foram aplicadas a sementes de soja com o objetivo de reduzir o uso de fertilizantes nitrogenados. A bactéria do gênero Rhizobium, que ajuda na fixação do nitrogênio no solo, foi colocada dentro de um polímero.
    – A estrutura protegeu a bactéria e fez com que durasse mais tempo – explica Cláudio Pereira, um dos sócios da Tecnano.
    O produto foi desenvolvido pela empresa, que já solicitou a patente, e testado por cientistas da UFRGS, com apoio do CNPq e da Fapergs.

  • MAIS DE 1,4 MIL QUILÔMETROS NO RASTRO DA NOVA FRONTEIRA

    Foram mais de 1,4 mil quilômetros rodados em cinco dias para mostrar o novo retrato econômico da Metade Sul com o avanço da soja na região.
    A equipe, formada pela repórter Joana Colussi, o fotógrafo Fernando Gomes e o motorista Mauro Bertolo, percorreu as zonas rural e urbana dos municípios de São Gabriel, Dom Pedrito, Bagé e Jaguarão.
    Nesta edição, estão as histórias de quem apostou no cultivo do grão e como a expansão transforma a economia local em uma área antes dominada pela pecuária e arroz.
    No Campo e Lavoura da próxima semana, veja como a atividade impactou nos investimentos em silos, armazéns e até em engenhos de arroz, adaptados para receber a safra.

Fonte: Zero Hora

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