Cai impacto ambiental da agricultura na OCDE

Chris Ratcliffe/Bloomberg / Chris Ratcliffe/Bloomberg
Uso de água na agricultura diminuiu na última década em bloco de países da OCDE graças a sistemas de irrigação mais sofisticados; na foto, lavoura no Reino Unido

As mudanças estruturais registradas nas últimas décadas na agricultura mundial trouxeram ganhos de produtividade sem paralelos. Com apenas 1,5 bilhão de hectares no planeta ocupado por lavouras, ou 11% da superfície terrestre total, a agricultura tem conseguido prover boa parte da alimentação para consumo humano graças ao desenvolvimento de novas tecnologias, no que se convencionou chamar nos anos 1960 de a "Revolução Verde" do campo. A expressão se justifica: o acesso a sementes híbridas e técnicas mais modernas de plantio catapultaram a produção global de grãos de cerca de 800 milhões de toneladas, há 50 anos, para 2,5 bilhões de toneladas nesta safra 2013/14.

Uma guinada desse porte, no entanto, não viria sem elevar a pressão sobre o ambiente. A conversão extensiva de terras, o maior uso de água nas lavouras e os resíduos de agrotóxicos no solo são exemplos do preço pago pela expansão agrícola. A boa notícia é que produzir alimentos deixou de implicar necessariamente a continuidade desses estragos, como seria de se supor. Um estudo realizado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que, nos últimos dez anos, um grupo representativo dos 34 países do bloco conseguiu fazer agricultura com menos pesticidas, fertilizantes, água e energia por tonelada produzida.

É o que os autores do "Compêndio de Indicadores Agro-Ambientais" da OCDE chamam de "descasamento" entre as curvas de produção alimentar e utilização de insumos ou recursos naturais no campo. "Isso foi possível graças à integração de questões ambientais ao processo decisório dentro das fazendas, o que ganhou mais consistência a partir de 1990", afirma o relatório de quase 200 páginas, obtido pelo Valor. Essa reversão de tendência entre duas décadas – 1990 a 2000 e 2000 a 2010 – reflete a combinação tanto de legislações mais restritivas e o aperfeiçoamento dos pagamentos por serviços ambientais, como assistência técnica mais cuidadosa e pesquisa. A mão pesada do mercado fez o resto: provocou a profissionalização das cadeias produtivas com a consequente redução de desperdícios, de custos e ganhos de produtividade.

De modo geral, o bloco, que além dos países europeus abrange gigantes territoriais e agrícolas como EUA, Austrália e Canadá, desempenhou muito melhor do ponto de vista ambiental que concorrentes como o Brasil (ler texto abaixo). Tome-se como exemplo a pulverização do campo com agrotóxico (pesticidas, inseticidas e herbicidas). Na última década, as vendas anuais desses produtos diminuíram em 1,1% na OCDE, contra o aumento anual de 0,2% dos dez anos imediatamente anteriores. Boa parte do recuo foi puxada pelos EUA e pela União Europeia, que, juntos, representaram quase 70% das vendas globais de agrotóxico.

À primeira vista, a queda nas vendas desses produtos nos EUA poderia ser atribuída ao fato de o país ser também o maior produtor de culturas geneticamente modificadas – o que, em tese, exige menos pulverizações químicas. Mas como explicar o recuo na Europa, refratária histórica à biotecnologia? "São vários fatores", diz Julian Hardelin, um dos autores do estudo. "Desde a melhor educação dos agricultores, o que torna o uso de insumos mais racional, até o desenvolvimento de agrotóxicos eficientes e a expansão das lavouras orgânicas".

A média anual de vendas de agrotóxicos na OCDE entre as duas décadas caiu de 908 mil toneladas para 826 mil. Nos Estados Unidos, de 325 mil toneladas para 300 mil toneladas. Na UE, o recuo foi de 339 mil a 291 mil no mesmo período.

As vendas aumentaram em praticamente todas os países em transição do bloco, como República Checa, Hungria e Estônia. "Com a entrada na economia de mercado, esses países viram uma recuperação da agricultura e a expansão da produção. Isso elevou a necessidade de pesticidas", mostra o estudo. Ou, curiosamente, em países com expressiva vinicultura, como Chile, Espanha, Nova Zelândia, México e Turquia.

No caso de fertilizantes, de modo geral, a tendência de desaceleração na curva de crescimento de aplicações foi mais acentuada na década de 2000 que nos dez anos anteriores. No caso do nitrogênio, a redução em volume entre 1990 e 2010 foi de 40 milhões de toneladas para 34 milhões de toneladas. Por hectare de terra, de 86 quilos para 63.

Segundo o estudo, parte se explica pela freada na expansão da produção nos anos 2000 e maior eficiência dos agricultores, que souberam manusear de forma mais racional os insumos. Assim como no Brasil, muitos países industrializados detêm uma "poupança" de fertilizantes no solo (o excedente que fica no solo entre uma safra e outra). No caso da OCDE, no entanto, isso permitiu uma redução de aplicações.

Outros indicadores, como a utilização da água pela agricultura, também registraram reversão na última década – se antes a tendência era altista (0,3%), os últimos dez anos foram marcados por um declínio da mesma magnitude (-0,3%), graças a sistemas de irrigação mais sofisticados.

Como toda estatística, porém, sua leitura deve ser vista com cautela. Por englobar 34 países com vocações e áreas bastante distintas, o compêndio da OCDE refere-se a números médios. Há países que registraram desempenhos bons em quase todos os itens e outros ainda estão muito aquém do desejado. Há ainda discrepâncias dentro dos próprios países – casos de regiões mais produtivas e sustentáveis situadas ao lado de outras com altos índices de poluição agrícola.

Entre 2007 e 2009, por exemplo, dois terços dos países da OCDE registraram nitrogênio em excesso na proporção de 40 quilos por hectare. Bélgica, Holanda, Israel, Japão e a Coreia do Sul extrapolaram para 100 quilos por hectare. Apesar da melhora generalizada em reduzir excessos de nutrientes no solo, a intensidade de nitrogênio por hectare permaneceu em níveis altos em termos de potencial de estragos que pode causar ao ambiente. Deficiências preocupantes, alerta a OCDE.

"Mas um número crescente de países está conseguindo descolar o crescimento na produção do excesso de fertilizantes. Entre 1998-2000 e 2007-09, enquanto a produção agrícola crescia a uma média anual de 1% na OCDE, o volume de nitrogênio recuava 1% e o de fósforo, 5%", afirma o estudo.

A média positiva do impacto ambiental da agricultura nos países da OCDE também está relacionada a outro fator: a própria desaceleração do ritmo de crescimento da produção agrícola mundial. Até 2030, a expectativa é de uma expansão anual de 1,4%, contra os 2,1% dos últimos 30 anos. Por si só, isso exerce um papel limitador no impacto que o campo poderia causar no ambiente. "Tudo isso é verdade. Mas não há como negar que evoluímos", afirma Julian Hardelin. "Hoje somos mais eficientes".

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo