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Café da Mantiqueira ganha certificação

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Marcos de Moura e Souza/ Valor  

O produtor Antônio Vilela comemora o selo do INPI: “Há 50, 60 anos, o café da Mantiqueira já tinha qualidade”

Quando vai a São Paulo, Mariana Junqueira para às vezes para tomar um cafezinho no elegante Café Suplicy, no bairro dos Jardins. Ela não é uma socialite, mas, aos 84 anos, essa mineira de Dom Viçoso, no sul do Estado, faz sucesso na casa. A razão é que o café que volta e meia é servido aos clientes é produzido em suas terras na região da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Neta e filha de cafeicultores do sul de Minas, dona Mariana é a matriarca na fazenda Rancho São Benedito – nome de uma das marcas prestigiosas de cafés especiais da região.

Na sexta-feira, ela foi uma das estrelas de uma cerimônia na cidade de Carmo de Minas, onde vive e onde está a sua fazenda, para a entrega dos primeiros certificados de indicação de procedência do café da Serra Mantiqueira. Trata-se de um selo concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) a regiões que têm algum produto com características únicas graças ao ambiente e ao modo de fazer de suas populações.

Há apenas 16 regiões no país com certificados semelhantes, entre elas Jalapão (TO), devido ao artesanato com capim dourado; pampa gaúcho, com a carne; Paraty (RJ) com a cachaça; e Vale dos Vinhedos (RS), com os vinhos.

A Serra da Mantiqueira, que divide o sul de Minas do Estado de São Paulo, é uma produtora centenária de café. Nos últimos anos, fazendeiros do lado mineiro passaram a investir na produção de café especial. Os resultados surgiram na forma de prêmios em concursos de qualidade. Um deles entrou para a história: após uma nota extraordinariamente alta num desses concursos, um produtor vendeu num leilão uma saca de 60 kg por R$ 15 mil. A cotação normal está na faixa de R$ 500.

  

A indicação de procedência do INPI era algo que alguns produtores tentavam havia anos. A ideia é que o selo agregue valor ao café local – principalmente ao café especial -, promova a região e proteja o nome Mantiqueira como marca exclusiva dos produtores daqui, diz o presidente da Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira, Hélcio Carneiro Pinto.

Estudos e análises que ajudaram a sustentar o pedido ao INPI identificaram traços comuns no café produzido em 22 municípios mineiros da Serra da Mantiqueira. São traços identificáveis (por especialistas e apaixonados) no aroma, na doçura, na acidez, nas notas cítricas. Resultado da altitude, do plantio e da colheita artesanais e dos cuidados no beneficiamento.

Nos 22 municípios estão cerca de 8 mil produtores, responsáveis por uma safra anual de 1 milhão de sacas. Por enquanto, apenas três ganharam o direito de usar o reconhecimento do INPI. É que não basta estar na região: para obter o selo, é preciso que os cafeicultores tenham suas lavouras em altitude superior a 850 metros; o café seja estocado em armazém credenciado, a produção atenda a critérios socioambientais; e que seu café obtenha no mínimo 80 pontos em concursos de qualidade. A expectativa é que se multipliquem os cafeicultores com o selo.

Por muitos anos, produtores cultivaram aqui o café arábica Bourbon, cujo sabor se destaca. A opção pelo Bourbon não se devia à demanda por cafés diferenciados, mas porque, nas alturas da Mantiqueira, as safras desse tipo de planta começavam um pouco mais cedo que a dos demais cultivares. “Há 50, 60 anos, o café da Mantiqueira já tinha qualidade. Os mais velhos contam que eles exportavam para a França e para o Vaticano”, diz o cafeicultor Antônio Junqueira Vilela, enquanto mostra os cafezais na sua fazenda em Olímpio Noronha. Mas a produtividade não era um forte. O que os netos daqueles produtores fizeram foi optar pela quantidade. Sem estímulo de mercado para produzir cafés especiais, eles adensaram as áreas de plantio – de mil plantas por hectare, que era a prática das gerações anteriores, para 5 mil a 10 mil.

“Só que na quantidade você se iguala”, diz Vilela, que também obteve o selo do INPI. E para uma região montanhosa como é a região da Mantiqueira, igualar-se com zonas com uma topografia menos acidentada era uma desvantagem. Na Mantiqueira não é possível fazer colheita mecanizada, como na região do serrado mineiro, por exemplo. Até que, em 2002, um dos primeiros consultores contratados pelos produtores provou o café da região e decretou que havia algo de muito bom naquela xícara, mas que precisava ser lapidado.

Daí em diante, os produtores começaram a mudar – ou a resgatar algumas das práticas de seus avós. “No ano passado, o Sebrae começou um projeto na Mantiqueira para potencializar o trabalho deles pela produção de cafés especiais”, conta Rogério Galuppo, analista de agronegócio do Sebrae de Minas. A entidade trouxe técnicos em mercado e tecnologia para o sul de Minas a fim de dar mais um impulso aos produtores. Os prêmios pela produção de cafés especiais começaram a virar rotina. O momento não podia ser mais propício. O demanda mundial por cafés diferenciados cresce mais aceleradamente do que a por cafés comuns.

Mariana Junqueira e Márcio Eleno, seu filho que pilota a produção de café nos 200 hectares de terras da família que o digam. “Vendíamos muito para Santos, um café commodity. Hoje somos produtores de cafés especiais”, diz Eleno. Além de fornecer café para o Café Suplicy e para o Nicecup, também em São Paulo, a família exporta a maior parte de sua produção para Japão e EUA – países que consomem boa parte do que a Mantiqueira produz.

Fonte: Valor | Por Marcos de Moura e Souza | De Carmo de Minas